A Rússia começou a montar os seus próprios BMW em Kaliningrado e agora é possível comprar um SUV BMW X7 russo, novinho em folha, por um preço bem mais baixo.

 

As viaturas são montadas na Rússia, na antiga fábrica da BMW que os alemães abandonaram logo depois do início da operação militar de Moscovo na Ucrânia..

Confrontados com o potencial técnico e de recursos humanos de uma infraestrutura de produção da marca alemã, os russos não desperdiçaram a oportunidade, assumiram os funcionários experientes, as peças que restavam e as linhas de montagem e começaram a construir automóveis por conta própria. Sem partilhar um tostão dos lucros com os alemães.

Ou seja: existem agora duas marcas BMW. Aquela sediada em Munique e uma outra sediada em Kaliningrado.

Os BMW montados na Rússia estão devidamente equipados, incluindo acessórios difíceis de encontrar na Alemanha, mas estão a ser vendidos 20 a 40% mais baratos que os modelos construídos pelos alemães.

No início, os russos começaram a utilizar kits de montagem de BMW que os alemães deixaram em stock na fábrica. Mas, aparentemente, a coisa funcionou tão bem que o número de carros montados excede agora os kits existentes. Mais: a fábrica russa da BMW só montava os modelos que eram lá produzidos pelos alemães anteriormente (X5, X6, X7), mas agora planeiam produzir também toda a Série 5 da BMW.

O youtuber russo Kirill Chernov, que documenta a circunstância, é cauteloso e não admite abertamente de onde vêm os kits de montagem, mas afirma claramente que estão a ser montados novos modelos, que já não são construídos com as peças que estavam em stock na fábrica.

 

 

A fábrica de Kaliningrado poderá estar a importar peças de fábricas chinesas ou, clandestinamente, de fábricas da BMW espalhadas pelo mundo (sabe-se que há fábricas de marcas automóveis alemãs a funcionar durante a noite, que produzem peças à revelia dos planos de produção industrial das respectivas casas mãe). Mas as duas hipóteses são meramente especulativas, porque é difícil saber de onde vêm os kits, sendo que um BMW Série 5 tem cerca de 20.000 a 30.000 componentes.

Os russos também começaram eles próprios a fabricar peças para os automóveis que estão a construir, mas apenas aquelas que são tecnologicamente menos exigentes. Até porque os sistemas digitais, por exemplo, são difíceis de replicar, sendo protegidos por encriptação e níveis de integração altamente complexos, dependendo até de servidores protegidos da marca alemã.

É por isso que se torna deveras intrigante a capacidade da fábrica de Kaliningrado continuar a produzir automóveis BMW para além dos stocks que a marca de Munique lá deixou.

Mas é o que acontece quando se isola e sanciona cega e displicentemente um país como a Rússia, que não tem falta de engenheiros nem de espírito inventivo.

A BMW está, claro, furiosa, porque a Rússia continua a produzir automóveis da marca sem a sua aprovação, rejeitando a premissa de que são BMW’s tal e qual como os originais. E nesse aspecto, terá alguma razão, porque  muitos dos componentes serão provavelmente cópias.

Mas também é preciso dizer que a prórpia BMW fabrica componentes nas sete partidas do mundo e a fiabilidade da marca já conheceu melhores dias, o que acontece na verdade com toda a indústria automóvel alemã, principalmente quando se decidiram a construir aplicações de quatro rodas, em vez de automóveis. Não por acaso, a relação preço/qualidade das viaturas da marca de Munique é hoje frequentemente colocada em causa.

De qualquer forma, os BMW russos serão sempre validados no mercado, porque aparentemente não diferem em nada que possa ser notado pelos utilizadores e até por mecânicos das redes de assistência espalhadas pelo mundo, pelo que, no mercado de usados, serão na maior parte dos casos avaliados como originais.

E se o leitor se está a perguntar se não há aqui um crime sobre direitos de propriedade e patentes industriais, a resposta é, sim, há. Mas considerando o furto a que os russos foram submetidos pelos países ocidentais, com o congelamento de activos, a implementação de sanções financeiras e comerciais e os embargos energéticos, a ilegalidade da operação da fábrica de Kaliningrado é meramente anedótica.