Da noite para o dia, Donald Trump e J.D. Vance decidiram falar verdade e, algo surpreendentemente, estão agora a acusar Israel de acções irreflectidas, assassinato de civis, ingratidão para com o seu único aliado e insolência diplomática, sendo que essas acções e essa pesporrência não são de agora, nem pouco mais ou menos.

 

O Vice-Presidente Vance fez um alerta mordaz às autoridades israelitas que criticaram o Memorando de Entendimento entre Washington e Teerão (que seria mais correctamente denominado como acto de capitulação dos americanos), assinado no Palácio de Versalhes, em França, na quarta-feira. Em declarações à imprensa na quinta-feira, Vance sublinhou que os Estados Unidos são o único aliado poderoso de Israel e instou os críticos sionistas a reconsiderarem a sua abordagem.

O memorando provocou reacções negativas em Israel, com algumas autoridades do pequeno país do Médio-Oriente a declararem que não se sentirão obrigadas a cumpri-lo. Vance, ao abordar questões sobre a componente libanesa da guerra com o Irão, com os iranianos a sugerirem que não honrarão o acordo se Israel continuar a atacar o Hezbollah naquele país, elogiou o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu por se ter empenhado construtivamente no acordo (!), mas emitiu um alerta em relação às

“pessoas dentro do gabinete de Bibi que vieram a público atacar o acordo e, de certa forma, atacaram pessoalmente o presidente dos Estados Unidos”.

Vance salientou que Israel tem poucos amigos no mundo para além dos EUA e que é altamente dependente da América para se defender, alertando os críticos israelitas da administração Trump para “acordarem e perceberem a realidade” da sua situação:

“Donald J. Trump é o único chefe de Estado em todo o mundo que simpatiza com a nação de Israel neste momento… Dois terços das armas defensivas que protegeram a sua pátria foram construídas por mãos americanas e pagas com o dinheiro dos impostos americanos… Acordem e percebam a realidade da situação em que este país se encontra.”  

 

 

Por seu lado, Donald Trump repreendeu o governo sionista em termos também peremptórios, que chocam abertamente com o seu recorrente comportamento servil para com Telavive, afirmando numa conferência de imprensa, na quarta-feira, quando se encontrava em França, no encontro dos G7:

“Israel luta contra o Hezbollah há muito tempo e muitas pessoas estão a ser mortas… Os ataques destroem edifícios residenciais onde há muita gente que não é do Hezbollah.”

O homem foi injectado com o soro da verdade, de certeza. Seria óptimo que ficasse agarrado a essa droga e parar de mentir por cada vez que abre a boca.

 

 

Os comentários de Vance e Trump sublinham as tensões entre os EUA e Israel, que parece frequentemente menos interessado ​​em fazer as pazes com o Irão e os seus aliados no Líbano do que Washington. Um dos primeiros objectivos que os israelitas estabeleceram para si próprios na guerra foi tomar permanentemente parte do sul do Líbano como zona de segurança contra o Hezbollah, e Netanyahu afirmou ontem que não está disposto a ceder terreno no país vizinho, bem como determinado em manter o controlo de Gaza. Mas, de qualquer forma, a atitude do regime sionista não é nova, sendo que desde 2025 que contraria e trai a agenda da Casa Branca com notável desfaçatez.

 

 

Ontem à noite surgiram até notícias de que o Irão terá suspendido todo o período de negociações de 60 dias com os EUA devido à violação directa da primeira cláusula do memorando de entendimento, já que os ataques israelitas ao sul do Líbano constituem uma quebra contratual, menos de 24 horas após a assinatura electrónica do memorando, segundo as agências Fars e Al-Mayadeen.

Aparentemente, a delegação iraniana já se preparava para viajar para a Suíça para iniciar a primeira ronda de negociações antes da decisão do Irão de suspender toda a viagem. Fala-se que o Irão também não cumprirá unilateralmente os seus compromissos e, até que esteja plenamente assegurado de que os ataques israelitas ao Líbano cessaram e que os EUA cumpriram, na prática, as obrigações da primeira cláusula, as negociações continuam canceladas.

 

 

Esta notícia precisa de ser confirmada oficialmente, já que o tratado assinado na quarta-feira por Donald Trump é mais que vantajoso para Teerão. Mas não deixa de ser pertinente sublinhar que Israel pode perfeitamente inviabilizar o acordo que a Casa Branca tanto desejava, continuando a atacar o Libano nos próximos dias ou semanas. Nesse caso, tudo indica que o Irão irá retaliar e abandonar o memorando. E neste quadro, mais uma vez é clara a fragilidade da posição estratégica e negocial dos Estados Unidos, reféns que são tanto do seu aliado como do seu inimigo.

Até porque o fornecimento de armas e dados de inteligência dos EUA a Israel não passa pela Casa Branca, mas pelo Congresso. E o Congresso, como o Contra documentou nas últimas semanas, está empenhado em dar a Telavive tudo o que Telavive quiser, basicamente.

Donald Trump, por esta altura, deve estar mais arrependido de ter começado a guerra no Golfo do que Madalena dos seus pecados.