Houve um tempo em que se acreditou, com a candura típica do Iluminismo, que bastava alfabetizar as massas para vaciná-las contra a barbárie. A nação mais culta da Europa, pátria de Goethe e de Kant, tratou de desmentir a tese erguendo arame farpado e fornos. Foi de dentro de uma cela, e não de uma cátedra, que Dietrich Bonhoeffer compreendeu o essencial, ou seja, que o inimigo da civilização nunca foi propriamente o criminoso, mas o tolo.
Convém distinguir pois que a diferença é de natureza e não de grau. O malfeitor, ainda quando atroz, sabe que transgride, e nesse saber mora a sua perdição e a nossa esperança, porque toda consciência que se reconhece culpada deixa um flanco aberto, algum resíduo de remorso que se pode explorar, e quem sabe uma redenção a negociar. Com o estúpido não há flanco. Ele é hermético, sincero, dócil e absolutamente convicto. O senhor argumenta com a maldade, mas com a imbecilidade jamais, posto que ela não refuta o seu argumento, ela sequer o percebe.
Os gregos, que já haviam pensado tudo antes de nós, tinham o termo exato, e não era ignorância no sentido inocente, mas amathia, a recusa ativa de saber, o conforto blindado de quem decidiu não compreender. Repare, caro leitor, que o ignorante ainda pergunta, ao passo que o estúpido já tem todas as respostas, e as repete em voz alta, e as adesiva no vidro traseiro do carro.
Daí a sua serventia histórica. Nenhum tirano precisou jamais de um exército de vilões, bastou-lhe um rebanho aplicado de tolos, dispostos a trocar a própria cabeça pela morna sensação de pertencer à manada. O poder de um se alimenta da abdicação de muitos, e essa abdicação, hoje, costuma vir embrulhada em hashtag, slogan e selo azul. A burrice, amigo, não vem de fábrica, e sim como entrega voluntária, covardia moral travestida de opinião.
Por isso o diploma não protege ninguém, e a história está abarrotada de cérebros refinadíssimos que se ajoelharam diante do primeiro uniforme bem cortado, porque inteligência e sabedoria não são primas, mal se cumprimentam. O mais sinistro de toda essa diagnose é que o tolo dorme bem, dorme o sono justo dos que nunca duvidaram de si. Erguemos escolas durante séculos para vencê-lo, e ao cabo entregamos a ele um microfone, uma plateia e a inabalável certeza de que está, enfim, do lado certo da história.
MARCOS PAULO CANDELORO
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Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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