
Num tempo em que os cristãos que defendem que a Bíblia é a Palavra de Deus — e que ela é mais actual do que os jornais que sairão amanhã — são rotulados de “ignorantes”, aqueles que nos acusam dão-nos, afinal, mais uma prova de que o sábio tinha razão: “não há nada de novo debaixo do Sol” (Eclesiastes 1:9). Ao reflectirmos sobre as consequências do afastamento do homem de Deus e do aumento da imoralidade, somos conduzidos de volta ao período entre 605 e 536 antes de Cristo, e a uma constatação impressionante.
No caso em apreço, há uma história com quase três milénios que, de repente, parece terrivelmente actual. No Livro de Daniel, capítulo 4, o rei Nabucodonosor, o homem mais poderoso do seu tempo, ergueu-se acima de todos. Contemplando a grande Babilónia que construíra, proclamou: “Não é esta a grande Babilónia que eu edifiquei… para glória da minha majestade?” Num instante, a sua mente mudou. Foi expulso do convívio humano, comeu erva como os bois, o corpo cobriu-se de orvalho, o cabelo cresceu como penas de águia e as unhas como garras de ave. Viveu sete anos como um animal – até que ergueu os olhos ao Céu, reconheceu o Deus Altíssimo e louvou-O. Só então recuperou a razão e a dignidade humana.
Nabucodonosor não foi o primeiro a sentir-se “especial” ao ponto de negar os limites da condição humana. Foi, talvez, o primeiro therian de que temos registo histórico. Hoje, nas redes sociais, fala-se de “therians”: pessoas que se identificam, de forma profunda e persistente, como animais não-humanos – lobos, raposas, gatos, aves. Não é fantasia de Halloween nem brincadeira. É apresentado como uma identidade legítima, por vezes enquadrada sob o vago guarda-chuva da “neurodivergência”. Fóruns, TikToks e comunidades online reforçam: “Não é escolha, é quem eu sou por dentro.” Algumas adoptam comportamentos como andar de quatro, usar máscaras e caudas, miar ou ladrar. Em Portugal, o fenómeno ganhou visibilidade suficiente para a Ordem dos Médicos Veterinários emitir orientações internas – recusando consultas a quem se apresente como animal.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses, quando questionada, nota a escassez de estudos e sublinha que, enquanto não causar sofrimento ou prejuízo funcional grave, não se trata necessariamente de uma patologia. Alguns profissionais falam em “construção de identidade” ou disforia de espécie. Outros recordam que identificações intensas com animais podem coexistir com ansiedade, depressão, dissociação ou traços do espectro do autismo.
Aqui reside o ponto delicado – e o motivo para escrever com cuidado. Ninguém deseja ridicularizar quem sofre. Muitos jovens que se dizem therians parecem buscar pertença, uma explicação para um mal-estar interno ou fuga de uma realidade que lhes pesa. A adolescência sempre foi terreno fértil para identidades experimentais. O problema surge quando transformamos o sofrimento em identidade permanente e quando a cultura digital amplifica e reforça a dissociação, em vez de envidar esforços para chegar ao cerne da questão e tratar a raiz dos sintomas. Todos nós, sem excepção, estamos sujeitos à fragilidade da saúde mental. Perante isto, ninguém se deve colocar em bicos de pés para ridicularizar ou humilhar quem vive este tipo de provação.
Porque a lição de Nabucodonosor não é de humilhação gratuita. É de misericórdia. O rei não foi abandonado no seu delírio. Foi-lhe dada a oportunidade de regressar à verdade: o ser humano não é Deus, mas também não é um animal. Tem uma dignidade única, feita à imagem do Criador. Quando o esqueceu, perdeu-se. Quando O reconheceu, recuperou-se.
Não é preciso ser crente para ver o paralelismo. A psicologia secular sabe que o orgulho desmedido (com o consequente esvaziamento da própria humanidade) desequilibra. Negar a própria espécie biológica – por mais “espiritual” ou “neurológico” que se pinte o cenário – é, no fundo, uma forma de auto-exaltação invertida: “Eu não sou como os outros humanos vulgares; sou algo mais exótico.” Ou, por vezes, “não mereço ser humano, com todas as responsabilidades e dores que isso traz”.
O perigo real não está nas máscaras ou nos vídeos virais. Está na normalização de perturbações mentais como “identidades” intocáveis. Quando uma alucinação ou dissociação se torna “quem eu sou”, deixa de haver motivação para procurar ajuda. Quando a sociedade aplaude em vez de questionar com misericórdia, multiplica-se o sofrimento a longo prazo. Já vimos isso noutras áreas: a rapidez com que se medicalizam desconfortos normais da adolescência, a pressão para “afirmar” em vez de explorar, a transformação de sintomas em bandeiras.
Não escrevo isto com o intuito de “cancelar” ninguém. Pretendo apenas lembrar que ser humano é, por si só, suficientemente maravilhoso – e suficientemente exigente. Não precisamos de nos transformar em lobos para dar sentido à nossa vida. Precisamos, talvez, de olhar para cima, como Nabucodonosor, e reconhecer os nossos limites com humildade. A cura começa aí: na aceitação da realidade, na busca de ajuda genuína (não de validação virtual) e na descoberta de que a verdadeira liberdade não está em reinventar a espécie, mas em viver com integridade aquilo a que fomos chamados.
Que possamos, todos nós, voltar a comer à mesa dos homens – e não a erva do campo. Com compaixão para com quem ainda vagueia, mas com a coragem de dizer que, tal como aconteceu com Nabucodonosor, o caminho de regresso existe.
«Mas, ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os meus olhos ao céu, e voltou-me o entendimento; então bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei Aquele que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino subsiste de geração em geração. Todos os moradores da terra são considerados como nada; Ele opera segundo a Sua vontade, tanto com o exército do céu como com os habitantes da terra; não há quem possa deter a Sua mão, nem Lhe diga: “Que fazes?” No mesmo instante, voltou-me o entendimento e, para a dignidade do meu reino, restituíram-se-me a majestade e o resplendor; buscaram-me os meus conselheiros e os meus nobres, fui restabelecido no meu reino, e a minha glória foi grandemente aumentada. Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalto e glorifico o Rei do céu; porque todas as Suas obras são verdade, os Seus caminhos são justiça, e Ele tem o poder de humilhar os que andam na soberba.»
(Daniel 4:34-37)
MARIA HELENA COSTA
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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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