Num mundo onde as verdades eternas da Palavra de Deus são cada vez mais desafiadas, é preciso olhar com discernimento para as mudanças sociais que parecem «naturais», mas revelam intenções profundas. Há dois anos, fui convidada a escrever um testemunho que transmitisse a minha «própria sensibilidade» sobre o 25 de Abril. O livro Abril pelas Direitas saiu em Março de 2024 e eu, que em 1974 tinha 9 anos, comecei por descrever a realidade que vivi:
“O meu pai era ajudante de motorista e a minha mãe era doméstica. Na altura, morávamos numa casa com rés-do-chão e 1.º andar, com 6 assoalhadas em baixo, um pátio enorme, com poço e casa de banho, uma grande cozinha (com borralho e fogão a gás), um escritório (que funcionava como um quarto de visitas), uma despensa e um vão de escada onde dava para colocar uns cadeirões e uma mesinha; em cima: um hall com estantes e um sótão para arrumos, dois quartos e uma sala. O ordenado do meu pai dava para pagar a renda e para sustentar a casa. Recordo-me de ver o meu pai a entregar o ordenado à minha mãe que, além de fazer as compras para a casa, ainda conseguia comprar peças de ouro e guardar algum. Sim. Antes do 25 de Abril, um trabalhador conseguia pagar a renda e sustentar a sua família com o seu ordenado. Nunca nos faltou nada.”
Hoje, dois adultos exaustos trabalham o dia inteiro e mal equilibram as contas. Isto não foi um acidente. Foi engenharia social. E faz parte de um plano maior: enfraquecer a família para que o Estado — especialmente na sua vertente socialista ou comunista — assuma o controlo da educação e formação das crianças, transformando-as em futuros eleitores dependentes e ideologicamente alinhados.
A Família: Projecto de Deus, não do Estado
A Bíblia é clara desde o princípio. Em Génesis 2:24, Deus institui a família:
“Por isso, o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.”
O modelo é o homem como provedor e protector, a mulher como auxiliadora e mãe, e os filhos criados «na disciplina e na admoestação do Senhor» (Efésios 6:4). A família não é uma construção cultural opcional — é o alicerce da sociedade, a primeira igreja, a primeira escola e o primeiro Estado.
Quando a família é forte, a Igreja floresce e a nação prospera. Quando ela é atacada, abre-se caminho para o colectivismo que substitui Deus pelo Estado. Como cristã, vejo nisto não uma mera questão económica, mas uma batalha espiritual:
“Porque não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”
(Efésios 6:12).
O Processo de Engenharia Social
A entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho após a Segunda Guerra Mundial começou por uma necessidade legítima, mas foi perpetuada por uma narrativa de «libertação». Na verdade, não foi o feminismo que abriu as portas do trabalho às mulheres: elas sempre trabalharam ao longo da história, especialmente nas áreas rurais, nos lares, nas oficinas e nas fábricas. O que realmente acelerou e massificou essa presença foi a Revolução Industrial, que exigiu mão-de-obra barata, e, mais tarde, as duas Grandes Guerras, que retiraram os homens dos postos de trabalho. O feminismo posterior apenas reinterpretou e politizou um fenómeno que já estava em curso por razões económicas e demográficas.
O que era o lar passou a ser visto como «atraso»; o que era casamento e maternidade virou «opressão». O resultado? Duplicou-se a oferta de mão-de-obra, os salários reais dos homens caíram, os impostos aumentaram (dois rendimentos pagam mais) e as funções sagradas da família — educação inicial, cuidado, refeições, formação moral — foram subcontratadas a creches, escolas estatais e indústrias de conveniência. Elizabeth Warren demonstrou em A Armadilha dos Dois Rendimentos que as famílias trabalham o dobro para viver pior do que há décadas. À mulher, a quem foi prometida realização, foi entregue uma jornada dupla e a exaustão. O homem, despojado do papel de provedor, vê a sua autoridade natural diabolizada. Não se trata de «homem contra mulher», mas sim do sistema contra a família.
A Inversão da Verdade: Redes Sociais, Dinheiro de Bruxelas e o Fim do «Ser Mulher»
À medida que quem defende os valores cristãos vai conseguindo transmitir estas verdades factuais através das redes sociais — já que a comunicação social do mainstream jamais o permitiria —, surgem influencers feministas a acusar-nos de sermos um «lóbi» que quer retirar os direitos que o feminismo conquistou para as mulheres. Nós, um lóbi? E o movimento feminista? Altamente financiado com dinheiros públicos e com fundos vindos de Bruxelas? Com palco garantido em todos os canais de televisão, filmes e séries? Só pode ser piada, ou o medo latente de que as mulheres cheguem à conclusão de que o feminismo não lhes deu nada e ameaça tirar-lhes tudo.
E a maior ameaça actual é mesmo a perda do próprio «ser mulher». As correntes mais recentes da ideologia de género vieram desconstruir a própria biologia e a essência feminina criada por Deus. Ao afirmar que o sexo é apenas uma «construção social» e ao reduzir a maternidade a conceitos absurdos como «progenitor que dá à luz» ou «pessoa que menstrua», o feminismo moderno aliou-se ao transgenerismo para apagar as mulheres. Ironicamente, o movimento que dizia lutar pelas mulheres agora valida que homens biológicos ocupem espaços exclusivamente femininos — desde as competições desportivas aos balneários —, roubando-lhes a dignidade, a privacidade e a segurança. Destruiu-se o mistério, a beleza e a vocação da feminilidade bíblica para colocar no seu lugar uma massa neutra, confusa e desprovida de identidade.
O Plano: O Estado como «Pai» e Formador de Eleitores
Essa engenharia não parou na economia. Ela serve um projecto maior de estatização da infância. Os socialistas e os comunistas, desde Marx e Engels no Manifesto Comunista, viam a família tradicional como um obstáculo à revolução. Abolir a família significava transferir a lealdade dos pais para o Estado, que educaria as crianças colectivamente.
Em regimes socialistas e comunistas históricos (URSS, Cuba, China, e tentativas noutros países através da ideologia de género e da «educação sexual» precoce nas escolas), o Estado procura:
- Enfraquecer os laços familiares: para que pais demasiado ocupados deleguem a formação moral e intelectual nos sistemas públicos.
- Controlar a educação: currículos que promovem o relativismo moral, a ideologia de género, a sexualização precoce e uma visão colectivista do mundo, em detrimento dos valores bíblicos (a vida, a família heterossexual, a responsabilidade individual e o temor a Deus).
- Criar dependência: crianças educadas pelo Estado tornam-se adultos que vêem o governo como provedor, protector e autoridade suprema — eleitores perfeitos para políticas estatistas, redistributivas e anti-família.
Isto não é uma teoria da conspiração. É um padrão histórico. Quando os pais perdem tempo e autoridade, o Estado preenche o vazio. O resultado é uma geração sem raízes, mais susceptível a promessas de «igualdade» que escondem um controlo totalitário. A família cristã, pelo contrário, forma cidadãos livres, responsáveis perante Deus em primeiro lugar.
O Chamado Cristão: Reconstruir os Valores que Preservam a Família
Diante disto, o que fazer?
- Valorize o modelo bíblico: maridos, amem as vossas esposas como Cristo amou a Igreja (Efésios 5). Esposas, honrem o lar (Tito 2:4-5). Pais, eduquem os filhos (Deuteronómio 6:6-7) — não deleguem esta tarefa por completo.
- Resista à narrativa cultural: rejeite a ideia de que «ficar em casa» é um fracasso. A maternidade e a paternidade são vocações sagradas.
- Exija educação parental e liberdade: defenda o direito dos pais de escolherem a formação dos filhos, combatendo a doutrinação estatal.
- Ore e actue: a batalha é espiritual, mas tem consequências políticas e culturais. Vote, eduque e forme comunidades fortes.
A destruição da família não é um acidente — é uma estratégia para alcançar um Estado omnipotente. Como cristãos, defendemos a família não por mera tradição humana, mas por fidelidade a Deus. «Com a sabedoria se edifica a casa, e com a inteligência ela se firma» (Provérbios 24:3). Que possamos reconstruir o que o mundo tenta demolir, para a glória de Deus e o bem da próxima geração. Partilhe, reflicta e ore. A família é o campo de batalha decisivo.
MARIA HELENA COSTA
_______________
Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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