Retrato de Francis Bacon . Paul van Somer I . 1617 . Legenda: Francis Bacon, Lorde Guardião e depois Lorde Chanceler de Inglaterra, 1617

 

 

“Para escrevermos com poderoso efeito, precisamos de escrever sobre a vida que levámos, tal como Bacon fez ao escrever Shakespeare.”

Mark Twain

 

A questão de quem escreveu as obras atribuídas a William Shakespeare tem intrigado estudiosos, historiadores e entusiastas da literatura há séculos. Embora a visão tradicional sustente que o homem de Stratford-upon-Avon foi o autor da extensa obra dramatúrgica e lírica que assinou, teorias alternativas desafiam esta narrativa com persistência. Entre as mais duradouras e elaboradas encontra-se a teoria baconiana, que postula que Sir Francis Bacon – o renomado e lendário filósofo, estadista, cientista e ensaísta das eras isabelina e jacobina – foi o verdadeiro génio por trás do vasto cânone shakespeariano.

 

Esta ideia foi avançada pela primeira vez em meados do século XIX por figuras como Delia Bacon (sem parentesco com Francis) e William Henry Smith, e desde então tem sido desenvolvida por uma série de investigadores que apontam para alinhamentos filosóficos percebidos, paralelos estilísticos impressionantes, alusões crípticas e contextos históricos que ligam intimamente a vida, os interesses e os escritos de Bacon às peças atribuídas a Shakespeare.

Os proponentes da teoria argumentam que Bacon, constrangido pelo seu elevado estatuto social, pelas ambições políticas e pela necessidade de manter uma reputação imaculada na corte, utilizou o nome e a pessoa de Shakespeare como uma máscara conveniente para disseminar as suas ideias inovadoras através do palco. O teatro, na visão de Bacon, não era mero entretenimento, mas um meio poderoso com potencial educativo, capaz de instruir as massas de forma subtil e envolvente.

A um aristocrata influente e prestigiado, que chega a desempenhar funções de chanceler, seria exigido um comportamento público sóbrio e concordante com a ética da corte, e os dramaturgos do século XVII britânico, se bem que muito apreciados, não tinham estatuto social compatível com a sua popularidade. Seria impensável que um Lorde com o poder político que Bacon detinha se exibisse publicamente como o autor de comédias como A Megera Domada, que contém diálogos explicitamente sugestivos e cheios de trocadilhos sexuais entre Petruchio e Catarina, As Alegres Comadres de Windsor, que explora temas de sedução e traição amorosa, ou Medida por Medida, que embora seja classificada como uma das “comédias sombrias”, fala de bordéis e corrupção através do comércio sexual, sendo bastante explícita na sua temática burlesca.

Este ensaio explora a possibilidade da autoria de Bacon, examinando uma ampla gama de evidências chave, coincidências implausíveis e óbvios paralelismos, incluindo semelhanças estilísticas e temáticas, artefactos históricos, adequações biográficas notáveis e ligações directas a peças específicas. Reconhecendo o consenso académico predominante contra esta teoria, que a considera especulativa e sem provas irrefutáveis, argumentamos que o exame destas ligações enriquece a compreensão da literatura renascentista e contribuirá, sem pretensões dogmáticas, para o apuramento da verdade histórica.

Para contextualizar, a dúvida sobre a autoria shakespeariana não é um fenómeno moderno. Embora tenha ganho tracção no século XIX, inquéritos prévios surgiram ainda no século XVIII, com comentários de figuras como Voltaire, que se maravilhavam com a sofisticação das obras em contraste com a biografia humilde do homem de Stratford. Delia Bacon, em The Philosophy of the Plays of Shakspere Unfolded (1857), argumentou que as peças eram veículos para uma filosofia avançada, demasiado erudita para um actor provinciano de modesto registo biográfico. Desde então, a teoria baconiana evoluiu, incorporando análises criptográficas, estudos biográficos e comparações textuais, tornando-se um pilar do debate sobre a autoria do legado shakespeariano.

 

Retrato de William Shakespeare . Cerca de 1600 . Autor desconhecido . Legenda em latim: “Principum amicitias”, literalmente “As amizades dos príncipes” (expressão idiomática que adverte sobre alianças com figuras poderosas)

 

Afinidades filosóficas e estilísticas

Um dos pilares fundamentais da teoria baconiana reside nas profundas correspondências entre os trabalhos em prosa de Bacon e as peças shakespearianas. Como observou Constance Pott, uma das principais defensoras da teoria:

“Os assuntos que mais ocupavam a mente de Bacon, as opiniões que ele mais fortemente expressava, as ideias que desejava especialmente incutir, permeiam as peças. Aquelas coisas que são explicadas nos trabalhos em prosa de Bacon encontram-se repetidas, ou aludidas, ou formando a base de belas metáforas e analogias, nas peças. E o vocabulário de Bacon e de Shakespeare é, de forma surpreendente, o mesmo.”

Esta sobreposição não é superficial; estende-se a temas centrais como as maneiras sociais, a mente humana e os princípios morais, que foram meticulosamente coligidos por W.F.C. Wigston no seu livro Francis Bacon: Poet, Prophet, Philosopher, Versus Phantom Captain Shakespeare The Rosicrucian Mask. Wigston destacou uma multitude de pensamentos e assuntos partilhados, sugerindo um quadro intelectual comum que vai além da mera coincidência e aponta para uma autoria unificada.

Os escritos de Bacon sobre a esperança, o espanto e o amor ressoam de forma notável ao longo da obra shakespeariana. Por exemplo, a ênfase de Bacon na esperança como uma força sustentadora e motivadora da acção humana espelha a sua representação em peças como A Tempestade, onde Próspero mantém a fé num futuro melhor apesar das adversidades, ou em Conto do Inverno, onde personagens suportam longas provações através de uma resolução optimista e redentora. A fascinação baconiana com os prodígios da natureza e o engenho humano preenche os solilóquios shakespearianos e está presente em elementos mágicos, como as visões encantadas em Sonho de uma Noite de Verão ou as ilusões em A Tempestade. O enquadramento a que Bacon sujeitava o tema do amor romântico, que via como uma paixão potencialmente disruptiva que deve ser subordinada a perseguições maiores e mais racionais, é recorrente nas histórias e tragédias de Shakespeare, onde os afectos frequentemente cedem lugar à ambição, ao dever ou à vingança, como em Romeo e Julieta ou António e Cleópatra.

Elizabeth M. Brameld, no ensaio The Day Star Of The Muses, publicado em Baconiana em 1968, observou que Bacon evitava deliberadamente menções directas ao nome de Shakespeare ou citações literais das peças nos seus ensaios, mas ainda assim, deixava pistas de construção formal de um heterónimo:

“O poeta veste os pensamentos do filósofo em maravilhosos robes; a linguagem do erudito deve ser mais simples no estilo, as imagens que desenha devem ser mais simples, e ainda assim, apesar de tudo, não só nos pensamentos, mas na formulação e na maneira de se expressar, Bacon não podia evitar revelar-nos muito daquilo que nos leva de volta às Peças.”

O Dr. Edwin Abbott, um erudito bíblico e literário, comentou sobre o estilo versátil de Bacon, notando que variava quase tanto como a sua caligrafia, influenciado mais pelo assunto do que pela idade:

“Poucos homens mostraram versatilidade igual em adaptar a sua linguagem à mais ligeira nuance de circunstância e propósito.”

Esta adaptabilidade alinha-se perfeitamente com as vozes diversas e multifacetadas encontradas nos trabalhos de Shakespeare, desde o lirismo poético até ao discurso prosaico. R. Eagle, em New Views for Old (1930), apontou que há, de longe, mais alusões ao palco e à actuação nos trabalhos de Bacon do que no próprio Shakespeare, sugerindo uma familiaridade íntima e prática com o mundo teatral. Referências frequentes ao teatro na prosa de Bacon, como a metáfora da vida como um palco onde cada homem desempenha o seu papel, sublinham esta ligação profunda e reforçam a ideia de que ele integrava o as artes de palco com os seus escritos filosóficos. O Juiz Nathaniel Holmes, em 1884, afirmou categoricamente que uma comparação dos escritos de autores novecentistas em prosa e verso prova que nenhum outro escritor daquela era, excepto Bacon, pode entrar em competição pela autoria.

Para aprofundar estes paralelos, consideremos exemplos específicos de afinidades linguísticas e temáticas. No Novum Organum de Bacon, a discussão sobre os ‘ídolos da mente’ – erros de percepção que distorcem a realidade – ecoa o tema central de ilusão e aparência versus realidade em A Tempestade, onde Próspero manipula percepções através de magia para revelar verdades mais profundas. Da mesma forma, o ensaio de Bacon Da Verdade ressoa com o famoso monólogo de Hamlet “Ser ou não ser”, ambos questionando a natureza da existência, da verdade e da ilusão humana. Estes não são meros ecos casuais; são reformulações sofisticadas que sugerem uma mente singular moldando tanto a expressão filosófica como a dramática. Além disso, o uso recorrente de metáforas naturais é revelador: Bacon compara o conhecimento a uma árvore que cresce organicamente, enquanto Shakespeare emprega imagens de jardins florescentes em peças como Ricardo II e Hamlet, simbolizando o desenvolvimento humano e moral. Outro exemplo notável é o tratamento dos factores aleatórios no destino dos homens. No seu ensaio Da Fortuna, Bacon personifica a fortuna como uma deusa caprichosa, um conceito que paraleliza passagens em Como Gostais, onde a fortuna governa os destinos dos personagens de forma imprevisível.

A integração de conhecimento científico e observações empíricas em ambas as obras é particularmente convincente. Bacon, considerado o pai do método empírico, infunde os seus escritos com descrições detalhadas de fenómenos naturais, semelhantes às observações precisas da flora e da fauna e de eventos climáticos encontradas em peças como O Rei Lear, ou em A Tempestade. Esta convergência sugere não só um interesse compartilhado, mas uma abordagem unificada do conhecimento, onde o teatro serve como laboratório para a exploração lírica de ideias filosóficas.

 

Procissão de Isabel I de Inglaterra . Robert Peake o Velho . 1601

 

Razões para o anonimato e a poesia oculta de Bacon.

O potencial anonimato de Bacon como autor das peças shakespearianas decorre de vários factores interligados, tanto pessoais como sociais. Parker Woodward, em Baconiana (Outubro de 1905), argumenta a este propósito:

“Se o público soubesse que o propósito principal das peças publicadas não era tanto entretê-los como levá-los à escola, o Novo Método iria certamente falhar. Revelar o autor era revelar o mestre-escola, cujo trabalho seria entendido como uma impertinência por aqueles para quem era mais adequado.”

O grande projecto de Bacon, a Instauratio Magna, visava uma reforma completa do conhecimento humano; revelar a sua autoria em obras teatrais populares poderia minar esta missão, fazendo com que fosse vista como propaganda disfarçada de entretenimento.

Como afirma a introdução ao fac-símile de Manes Verulamiani por W.G.C. Gundry (1956):

“Sem uma máscara, o plano de Bacon para a sua Instauratio Magna não teria sido possível; William Shakespeare era uma característica necessária no vasto esquema da experiência filosófica de Bacon, que tinha o mundo como teatro, épocas para a sua realização e a posteridade como beneficiária.”

O alegado sangue real de Bacon – que as más línguas diziam ser filho ilegítimo da Rainha Isabel I e de Robert Dudley, Conde de Leicester – pode ser considerada uma das várias razões para o seu anonimato, pois qualquer revelação poderia ameaçar a estabilidade política e pessoal. Esta linhagem oculta, se verdadeira, necessitaria de extrema discrição em todas as expressões públicas, incluindo obras literárias que pudessem aludir a temas de sucessão ou ilegitimidade.

Bacon era conhecido como poeta pelos seus contemporâneos, como é validado pelos tributos que lhe foram prestados, embora este prodigioso escritor tivesse deixado pouca poesia impressa sob o seu próprio nome. Talvez a prova mais importante do prestígio que Bacon detinha como autor na sociedade da altura resida em The Great Assizes Holden in Parnassus (1645), onde Bacon é retratado por George Wither como o Chanceler do Parnasso, presidindo sobre uma assembleia de poetas ilustres. A evidência contemporânea de Bacon como poeta oculto inclui louvores de amigos e colegas, como Ben Jonson, que elogiou o espírito e a eloquência de Bacon em versos que lhe dedicou.

Os elogios póstumos, particularmente em Manes Verulamiani, uma colecção de poemas obituários em latim escritos pelos amigos de Bacon, louvam-no explicitamente pelas suas comédias, tragédias e poesia, o que é espantoso porque ele não deixou qualquer dramaturgia em seu nome. Este enigmático mas eloquente louvor utiliza até expressões que ecoam as inscritas no monumento de Shakespeare na igreja de Stratford.

A própria admissão de Bacon em cartas e escritos privados revela um amor profundo pela poesia, que ele cultivava em secreto para evitar complicações profissionais e sociais. E numa célebre carta que escreveu ao seu tio, Lord Burleigh, diz que “estará pronto a fornecer uma máscara” (“Will be ready to furnish a Masque”) , indicando o seu envolvimento em entretenimentos cortesãos e máscaras, que eram precursores das peças shakespearianas e demonstram a sua familiaridade com o formato dramático.

Como já referimos no início deste texto, a sua posição como Lorde Chanceler e figura proeminente na corte exigia um decoro estrito; associar-se abertamente ao teatro, frequentemente visto como vulgar e moralmente questionável na era isabelina, poderia manchar a sua reputação e comprometer as suas ambições. Além disso, o contexto político da época, marcado por censura rigorosa, espionagem e perseguições, tornava as máscaras literárias uma prática comum entre nobres e intelectuais que desejavam expressar ideias controversas sem risco directo. A própria filosofia de Bacon enfatizava a dissimulação como uma ferramenta de protecção, como delineado no seu ensaio Of Simulation and Dissimulation, onde discute a necessidade de ocultar intenções verdadeiras em ambientes hostis.

 

Romeu e Julieta . Cosroe Dusi . 1838

 

Artefactos e Evidências.

Entre as evidências mais tangíveis está o Promus, uma colecção de expressões, frases, provérbios, máximas e citações compiladas por Francis Bacon, muitas das quais aparecem nas peças shakespearianas. O Promus contém mais de 1.600 entradas, muitas das quais são replicadas em peças como Tudo Está Bem quando Acaba Bem ou Noite de Reis. Em 1883, Constance Pott encontrou na colectânea nada mais nada menos que 4.400 paralelos com a obra de Shakespeare. Eis três exemplos:

Paralelo 1
Parolles: Assim o digo, tanto de Galeno como de Paracelso (1603–05 Tudo Está Bem Quando Acaba Bem, 2.3.11)
Composições de Galeno, não separações de Paracelso (Promus, fólio 84, verso)
Paralelo 2
Launce: Então poderei pôr o mundo sobre rodas, quando ela puder fiar para o seu sustento (1589–93, Os Dois Cavalheiros de Verona, 3.1.307–08)
Agora, com o pé no fuso, então ela poderá fiar / O mundo gira sobre rodas (Promus, fólio 96, verso)
Paralelo 3
Taberneira: Oh, que o direito se sobreponha ao poder. Da paciência vem a facilidade (1598, Henrique IV, Parte 2, 5.4.24–25)
A força vence o direito / Da paciência vem a facilidade (Promus, fólio 103)

O único documento em que os nomes de Shakespeare e de Bacon convergem é o Manuscrito de Northumberland, descoberto no Castelo de Alnwick. Nele pode encontrar-se uma interessante justaposição do nome cristão de Bacon e William Shakespeare. A página consiste numa lista de conteúdos de discursos e outros manuscritos.  Por baixo de “by ffrancis William Shakespeare” lemos “Richard II and Richard III.” Sobre a palavra ‘ffrancis’ está escrita outra palavra que é impossível ler até que a página inteira seja virada de cabeça para baixo. Então vê-se que a palavra é ‘ffrancis’ e ao lado dela, também de cabeça para baixo, estão as palavras ‘your sovereign.’ A palavra longa em Love’s Labour’s Lost também aparece no Manuscrito de Northumberland. A data provável do Manuscrito é 1597.

 

 

As coincidências Bacon-Shakespeare são numerosas e abrangentes, integrando linguagem, temas e alusões específicas. A palavra sem sentido em Love’s Labour’s Lost, “honorificabilitudinitatibus”, tem sido interpretada como um anagrama latino para “Hi ludi F. Baconis nati tuiti orbi” (“Estas peças, nascidas de F. Bacon, preservadas para o mundo”).

O mural de St. Albans, no White Hart Inn, datado de 1600, ilustra cenas de Vénus e Adónis. Pelo menos seis detalhes ligam esta obra a Bacon, à sua casa em Gorhambury, aos Rosicrucianos que na altura eram liderados pelo filósofo, e às peças shakespearianas. Uma das seis regras impostas aos membros da Ordem Rosacruz era o anonimato por cem anos. Se este mural tivesse sido descoberto em Stratford ou Bankside, teria sido mencionado em todos os livros sobre a vida de Shakespeare desde a sua descoberta em 1985. Não foi mencionado uma única vez.

O conhecimento de Bacon de ensinamentos herméticos, rosicrucianos, neoplatónicos e cabalísticos é evidente na sua New Atlantis e aparece em peças como Como Gostais, Trabalhos de Amor Perdidos, e no poema Vénus e Adónis, bem como em alguns sonetos de Shakespeare. Temas rosicrucianos, como a busca pela sabedoria oculta e a utopia, permeiam estas obras, sugerindo uma influência directa.

Uma carta de Francis Bacon ao Rei James, escrita em Novembro de 1622 refere a autoria de uma história de Henrique VIII, que é também uma célebre peça de Shakespeare:

“…porque a minha pena, ainda que contemplativa, prossegue com A História de Henrique VIII. (“…for my pen, if contemplative, going on with The Historie of Henry the Eighth.”)

Uma carta posterior ao Duque de Buckingham, datada de 21 de Fevereiro de 1623, faz a mesma referência:

“…que, espero, em breve me fará deixar o Rei Henrique VIII e me colocará a trabalhar sobre as aventuras de Sua Majestade.” (“who, I hope, ere long will make me leave King Henry VIII and set me on work in relation to His Majesty’s adventures.)

Noutra missiva, de 26 de Junho de 1623, lemos:

“… já que diz que o Príncipe não se esqueceu do seu mandamento referente à minha história de Henrique VIII.” (“…since you say the Prince hath not forgot his commandment touching my history of Henry VIII.”)

Em Janeiro de 1623, Bacon solicitou ao arquivo real o empréstimo de documentos relacionados com o reinado de Henry VIII. Em Dezembro do mesmo ano, The Famous History of the Life of
King HENRY the Eight foi impressa pela primeira vez no primeiro Folio de Shakespeare. Um breve resumo de 30 linhas do reinado de Henry foi impresso após a morte de Bacon sob o seu próprio nome.

 

As Peças de William Shakespeare . Sir John Gilbert . 1849

 

A arte como imitação da vida: como as peças de Shakespeare encaixam na existência de Bacon.

As peças shakespearianas encaixam notavelmente na trajectória de vida de Bacon, reflectindo as suas experiências, desafios e filosofia. A sua educação precoce em Cambridge e as viagens pela Europa fornecem o contexto cognitivo para o conhecimento clássico, legal e estrangeiro evidente nas peças. A sua relação turbulenta com o Conde de Essex, que terminou com a execução deste, estabelece paralelos com as intrigas de corte em Júlio César e António e Cleópatra.

A queda de Bacon em 1621 por acusações de corrupção ecoa temas de injustiça e calúnia em Medida por Medida e Otelo. A sua alegada parentela real explica as obsessões com a sucessão, a ilegitimidade e os direitos de nascimento em Hamlet, Rei Lear e nas peças históricas.

A influência de Bacon permeia obras específicas de forma detalhada e convincente. Citando os seus temas académicos preferidos, que espelham interesses juvenis do filósofo, Nigel Cockburn, em The Bacon-Shakespeare Question (1998), afirma sobre a peça Trabalhos de Amor Perdidos:

“Esta peça foi feita à medida para a autoria de Bacon.”

Em A Comédia dos Erros, Júlio César e António e Cleópatra, traços baconianos incluem alusões legais precisas – Bacon era um advogado proeminente – e ecos filosóficos sobre poder e moralidade. Por exemplo, em A Comédia dos Erros, o conhecimento de lei mercantil grega antiga alinha com os estudos de Bacon. Em Júlio César, o discurso de Brutus sobre honra e tirania ecoa os ensaios de Bacon sobre ambição e governo. António e Cleópatra reflecte o seu interesse na história do Império Romano, detalhado nas suas notas históricas, com temas de paixão versus dever que deriva da sua experiência de vida.

Timão de Atenas reflecte a misantropia do aristocrata após a sua queda, com o protagonista desperdiçando fortunas e virando-se contra a humanidade, circunstância análoga aos problemas financeiros e desilusões do estadista caído em desgraça.

Hamlet oferece perspectivas múltiplas baconianas, estabelecendo possíveis paralelos com a vida real, se bem que oculta, de Bacon, com mais de trinta linhas muito semelhantes a escritos que deixou à posteridade em seu nome, e reflexões sobre a morte e a loucura. A peça também converge com as observações científicas de Bacon sobre a natureza dos espíritos publicadas em Sylva Sylvarum, onde discute aparições e pneumatologia. As referências frequentes de Bacon ao teatro e a integração das artes de palco com os seus escritos filosóficos aprofundam esta ligação, como é evidente nos conselhos sobre a representação em The Advancement of Learning.

O ensaio de Bacon Dos Jardins conduz a Conto do Inverno, ambos celebrando a beleza sazonal, o cultivo humano e a renovação, com descrições detalhadas de flores e paisagens que se sobrepõem.

Muitas alterações no Othello publicado no Folio de 1623, incluindo linhas adicionadas e revisões, sugerem a mão do estadista, pois incluem referências a factos ocorridos depois de 1616 (ano da morte de Shakespeare), como alusões a eventos que Bacon acompanhava.

As referências médicas em várias peças shakespearianas são atribuídas ao Dr. William Harvey, médico e professor de Francis Bacon no Caius College, daí o personagem Master Doctor Caius em As Alegres Comadres de Windsor. Harvey é célebre pela descoberta da circulação sanguínea, que ocorreu após a morte de Shakespeare em 1616. Porém a descoberta científica é mencionada na peça, sugerindo um autor vivo como Bacon.

Em A Tempestade surgem detalhes de uma carta de William Strachey, a que Bacon, mas não Shakespeare, tinha acesso, através da Virginia Company, para a qual o filósofo provavelmente redigiu um relatório.
Francis Bacon e Macbeth ligam-se ao Rei James, com a peça aludindo à Conspiração da Pólvora e à linhagem escocesa do monarca que Sucedeu a Isabel I, temas que Bacon, como conselheiro real, conhecia intimamente.

 

Shakespeare e os Seus Contemporâneos . James Faed e John Faed . 1859 . Francis Bacon é o quarto dos personagens sentados, a contar da esquerda para a direita

 

Contra-argumentos e refutações.

Embora a teoria baconiana seja convincente para os seus defensores, enfrenta cepticismo significativo da academia estabelecida. Críticos e ‘verificadores de factos’ argumentam que não há prova directa, como uma confissão ou manuscrito ligando Francis Bacon à obra do Bardo de Stratford-upon-Avon. A educação de Shakespeare, embora modesta, poderia ter sido suplementada por leituras autodidatas e experiência teatral. Os estilos diferem: a prosa de Bacon é didática e sistemática, enquanto o verso de Shakespeare é lírico e dramático. Além disso, a publicação das peças sob o nome de Shakespeare durante a sua vida sugere autoria genuína.

No entanto, refutações baconianas notam a versatilidade estilística de Bacon, demonstrada nos seus variados escritos, que poderia acomodar tanto prosa filosófica como poesia dramática. A ausência de prova directa é explicada pela destruição deliberada de documentos com o preciso fim da manutenção do secretismo, comum em eras de censura e rigidez normativa. O consenso académico pode ser influenciado por preconceito institucional, relutante em desafiar o ícone cultural de Shakespeare, preferindo a narrativa romântica do génio plebeu. Além disso, anomalias como a erudição manifesta nas peças – legal, médica, científica e filosófica – alinham melhor com Bacon do que com o provinciano William, cujos registos mostram uma vida mais mercantil do que intelectual.

 

Conclusão: Uma teoria com pernas para ir longe. Até à verdade histórica.

A teoria baconiana, embora rejeitada pela academia mainstream como uma conspiração sem prova directa irrefutável, apresenta um mosaico rico e convincente de evidências circunstanciais que sugerem o envolvimento profundo de Francis Bacon nas obras shakespearianas. Desde ressonâncias filosóficas profundas e paralelos estilísticos intrincados até artefactos tangíveis como o Promus, o Manuscrito de Northumberland, o elogio póstumo do Manes Verulamianie e o mural de St. Albans, passando por ligações biográficas e temáticas a peças específicas, o caso constrói-se sobre o intelecto multifacetado de Bacon, as suas necessidades de secretismo e a sua vasta influência cultural.

Como Woodward observou, revelar o autor poderia ter frustrado o intento educativo das peças, destinadas a instruir subtilmente a posteridade. Se Bacon foi o autor único, um colaborador principal ou apenas uma inspiração profunda, permanece uma questão em aberto, mas a submissão a inquérito desta possibilidade enriquece imensamente a nossa compreensão das profundezas e complexidades da literatura renascentista. O debate duradouro sublinha a aura mítica que envolve tanto Shakespeare como Bacon – e convida a um escrutínio contínuo e desassombrado, recordando-nos que a verdade histórica muitas vezes se esconde atrás de máscaras elaboradas.

Como Fernando Pessoa produziu uma quantidade de entidades fabricadas para poder sair do seu fechado círculo ontológico, como Platão criou Sócrates para materializar o sábio irrefutável, como Kierkegaard inventou Johannes Climacus para escapar ao estrito âmbito “científico” da sua filosofia, Francis Bacon pode muito bem ter instrumentalizado um empresário teatral para libertar a sua genial veia lírica e dramatúrgica.

É uma hipótese, que, como é fácil de observar pela quantidade de referências e argumentos que aqui enumerámos, está longe de ser destituída.

Em Anonymous, um filme de 2011 que propõe Edward de Vere, Conde de Oxford, como o verdadeiro autor da obra shakespeariana, o monólogo introdutório, declamado magistralmente por Derek Jacobi, apresenta as fragilidades da tese convencional sobre a autoria da maior obra alguma vez escrita na língua inglesa de uma forma convenientemente dramática, que é uma excelente forma de fecharmos este já extenso ensaio.