O nevoeiro não esconde monstros, mas alberga vida. Algumas das suas gotículas integram colónias de milhões de bactérias, que prosperam neste ecossistema, enquanto consomem poluentes suspensos no ar.

 

Pode parecer uma versão distorcida do clássico filme de John Carpenter, mas estas nuvens baixas estão realmente repletas de bactérias vivas, de acordo com um novo estudo.

As descobertas, publicadas na revista Environmental Microbiology, mostraram que a neblina está repleta de vida, de tal forma que os investigadores comparam o fenómeno a um vasto ecossistema aquático.

O coautor do trabalho, Ferran Garcia-Pichel, da Universidade Estadual do Arizona, disse ao USA Today.

“Descobrimos que milhões de bactérias habitam… gotículas de nevoeiro.”

E em declarações ao phys.org, acrescentou:

“Quando se consideram todas as gotículas juntas, a concentração de bactérias é a mesma que no oceano.”

A presença de bactérias em gotículas de água suspensas no ar não é uma novidade por si só. Mas o estudo ajuda a elucidar o que as bactérias fazem enquanto estão suspensas na neblina e noutras nuvens — algo que não era claro antes — e o impacto disso no ambiente em geral.

No mesmo artigo do phys.org, a autora principal do estudo, Thi Thuong Cao, investigadora da ASU, afirmou:

“Existe um conhecimento muito limitado sobre os tipos de bactérias presentes no nevoeiro, que é como uma nuvem ao nível do solo.”

Para investigar este reino microscópico sombrio, os investigadores recolheram meticulosamente amostras de ar antes, durante e depois dos eventos de nevoeiro. Como o vento pode dispersar os bancos de nevoeiro e dificultar a recolha de amostras consistentes, os investigadores concentraram-se num tipo específico chamado nevoeiro de radiação, que se forma em dias mais calmos, quando o solo arrefece e faz baixar a temperatura do ar, permitindo que as gotículas de água se condensem perto da superfície.

Após recolherem amostras meticulosamente, os investigadores descobriram que apenas 1% das gotículas de nevoeiro continham bactérias. Mas uma pequena quantidade destas gotículas, no total, contém cerca de dez milhões de bactérias, o que não é negligenciável.

Umas prosperaram mais do que outras. A população de uma bactéria chamada Metilobactéria, conhecida por consumir compostos de carbono simples, incluindo poluentes como o formaldeído, aumentou após os eventos de nevoeiro. Uma análise mais detalhada mostrou que as bactérias estavam a crescer e a multiplicar-se activamente. Thuong Cao comentou estas descobertas:

“Observámo-las ao microscópio e constatamos que, sim, as bactérias estão a ficar maiores e a dividir-se, por isso há crescimento. Verificámos também que estão a usar o formaldeído como alimento para sustentar o seu crescimento.”

Garcia-Pichel afirmou que os factos representam uma “mudança de mentalidade” em relação à forma como pensamos sobre o nevoeiro porque

“Se as bactérias estão a proliferar, então as gotículas tornam-se um habitat”.

A partir deste habitat, as bactérias podem estar a influenciar a qualidade do ar, absorvendo poluentes, por exemplo. Esta possibilidade pode levar a uma reflexão sobre os apelos para começar a recolher nevoeiro para obter água potável, segundo os investigadores.