Noam Chomsky passou mais de meio século como o grande ativo simbólico da esquerda pós-moderna global. Um professor convertido em marca, um nome convertido em selo de pureza, uma assinatura convertida em salvo-conduto. Em torno dele, formou-se uma infraestrutura permanente de redação, tradução e promoção, capaz de transformar palestra em livro, livro em dogma e dogma em prestígio internacional simultâneo. O resultado foi uma espécie de pontificado laico: Chomsky falava, a máquina canonizava.

Olavo de Carvalho captou o mecanismo com frieza. Chomsky despeja matéria-prima; a indústria do prestígio entrega o produto final.

Em janeiro de 2026, os Epstein Files introduzem o tipo de realidade que a indústria de prestígio costuma filtrar antes que chegue ao público: documentos. Foram mais de 3.800 e-mails envolvendo Chomsky, e o material delineia um padrão de convivência que dissolve qualquer hagiografia.

Chomsky aparece voou muitas vezes no Lolita Express. Hospedou-se nos nas residências de Epstein em Manhattan e Paris. Demonstrou reiterado desejo de visitar a ilha de Little St. James. Sua esposa Valeria, tradutora brasileira, referia-se a Epstein como um amigo muito querido. Epstein realizou ao menos vinte transferências financeiras para fundos dos netos de Chomsky. Os filhos se revoltaram ao descobrir que o pai buscava nomear o braço-direito de Epstein para o conselho do trust familiar. Uma carta não datada, atribuída a Chomsky, descreve Epstein como amigo altamente valorizado e trata o contato regular como experiência valiosa.

Essa sequência tem um efeito específico: ela desloca a relação do campo do acaso para o campo do círculo. Gente famosa se cruza; círculos se frequentam.

Quando o Wall Street Journal confrontou Chomsky, a resposta expôs o tipo de privilégio que sua obra sempre disse combater. “Isso não é da sua conta. Nem de ninguém.” O homem que construiu carreira exigindo transparência institucional reagiu com a privacidade aristocrática, aquela que funciona como argumento universal para quem tem reputação suficiente para dispensar explicações.

 

 

A peça mais reveladora surge em fevereiro de 2019. O Miami Herald já havia localizado mais de 60 mulheres com denúncias de abuso por Epstein. Nesse contexto, Epstein procura Chomsky em busca de orientação sobre imprensa. O professor devolve um manual de contenção: ignorar. Tratar o ambiente moral como histeria. Sugerir que a simples resposta pública alimentaria uma avalanche de ataques, parte deles vindos, segundo ele, de buscadores de publicidade e de acusadores improváveis. A frase central, reportada pelo Telegraph, cristaliza a inversão: a histeria sobre abuso de mulheres teria chegado ao ponto em que questionar uma acusação virava crime pior que assassinato. O autor de Manufacturing Consent, na prática, oferecendo consultoria de gestão de crise a um traficante sexual de menores.

O detalhe grotesco fecha o círculo. Quando alguém publicou um artigo anônimo defendendo Epstein (texto que, aparentemente, foi plantado) Chomsky respondeu com entusiasmo e o chamou de poderoso e convincente, com a recomendação de manter a estratégia do apagamento e evitar atrair atenção da mídia.

O contraste com Norman Finkelstein é único. Em 2015, quando tentaram aproximá-lo de Epstein, Finkelstein respondeu chamando-o de pedófilo e pedindo pena de morte. Um acadêmico com fração da estatura simbólica fez o gesto básico que qualquer pessoa com bússola moral ativa faria: nomeou o objeto pelo nome.

Olavo havia antecipado o diagnóstico. Chamou Chomsky “monstro de mendacidade capaz de fazer a apologia do regime Pol Pot no auge da matança de dois milhões de civis”, e registrou a regra psicológica que explica o truque inteiro: os mais cínicos e brutais vestem com facilidade o manto da autoridade moral.

Valeria tentou amortecer o impacto com a tese da boa-fé: Epstein teria criado uma narrativa manipuladora na qual Noam acreditou. Chega a ser hilariante. O fundador da teoria da manipulação midiática teria sido capturado pela narrativa de um financista condenado por crimes sexuais contra menores.

A cronologia, porém, esmaga o álibi. O Miami Herald publica a investigação em novembro de 2018. O e-mail de fevereiro de 2019 já parte do mundo em que as vítimas existem, já foram localizadas e já têm rosto.

Toda a obra de Chomsky gravita em um eixo, o qual consiste no poder corrompendo a linguagem, linguagem corrompida encobre crimes do poder.

Ao final, foi exatamente essa engenharia que se consumou. A linguagem serviu para amortecer o horror do amigo influente. O relativismo moral, repetido por décadas como sofisticação intelectual, apareceu como instrumento prático para manter a aura intacta e a reputação blindada.

Olavo tinha razão mais uma vez. Epstein foi o sinal.

E quem ainda trata isso como acidente talvez tenha lido Chomsky o suficiente para desaprender a reconhecer gente de verdade.

 

 

MARCOS PAULO CANDELORO

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Marcos Paulo Candeloro  é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.