Num desenvolvimento digno de um filme de terror, uma startup de Connecticut está a manter cérebros humanos funcionais, fora do corpo, durante longos períodos de tempo, alegadamente para fins de investigação farmacêutica. Mas estarão estes cérebros conscientes?

 

Os órgãos desencarnados, provenientes de dadores recentemente falecidos, estão a ser utilizados para testar medicamentos experimentais direcionados para doenças neurodegenerativas. O trabalho reacendeu o debate: poderão estes cérebros possuir alguma forma de consciência?

O sistema BrainEx da Bexorg bombeia sangue sintético através da rede vascular do cérebro, fornecendo oxigénio e nutrientes, mantendo a temperatura e as condições adequadas. Isto permite que os cérebros permaneçam metabolicamente activos até 24 horas ou mais, proporcionando uma plataforma realista para observar como os medicamentos interagem com o tecido neuronal humano a nível celular e molecular.

Ao contrário dos testes tradicionais em animais ou de organismos cultivados em laboratório, estes cérebros humanos intactos transportam décadas de exposição real a medicamentos, factores ambientais e processos de envelhecimento.

O fundador da Bexorg, Zvonimir Vrselja, enfatizou a vantagem: as células que funcionam durante décadas de existência humana oferecem insights muito para além dos modelos simplificados.

Uma reportagem da Science observa que esta abordagem já produziu resultados práticos. A empresa farmacêutica Biohaven utilizou dados dos cérebros da Bexorg para desenvolver um medicamento que visa os défices energéticos em cérebros doentes. Num caso, um tratamento para o Parkinson que falhou em ratinhos mostrou-se promissor em doses muito mais baixas em cérebros humanos.

 

 

A principal tensão ética gira em torno da consciência. A Bexorg defende que o cérebro carece da actividade neuronal coordenada necessária até para um mínimo de consciência. Para garantir isso, administram o anestésico propofol, suprimindo a sinalização eléctrica. No entanto, o próprio acto de restaurar as funções celulares num cérebro humano intacto força um confronto com o que a consciência realmente é.

Este desenvolvimento surge no contexto do crescente interesse científico pela natureza da mente. Investigadores têm sugerido que os nossos cérebros podem construir activamente o universo que percecionamos, sugerindo que a consciência desempenha um papel fundamental na própria realidade.

Outros trabalhos apontam para um possível pulsar quântico subjacente aos processos conscientes, insinuando mecanismos que transcendem a biologia clássica.

Para complicar ainda mais o cenário, têm surgido inúmeras evidências que sugerem que a consciência pode persistir para além da morte clínica.

Este não é o único avanço recente que esbate as fronteiras entre a computação biológica e a consciência. Em Março, investigadores australianos da Cortical Labs treinaram aglomerados de células cerebrais humanas cultivadas em laboratório para jogar o clássico videojogo Doom, com base em trabalhos anteriores em que “mini-cérebros” semelhantes dominaram o jogo Pong. Utilizando cerca de 800.000 neurónios vivos numa placa de Petri, ligados a chips de silício, as células aprenderam a navegar, disparar e responder ao ambiente 3D do jogo através de feedback eléctrico.

O sistema demonstra aprendizagem orientada para objectivos e adaptação em tempo real, levantando questões semelhantes sobre o potencial de uma consciência rudimentar em tecido neuronal isolado.

Como a plataforma de cérebro desencarnado da Bexorg, estes projectos destacam uma rápida aceleração nas tecnologias que mantêm a matéria neuronal humana activa e responsiva fora do corpo. Embora visem avanços médicos e computação eficiente, alargam, colectivamente, os limites do que constitui um processamento consciente.

Se a consciência tiver aspectos quânticos ou não locais, ou se puder suportar a separação do corpo, as implicações para estes cérebros e mini-cérebros reanimados tornam-se profundamente perturbadoras.
Mesmo sem uma experiência subjectiva completa, poderão existir lampejos de consciência ou sofrimento? Os bioeticistas têm alertado para a falta de estruturas de supervisão estabelecidas para este tipo de investigação.

A Bexorg consultou especialistas em ética e insiste que as salvaguardas impedem qualquer possibilidade de consciência. Os cérebros não estão “vivos” no sentido holístico, nem totalmente mortos, ocupando um estado liminar. No entanto, a tecnologia reactiva as funções celulares, a síntese proteica e a actividade metabólica — precisamente os substratos associados à mente.

O desenvolvimento tradicional de medicamentos depende fortemente de modelos animais, que muitas vezes não se traduzem em resultados satisfatórios para os humanos. Os organoides cerebrais cultivados a partir de células estaminais oferecem uma alternativa, mas não têm a complexidade de um cérebro humano totalmente desenvolvido.

A plataforma da Bexorg pretende preencher esta lacuna, potencialmente acelerando os tratamentos para Alzheimer, Parkinson e outras doenças, ao mesmo tempo que reduz a dependência de testes em animais.

A empresa processou mais de 700 cérebros em cinco anos e está a expandir a sua capacidade com automação, incluindo sistemas robóticos para análise.

Os defensores do programa validam-no como um passo pragmático para o avanço da investigação biomédica. Os críticos temem que a tecnologia confunda os limites entre a vida e a morte, abrindo potencialmente o caminho para mais experimentação no tecido neuronal humano.

Seja como for, só num país dominado pela classe Epstein, transhumanista e dessacralizadora da criação divina por definição e defeito, um projecto eticamente controverso como este podia ser possível.