O método é antigo, elaborado pela academia pós-moderna do século XX. Primeiramente, ressignifica-se a linguagem. Depois, constrange-se quem insiste em chamar as coisas pelo nome. Por fim, tenta-se transformar o novo vocabulário em norma, em diretriz, em lei. A engenharia social raramente começa no Código Penal. Quase sempre, começa no dicionário.
Em 1998, um periódico ligado à American Psychological Association sugeriu suavizar a terminologia, como se a gravidade moral fosse apenas uma questão de conotação. A elite cultural chama isso de refinamento. Na prática, é anestesia. A partir daí, a genealogia se encaixa: Freud contribui para sexualizar a infância no imaginário moderno; literatura e cinema passam a tratar criança como miniadulto atravessado por impulsos; Reich converte fantasia em agenda e empurra a libertação sexual para dentro do ativismo. No fim, a revolução dos costumes descobre o atalho para colonizar o futuro: desmoralizar o pai, ridicularizar a mãe e corroer o vocabulário que ainda protege a infância.
É nesse terreno que Kinsey surge como altar acadêmico e arma simbólica. O relatório não relativiza apenas o pudor; ele mina a reputação moral de uma geração inteira, carimbando a família como hipocrisia clínica. Sob o verniz científico, aparecem tabelas sobre reações sexuais infantis e dados obtidos por vias indecorosas, segundo críticos e biógrafos. Ainda assim, a academia absorve como pesquisa, a imprensa vende como progresso e o público aprende a chamar de normalidade. Não por convicção, mas por condicionamento.
O circuito se repete até parecer natural. Escolhe-se um culpado coletivo, produz-se tempestade de teses, filmes, reportagens e conferências, e o acusado, para parecer razoável, adota o idioma do acusador. Quando isso vira hábito, entram a etapa administrativa e a etapa jurídica, até que a etapa penal apareça travestida de proteção. Nesse ponto, resistir já não é discordar. É confessar. A objeção vira suspeita.
O nome disso é dessensibilização. Acostuma-se o público por camadas, por símbolos, narrativas, slogans, debates, enquanto se mede a reação e se ajusta o ritmo. Se houver revolta, recua-se e chama-se de erro editorial. Se a reação for fraca, consolida-se o avanço e passa-se ao próximo degrau. Nada vem anunciado como ruptura. Tudo vem embalado como atualização clínica, modernização pedagógica, cuidado com vulneráveis. A substância permanece a mesma.
O professor Olavo de Carvalho apontou o detalhe que desmonta a encenação. Pedofilia não é amor a uma pessoa. É fixação na imaturidade, num instante cronológico que desaparece. A criança cresce, o objeto some, o predador procura outro. Chamar isso de amor não é só cinismo; é incapacidade básica de distinguir pessoa de fase. E quando essa incapacidade vira cátedra, pauta e manual, entrega-se a formação moral dos filhos a adultos regressivos convencidos de que são vanguarda.
A história registra que civilizações toleraram práticas desse tipo. Onde elas recuaram, recuaram sobretudo sob a influência cristã, que introduziu uma ideia insuportável para qualquer cultura predatória: a infância não é matéria-prima. Só que todo freio moral cria inimigos. E inimigos aguardam ocasião.
Os Epstein Files funcionaram como confirmação documental do que muita gente preferia chamar de exagero. Ali aparece uma rede com proteção estrutural, trânsito entre bilionários, prestígio acadêmico e cobertura institucional (o ambiente em que agendas se decidem em jantares e a ética vira ornamento). Quando os documentos falam, a pergunta deixa de ser se existe. Passa a ser quem sustenta, quem protege e quem apaga vestígios.
O restante é previsível. A cada dano produzido, surge uma teoria pronta para culpar família, religião, cultura, capitalismo, qualquer coisa que não seja o operador do dano. O engenheiro quase nunca aparece na fotografia. Aparece a obra demolida, e ainda se pede aplauso.
A rede globo também relativiza a pedofilia assim como o PT: pic.twitter.com/ozAYcZcP7J
— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) June 16, 2024
No século XXI, porém, não basta brutalidade. Exige-se consentimento. Por isso a sequência é precisa e silenciosa: primeiro muda-se a linguagem, depois muda-se a percepção e, quando a percepção já foi domesticada, muda-se a lei. Quando a lei enfim mudar, dirão que sempre foi assim.
MARCOS PAULO CANDELORO
__________
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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