O presidente do Parlamento iraniano e principal negociador nas conversações de paz com a Casa Branca, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou a 29 de Maio que Teerão considera a dissuasão militar essencial para qualquer processo de negociação com Washington, rejeitando a dependência de “garantias e palavras” dos EUA:

“Não obtemos concessões através do diálogo, mas sim através de mísseis. Só assim fazemos que nos compreendam durante as negociações. Não confiamos nas suas garantias e palavras, apenas o comportamento é o critério. Nenhuma acção será tomada antes de uma acção recíproca da outra parte. O vencedor de qualquer acordo é aquele que estiver mais bem preparado para a guerra no dia seguinte.”

Estas peremptórias declarações surgem após relatos recentes de que Israel está a pressionar a Casa Branca para assassinar Ghalibaf, que tem actuado como principal negociador do Irão durante as negociações, e retomar ataques militares em grande escala contra as infraestruturas energéticas iranianas.

Esta é uma táctica infame, mas frequentemente utilizada pelo Regime Epstein: chamar os inimigos à mesa das negociações e executá-los de seguida, ou atacá-los nesse momento em que estão de guarda baixa.

De acordo com fontes familiarizadas com um relatório confidencial dos serviços de informação norte-americanos, as autoridades israelitas estão a “tentar agressivamente afastar os EUA das negociações e levá-los de volta à guerra”, argumentando que os ataques a instalações petrolíferas provocariam uma “mudança de regime em Teerão”.

O relatório indica que Israel continua “sujeito a Washington” e ao resultado das próximas eleições intercalares americanas, concentrando o seu plano alternativo no ataque a autoridades iranianas de segundo plano e na supressão de instalações de mísseis.

No mesmo dia, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) lançou um ataque com mísseis e drones contra alvos americanos numa base aérea do Kuwait, em resposta às violações americanas do cessar-fogo vigente, durante o qual o Pentágono bombardeou o Irão por diversas vezes.

Paradoxalmente, estas ocorrências coincidem com declarações de responsáveis ​​norte-americanos de que um acordo está quase concluído, sendo que a imprensa corporativa noticiou que um memorando de 60 dias de prolongamento das tréguas aguarda a aprovação de Donald Trump.

No entanto, os meios de comunicação estatais iranianos sustentam que nenhum acordo deste tipo foi finalizado ou confirmado, enquanto Ibrahim Azizi, do parlamento iraniano, declarou que

“os Estados Unidos quebraram repetidamente as suas promessas, e a longa experiência do Irão mostra que Washington não dá importância a compromissos ou acordos”.

O ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohsen Rezaee, alertou ainda que os EUA estão a entrar “num escuro túnel sem fim” e que o Irão vai obrigar à remoção dos bloqueios marítimos através de “negociações ou acção directa”.

O discurso duro e pragmático de Teerão contrasta com fragilidade evidente da administração Trump, que está constantemente a anunciar a paz e a ameaçar a guerra, num demente exercício de má dialéctica. Donald Trump parece cada vez mais perdido no seu labirinto, tentando desesperadamente projectar uma posição de força, apesar dos seus generais o alertarem para a escassez de munições, a precaridade estratégica das forças militares americanas no Golfo e o potencial para baixas brutais, caso o magnata de Queens decida reiniciar as hostilidades com uma operação terrestre em solo iraniano.

Se, por outro lado, quiser espoletar mais um ciclo de bombardeamentos cegos, os resultados da última tentativa não são brilhantes. Como o ContraCultura noticiou a 20 de Maio, um relatório da CIA revelou que a operação Epic Fury não impediu o Irão de preservar aproximadamente 70% do seu arsenal de mísseis balísticos, contradizendo as alegações de “destruição total” do Pentágono e da Casa Branca.

Circulam até rumores na imprensa americana que Donald Trump está disposto a pagar reparações aos iranianos (a Casa Branca vai chamar-lhes eufemisticamente “fundos de investimento”), no valor de 300 biliões de dólares, para conseguir um acordo de paz. Para se fazer ideia da humilhação que esta cedência representa, Donald Trump passou os últimos anos da sua vida a criticar Barak Obama por ter pago cerca de 2 biliões de dólares a Teerão, pelo compromisso de que o programa nuclear iraniano não seria retomado.

Agora, o desatinado presidente norte-americano parece estar disposto a pagar 150 vezes mais, só para que o Golfo Pérsico volte ao ponto em que estava, antes do início da guerra.

“Art of the Deal”.