No dia 30 de Abril de 2026, em reacção à notícia “‘Movimento Bora’: Eurodeputado e Kiko is Hot levam debate sobre ódio e política às escolas”, publiquei o artigo “A Cilada do ‘Bora’: Doutrinação nas Escolas”. Sustentei, então, a perspectiva de que estes projectos criados por eurodeputados constituem a armadilha perfeita para enterrar o debate honesto sobre as chamadas “terapias de conversão”. Entretanto, decidi analisar a questão sob um outro prisma, que dá título a este texto.
Exacto. Não se trata de uma teoria da conspiração — é o que aconteceu em Portugal, tal como em grande parte do Ocidente, logo a seguir à pandemia. Jovens trancados em casa, colados aos ecrãs durante meses, ficaram expostos aos algoritmos viciantes do TikTok, Instagram e Discord, que transformaram o desconforto adolescente normal (puberdade, ansiedade, solidão, autismo não diagnosticado ou traumas) numa “identidade trans” pronta a usar. E agora, em 2026, o eurodeputado Bruno Gonçalves e Kiko is Hot invadem as escolas secundárias para debater a “vulnerabilidade online” e a “saúde mental”. Que timing perfeito. Que hipocrisia cáustica.
Sob uma perspectiva crítica de género, enquanto o Expresso descreve miúdos sentados no chão a ouvir o influencer não-binário falar de ódio nas redes, a verdadeira ferida aberta pela pandemia fica fora de cena. Estudos e relatos clínicos em Portugal confirmam o que se viu noutros países: a duplicação das consultas privadas por disforia de género desde 2020/2021, com um padrão clássico de Rapid Onset Gender Dysphoria (ROGD) — maioritariamente raparigas adolescentes, sem qualquer história de disforia infantil, que “descobrem” a identidade trans após uma imersão intensa nas redes. Zélia Figueiredo, especialista em saúde trans, admitiu publicamente esse aumento exponencial, associando-o a factores sociais e online, em vez de causas inatas.
A pandemia foi o acelerador perfeito: isolamento, mais tempo online, maior exposição a conteúdos de “euphoria” de transição, comunidades que celebram o corte com a “cis-normatividade” e guiões prontos contra os pais (“se não afirmam de imediato, são tóxicos”). O resultado? Uma explosão de pedidos de mudança legal de género (milhares desde 2018, com dezenas de menores por ano, sendo 12 só no primeiro trimestre de 2026) e uma enorme pressão para a medicalização rápida — bloqueadores, hormonas e cirurgias. Tudo isto é embalado como “cuidado afirmativo”, enquanto a ciência séria (como a Cass Review e os equivalentes nórdicos) grita o oposto: a maioria desiste naturalmente, as comorbilidades mentais são a regra e não a excepção, e as intervenções irreversíveis deixam sequelas como a esterilidade, problemas ósseos e arrependimentos crescentes.
E o que faz o Movimento Bora com esta vulnerabilidade fabricada nas mesmas redes que diz combater? Mantém um silêncio cúmplice. Kiko is Hot, o modelo vivo da disforia como carreira “hot e psicótica”, não vai contar aos alunos das escolas como muitos saíram da quarentena com uma identidade adquirida no ecrã — e agora enfrentam corpos medicalizados que nunca poderão recuperar. Bruno Gonçalves, defensor da lei que criminaliza qualquer abordagem que não afirme de imediato a transição, não vai admitir que o “debate sem ódio” serve para ocultar o facto de que Portugal seguiu o caminho do affirmation-only, enquanto a Suécia, a Finlândia e o Reino Unido recuam.
Em suma e sem rodeios: a pandemia não criou a disforia — amplificou o contágio social através das redes. Jovens vulneráveis e isolados foram cooptados por activistas e associações que viram neles a próxima geração de “ícones”. Agora, com órgãos saudáveis em risco de amputação e famílias denunciadas, o Bora chega às escolas para falar de “vulnerabilidade online”. É uma ironia mortal. É o incendiário a dar lições de prevenção de fogos enquanto o fósforo ainda fumega no seu bolso.
As escolas portuguesas não precisam de mais sessões de chão frio com influencers a normalizar esta experiência. Precisam de proteger os adolescentes que saíram da pandemia mais confusos, ansiosos e medicalizáveis do que nunca. Bora conversar sobre isso? Ou bora continuar a fingir que a única vulnerabilidade é aquela que justifica mais doutrinação? As crianças merecem a verdade, não o arco-íris do marketing pós-quarentena.
MARIA HELENA COSTA
_______________
Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: Identidade de Género – Toda a Verdade (2019), #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023) e Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025).
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
Relacionados
13 Jun 26
O Regresso à Realpolitik:
Da Narrativa Moralista ao Pragmatismo Estratégico na Europa Ocidental.
A exaustão dos recursos militares e a cristalização das frentes de batalha impõem à Europa uma capitulação intelectual: o abandono definitivo do moralismo binário em favor de um pragmatismo de sobrevivência. A análise de Francisco Henriques da Silva.
12 Jun 26
Deutschland über alles?
O mundo não está preparado para o rearmamento alemão.
À medida que as prioridades dos EUA se afastam da UE, a NATO enfrenta um futuro moldado pela russofobia, pelas ambições francesas e pelo renascimento militar da Alemanha. Mas a história ensina sobre os perigos da militarização germânica. A análise de Afonso Belisário.
11 Jun 26
O preço da estupidez.
Houve um tempo em que se acreditou, com a candura típica do Iluminismo, que bastava alfabetizar as massas para vaciná-las contra a barbárie. Acontece que o inimigo da civilização nunca foi propriamente o criminoso, mas o tolo. A crónica de Marcos Paulo Candeloro.
11 Jun 26
Não, já não há volta a dar.
Não podes simplesmente entrar numa cápsula de má ficção científica e voltar aos anos 80 porque decides gritar uns slogans, publicar umas opiniões atrevidas nas redes sociais, participar numa manifestação do Tommy Robinson ou votar Chega. É tarde demais para chegar cedo.
10 Jun 26
O globalismo está a inverter o crescimento.
Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direcção natural do crescimento humano. Toda a civilização floresceu organicamente, mas o que hoje nos é proposto é engenharia, desconstrução e desnaturação. A análise de António Justo.
9 Jun 26
A Hipersexualização de Menores no Expresso: Uma Linha Vermelha Ultrapassada.
O Expresso considerou apropriado publicar, no Dia Mundial da Criança, um podcast com dois menores de 13 e 15 anos a falar abertamente sobre sexualidade, pornografia, consentimento e masturbação. Uma ideia inaceitável que merece o protesto de Maria Helena Costa.






