Numa publicação recente do Instituto São Carlos Borromeu, lemos uma verdade dura que muitos pais cristãos ainda preferem ignorar:

«A escola não está a falhar. Ela está a funcionar exactamente como foi planeada: para transformar, não para ensinar.»

Os pais acordam cedo, trabalham, pagam (quando é o caso) a mensalidade, levam e buscam os filhos todos os dias e, por horas a fio, entregam-nos a um sistema que, muitas vezes, opera contra tudo o que tentam formar em casa — na Palavra de Deus, na oração e na piedade familiar. A decisão mais importante que um pai ou uma mãe toma hoje é onde e como o filho será formado. E essa decisão deve ser tomada à luz das Escrituras, com temor do Senhor.

Como cristã, afirmo sem rodeios: o que vemos não é mero acidente pedagógico, mas um projecto ideológico antigo, com raízes claras no pensamento marxista e que continua activo sob novas embalagens «progressistas». A esquerda cultural sempre soube que, para refazer a sociedade, é preciso primeiro refazer a criança. Não é exagero. É história.

A bolchevique Alexandra Kollontai, figura central da Revolução Russa, expôs o plano com frieza no seu texto O Comunismo e a Família (1920). A família cristã tradicional era, para ela, um entrave à revolução. A solução? Transferir as crianças para o Estado o mais cedo possível. Creches, jardins-de-infância e instituições estatais funcionariam como centros de doutrinação — verdadeiras «madrassas» ideológicas —, onde os filhos dos trabalhadores deixariam de pertencer aos pais para pertencerem ao colectivo. Educadores fiéis ao regime moldá-los-iam em «comunistas conscientes», devotados à solidariedade de classe e à vida colectiva, em vez do «exclusivismo» do lar. Kollontai foi clara: o Estado assumiria a educação e a formação moral, libertando as mães para o trabalho revolucionário e produzindo o «homem novo».

Esta visão não era exclusiva dela. Lenine e outros bolcheviques viam a escola como ferramenta essencial para destruir a família «reaccionária» e construir o socialismo. A família bíblica era o alvo; o Estado, o novo pai.

Em Portugal, o antigo chefe de gabinete de um ex-Ministro da Educação de má memória, Jorge Sarmento Morais, afirmou numa assembleia municipal da Câmara Municipal de Lisboa que «o papel da escola é retirar as crianças à família para as fazer crescer na comunidade». Esta mentalidade estatista revela uma visão onde a escola não auxilia os pais na transmissão da fé e dos valores, mas molda o cidadão conforme a ideologia dominante do momento. É o eco tardio do projecto kollontaiista, agora disfarçado de «cidadania inclusiva», «diversidade» e desconstrução de «estereótipos».

A Bíblia é inequívoca sobre este ponto. Em Deuteronómio 6, o Senhor ordena aos pais que instruam diligentemente os filhos na Sua Palavra — «quando te deitares, quando te levantares, quando estiveres em casa e quando andares pelo caminho». Provérbios 22:6 declara:

«Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele».

Em Efésios 6:4, os pais são exortados:

«Pais, não provoqueis à ira os vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor».

A responsabilidade primária da educação pertence aos pais, não ao Estado. A família é a esfera primordial instituída por Deus para a formação piedosa das gerações. Quando o Estado se arroga o direito de «retirar as crianças à família», ainda que com palavras suaves sobre «sociedade» ou «comunidade», viola a ordem bíblica e a soberania de Deus sobre o lar.

Os pais cristãos e conservadores não podem ser ingénuos. Muitas escolas — públicas ou privadas — estão impregnadas de ideologia de género, relativismo moral, apagamento da cosmovisão cristã e uma visão colectivista que enfraquece a autoridade parental. Não se trata de condenar todos os professores (muitos servem com integridade), mas de reconhecer o projecto estrutural. A tradição cristã sempre recuperou a importância da educação familiar e da instrução na Palavra, enfatizando a formação cristã integral no lar e na igreja local. Não podemos entregar esta herança a um sistema hostil.

A solução passa por recuperar a primazia parental: educação em casa (homeschooling) onde for viável, escolha rigorosa de escolas alinhadas com a cosmovisão bíblica, vigilância activa sobre conteúdos, culto familiar diário e oração constante. Acima de tudo, passa por formar os filhos na doutrina da graça, na autoridade das Escrituras e no temor do Senhor, antes que o mundo os conforme à sua imagem.

A escola não está a falhar. Está a cumprir o desígnio secularizador e transformador que lhe foi dado. Cabe aos pais cristãos, com coragem, fé e obediência à Palavra, declarar: «Não. Os nossos filhos são do Senhor, não do Estado.» Que Deus nos dê sabedoria e força para esta batalha geracional. Soli Deo Glória.

 

 

 

MARIA HELENA COSTA

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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: Identidade de Género – Toda a Verdade (2019), #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023) e Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025).

As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.