Esta edição do Giro parecia condenada ao império do tédio. Com a ausência de João Almeida na UAE, que não alinhou à partida por doença, era mais que nítido que ninguém iria ser capaz de dar grande luta a Vingegaard, que se iria passear pelas 21 etapas da prova. E na verdade, foi o que aconteceu.
Só que o Giro deste ano estava bem desenhado, e acabou por ter várias etapas super disputadas e emocionantes, que fizeram esquecer a ausência de competição para o primeiro lugar na classificação geral.
Uma dessas etapas épicas foi a quinta, em que o português Afonso Eulálio, depois de um duelo incrível com Igor Arrieta, em que ambos foram ao chão, e um final absolutamente excruciante, subiu à primeira posição da geral, apesar de ter cedido nos últimos centímetros a vitória na etapa perante uma espantosa recuperação do espanhol, que entretanto se tinha enganado no caminho (!).
Eulálio era um ilustre desconhecido do mundo do ciclismo. Toda a gente pensou que ia vestir a Camisola Rosa por um ou dois dias e que depois ia afundar-se na classificação geral. Toda a gente pensou que não ia resistir na primeira etapa de montanha a sério. Ora, a primeira montanha a sério foi o Blockhaus. E o Eulálio resistiu. Que não ia resistir no contra-relógio de 40 quilómetros. Resistiu. Que não ia resistir na subida ao Corno alle Scale. Resistiu. Que não ia resistir à dureza e à inclinação acumulada da Etapa 11 (Porcari – Chiavari), já na segunda semana da corrida. Resistiu. O cilcista da Bharain esteve nove dias com a Camisola Rosa vestida e, quando a perdeu, nos Alpes, na 14ª etapa, para Vingegaard apenas, ainda era líder da juventude e segundo na geral.
Na terceira semana perdeu posições e desceu para sexto, mas não só manteve a Camisola Branca como, naquela que foi a mais dura das etapas do Giro, a vigésima, com duas subidas ao Piancavallo, uma ascensão de 14,5 ksm a 7,8% de inclinação, garantiu essa posição ao cortar a meta em 7º lugar, destruindo não só o rival directo para a classificação da juventude, Davide Piganzoli, como toda a concorrência que tinha atrás de si para a classificação geral, incluindo ciclistas mais que consagrados como Michael Storer, Egan Bernal, Jan Hirt, Sepp Kuss, David de la Cruz, Igor Arrieta, Giulio Ciccone, Valentin Paret-Peintre e o seu chefe de fila e mentor, Damiano Caruso.
Eulálio, de 24 anos, fez um Giro absolutamente incrível – o segundo da sua breve carreira -, saltando para o primeiro palco do circuito mundial de ciclismo com uma pinta desgraçada, mostrando ser um guerreiro impressionante, com enorme capacidade de sofrimento e medo nenhum de atacar quando sentiu que estava no seu terreno (é um escalador de curtas distâncias, por excelência). Mas a sua performance não se limitou à vertente atlética: o ciclista da Figueira da Foz, muito elegante em cima da bicicleta, tem um sorriso lindíssimo, que faz questão de partilhar com as câmaras de televisão mesmo nos momentos de maior pressão e esforço, é um rapaz muito simpático e encantador com os jornalistas, é humilde, sem ser parvo nenhum, e carregou a camisola rosa como se nada fosse, com bom humor, valentia e nenhum nervosismo aparente.
Afonso Eulalio is a gem.
It’s very rare for a rider coming up from the Continental level to make such an impact in just 18 months, to develop such a keen tactical sense, and, as he bursts onto the scene, to reveal a personality that makes him a decidedly positive, refreshing… pic.twitter.com/yEDNzCRTzM
— Bence Czigelmajer (@cycloben2) May 30, 2026
A aventura do ciclista português contribuiu em grande parte para o bom curso de toda a prova, porque gerou de facto simpatia por parte das audiências globais, que se mantiveram suspensas sobre a sua capacidade de superação até ao final da última subida ao Piancavallo. E não é de todo descabido pensar que o firmamento do ciclismo profissional de elites ganhou uma nova estrela. Até porque ficou a nítida sensação de que tem ainda uma curva de progressão ascendente, à frente da sua carreira. O potencial está lá. Vamos ver o que a Barhain faz com essa margem de manobra.
Giro d’Italia🇮🇹 :Biggest Surprise / Revelation of the Giro d’Italia
For me, the biggest revelation of this Giro d’Italia was undoubtedly Afonso Eulálio.
There is simply no other answer. Eulálio finished sixth overall and won the Young Rider Classification, an achievement that i… pic.twitter.com/6EohUlKtSo
— Cycling Predictorspt (@Cyclingpredpt) May 31, 2026
Mas outros houve que também deram o espectáculo de que a prova parecia carecida, à partida: Giulio Ciccone, que triunfou na categoria da Montanha, é um atleta indomável, persistente e feroz, que tudo fez para merecer a Camisola Azul. Jhonatan Narváez, que, ao ganhar 3 etapas, evitou o desastre à melhor equipa do mundo, a UAE, depois de perder os líderes Jay Vine e Adam Yates e o pau para toda a obra que é Marc Soler. O equatoriano, que pedalou como um herói grego durante toda a santa corrida, lutou até ao fim pela classificação dos pontos, que viria a perder para outra figura em destaque nesta edição da prova italiana, Paul Magnier, o sprinter que venceu também por 3 vezes.
Uma última palavra para um dos mais icónicos operários do ciclismo contemporâneo: Nelson Oliveira, o português da Movistar que completou nesta edição do Giro de Itália 23 grandes voltas sucessivas (as de 3 semanas: Giro, Tour e Vuelta). São 473 etapas, sem uma desistência que seja. É obra, poça…
🇵🇹 23 Grand Tours. 478 Stages started. 0 DNFs
Parabens, @Nelsoliveira89 👏#GirodItalia pic.twitter.com/I6Ghdxyw0k
— Giro d’Italia (@giroditalia) May 31, 2026
No fim das contas, foi um Giro muito entretido, mesmo com o passeio de Vingegaard, que é de facto um extraterrestre e que só vai encontrar um adversário à altura daqui a um mês, no Tour de France, quando defrontar o alienígena-mor: Tadej Pogačar.
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