A trágica notícia “Acusações de abusos sexuais e de violação: creches de Paris enfrentam escândalo de pedofilia sem precedentes”, que me levou a escrever este artigo, é um grito de alerta. Na imagem, vemos uma criança vulnerável diante de um adulto sombrio, com o pano de fundo de creches parisienses assoladas por um escândalo de pedofilia sem precedentes. Acusações de abusos sexuais e violações ocorridos em locais onde os pais modernos depositam os filhos para que as mães possam “ser livres”. Este não é um acontecimento isolado da sociedade secular e não acredito que só aconteça em França. É o fruto amargo de décadas de rebelião contra o desígnio de Deus para a mulher, o lar e a família. Notícias como esta captam com precisão a tragédia da mulher contemporânea: vendida à ilusão de que a liberdade exige abdicar da sua natureza criada por Deus.

Historicamente, a Escritura revela a mulher como o pilar de intuição piedosa, criação cuidadosa, acolhimento compassivo e conexão profunda com os ritmos da vida que o próprio Criador estabeleceu (Génesis 1-2; Provérbios 31). Ela não foi feita para competir agressivamente num mundo moldado pelo pecado, pelo stress e pela ganância. Foi feita para reflectir a glória de Deus no seu papel distintivo.

 

O Contexto de Paris: O Colapso de um Sistema

Para compreendermos a gravidade da situação, importa olhar de perto para o que se passa na capital francesa. O escândalo das creches em Paris não é um mero desvio de conduta individual; expõe um colapso sistémico profundo, recentemente documentado em relatórios oficiais e livros-investigação em França. Sob a pressão de metas económicas e da pressa estatal em disponibilizar vagas para libertar a mão-de-obra feminina, o sector sofreu uma mercantilização selvagem. O resultado foi a desumanização do cuidado: falta crónica de pessoal, contratação de funcionários sem qualificações directas ou verificação adequada de antecedentes, rácio excessivo de crianças por adulto e uma cultura de negligência institucionalizada. Em nome da eficiência e do lucro, as instituições públicas e privadas transformaram-se em depósitos humanos onde o elo mais fraco — os bebés e os bebés em idade pré-escolar — fica completamente desprotegido, à mercê de predadores que operam na sombra da burocracia estatal.

 

O Desígnio de Deus para a Mulher e o Lar

O cristianismo, ancorado na soberania de Deus e na autoridade infalível das Escrituras, afirma que homem e mulher foram criados à imagem de Deus, iguais em dignidade e valor (Génesis 1:27), mas distintos em função e chamada. O apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, instrui:

“As mulheres idosas, semelhantemente, sejam reverentes no viver, não caluniadoras, não escravizadas a muito vinho, mestras do bem, a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem o marido e os filhos, a serem sensatas, puras, boas donas de casa, submissas ao marido, para que a palavra de Deus não seja difamada.” (Tito 2:3-5)

O lar não é uma prisão, mas o primeiro e mais santo campo de missão da mulher piedosa. Ali ela exerce um domínio cultural piedoso, educa os filhos no temor do Senhor (Deuteronómio 6:4-9; Provérbios 31:10-31), cria um ambiente de shalom — paz, ordem e florescimento — e auxilia o marido no exercício do seu chamado como provedor e protector (Génesis 2:18; Efésios 5:22-33). Este não é um “papel cultural”; é a ordem da criação, anterior à Queda, restaurada em Cristo.

Quando o feminismo moderno — com as suas raízes no Iluminismo, no marxismo cultural e na rebelião contra a autoridade divina — convenceu as mulheres de que o lar é opressão e que o mercado de trabalho é libertação, ele não as elevou. Arrancou-as do centro de paz que Deus lhes deu e lançou-as numa espécie de “roda de hamster”. O resultado é previsível à luz da doutrina reformada da depravação total: exaustão, burnout, ansiedade, depressão, desregulação hormonal, lares vazios e filhos entregues a sistemas seculares.

 

A Destruição da Família e a Vulnerabilidade das Crianças

O escândalo das creches de Paris ilustra tragicamente esta realidade. Ao incentivar a saída massiva das mães do lar, o feminismo e o sistema que o serve criaram a necessidade de “terceirizar” o cuidado das crianças. O que o Estado promete como um “direito” (creches públicas, educação precoce), muitas vezes entrega como um perigo. Crianças pequenas, criadas para estar sob o olhar amoroso e protector dos pais (especialmente da mãe nos primeiros anos), são expostas a riscos sobre os quais a Bíblia sempre advertiu: o mundo jaz no Maligno (1 João 5:19), e o coração humano é enganoso (Jeremias 17:9).
Deus não planeou que os filhos fossem criados maioritariamente por instituições estatais ou profissionais assalariados. Ele planeou famílias intactas, onde pais e mães cumprem papéis complementares para a glória d’Ele e para o bem das gerações seguintes (Salmo 127:3-5; 128). A mulher que abdica da sua natureza criada para competir “de igual para igual” num mundo caído não ganha poder: perde a sua verdadeira força — a força que vem de Cristo, manifestada na mansidão, sabedoria e fidelidade à vontade de Deus revelada.

 

Um Chamado à Recuperação do Verdadeiro Poder

Está na hora de as mulheres cristãs resgatarem o seu verdadeiro poder, que nunca esteve nas agendas ideológicas, mas na sua natureza divina, na biologia que Deus declarou “muito boa” e no direito — sim, no dever santo — de viver sem carregar o peso do mundo nas costas. Isto não significa passividade ou indolência. Significa ordem: priorizar o lar, o marido, os filhos e a igreja local. Significa rejeitar a mentira de que o valor vem da carreira ou da aprovação cultural. O valor da mulher está em Cristo (Gálatas 3:28 quanto à salvação; 1 Pedro 3:1-6 quanto ao testemunho).

A igreja de Cristo deve pregar sem vergonha esta doutrina. Os pastores devem equipar os homens a liderarem sacrificialmente, como Cristo amou a igreja. Devem equipar as mulheres a serem “mulheres de valor” (Provérbios 31), e não “soldados corporativos” exaustos. As famílias devem resistir à pressão cultural, mesmo que isso signifique menos conforto material, em troca de paz, ordem e piedade.
A destruição da mulher moderna não começou com o capitalismo ou com o patriarcado, mas com o pecado — o mesmo pecado que disse a Eva: “Sereis como Deus”. Sei que nem todas as mulheres têm o desejo de ser esposas e mães a tempo inteiro; há mulheres que acreditam que só se sentem realizadas na azáfama de um trabalho que exige tudo delas, e que tudo o que querem é fazer carreira e chegar ao topo. Cada uma é livre para seguir o seu projecto de vida. Todavia, o que nunca deviam esquecer é que essa escolha, caso decidam ser mães, implica inevitavelmente a terceirização da educação dos filhos e tudo o que isso acarreta para a protecção e formação das crianças.

O evangelho da graça soberana oferece redenção: perdão para as que se arrependerem e o poder do Espírito Santo para viverem segundo o desígnio do Criador. Que as filhas de Sara (1 Pedro 3:6) se levantem. Que os lares se fortaleçam. Que as crianças sejam protegidas, não por políticas públicas, mas pelo amor piedoso dos pais que temem a Deus. Porque

“A mulher que teme ao Senhor, essa será louvada” (Provérbios 31:30).

 

 

 

MARIA HELENA COSTA

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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: Identidade de Género – Toda a Verdade (2019), #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023) e Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025).

As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.