Uma análise confidencial da CIA, entregue aos decisores políticos governamentais naa semana passada, concluiu que o Irão pode sobreviver ao bloqueio naval dos EUA durante pelo menos três a quatro meses, antes de enfrentar dificuldades económicas mais severas. As conclusões da agência de inteligência levantam novas questões sobre o optimismo do Presidente Donald Trump em relação ao fim da guerra.
A análise da comunidade de inteligência dos EUA, cujas avaliações secretas sobre o Irão são frequentemente mais sóbrias do que as declarações públicas do governo, também constatou que Teerão mantém capacidades significativas de mísseis balísticos, apesar de semanas de intenso bombardeamento americano e israelita.
O Irão mantém cerca de 75% dos seus stocks de lançadores móveis e cerca de 70% dos seus stocks de mísseis, segundo um responsável norte-americano. O funcionário governamental afirmou que existem provas de que o regime conseguiu recuperar e reabrir quase todas as suas instalações de armazenamento subterrâneo, reparar alguns mísseis danificados e até montar novos sistemas balísticos que não estavam operacionais quando a guerra começou.
Três funcionários actuais e um ex-funcionário do governo dos EUA confirmaram os contornos da análise dos serviços de informação, falando sob anonimato, dado o carácter confidencial dos dados.
Exclusive: A confidential CIA analysis concludes that Iran can survive the U.S. naval blockade for at least three to four months before facing more severe economic hardship, people familiar with the document said. https://t.co/qDn1t7Eiw2
— The Washington Post (@washingtonpost) May 7, 2026
Os factos contrastam com a fanfarronice delirante de Donald Trump, que pintou um quadro bem mais triunfalista em declarações no Salão Oval no início da semana passada, afirmando:
“Os seus mísseis estão praticamente dizimados, provavelmente têm 18, 19%, mas não muito em comparação com o que tinham.”
Alguém que diga ao homem que está a sonhar acordado.
Trump, o Secretário da Defesa Pete Hegseth e outros responsáveis têm apresentado consistentemente a guerra como uma vitória militar esmagadora dos EUA, apesar da rejeição do Irão das exigências de Washington para que abandone o enriquecimento nuclear, entregue os seus stocks de urânio, e reabra o Estreito de Ormuz, entre outras demandas da Casa Branca.
Na quarta-feira, Trump classificou o bloqueio como “inacreditável”.
“A Marinha tem sido incrível. O trabalho que têm feito… é como uma muralha de aço. Ninguém consegue atravessá-la.”
Como o ContraCultura já documentou, estas afirmações estão a leste da realidade, e os iranianos continuam a controlar boa parte do fluxo naval de Ormuz, sendo que o trânsito de embarcações chinesas, indianas, paquistanesas e russas, autorizado por Teerão, continua a fluir.
Um dia antes, o presidente norte-americano tinha afirmado que a economia do Irão “está em colapso”, a sua moeda “não vale nada” e que o país “não consegue pagar” às suas tropas.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, ao elogiar o regime de sanções do presidente, apelidado de “Fúria Económica”, observou no final de Abril que o principal terminal petrolífero do Irão atingiria em breve a sua capacidade máxima, “causando danos permanentes às infra-estruturas petrolíferas do país”.
Mas o Irão revelou-se resiliente, apesar de ter perdido o seu líder supremo e muitos outros altos funcionários em ataques com mísseis, bem como uma parte do seu equipamento militar convencional.
Um dos responsáveis norte-americanos que falou ao The Washington Post disse acreditar que a capacidade do Irão para suportar dificuldades económicas prolongadas é muito maior do que até a CIA expectava:
“A liderança tornou-se mais radical, determinada e cada vez mais confiante de que pode superar a vontade política dos EUA e sustentar a repressão interna para conter qualquer resistência. Comparativamente, vemos regimes semelhantes a durar anos sob embargos contínuos e guerras travadas exclusivamente através do poder aéreo”.
Desde o início da guerra, a 28 de Fevereiro, o Irão fechou efectivamente o Estreito de Ormuz, um canal vital para o transporte de petróleo do Golfo Pérsico. Uma semana depois de o cessar-fogo ter sido alcançado, a 7 de abril, Trump impôs um bloqueio ao Irão, aplicando-o a todos os navios que entravam ou saíam dos portos iranianos. A medida seguiu-se ao colapso das conversações de paz entre os EUA e o Irão no Paquistão. “Acho que o Irão está numa situação muito má. Acho que estão bastante desesperados”, disse na altura, acrescentando:
“Não me importo se voltarem [às negociações] ou não. Se não voltarem, está tudo bem para mim.”
Depois, Trump lançou uma missão a que chamou “Projecto Liberdade”, com o objectivo de facilitar a travessia de navios comerciais pelo estreito, incluindo escolta da Marinha dos EUA, apenas para anunciar de seguida que a operação tinha sido suspensa devido ao “Grande Progresso” nas negociações de paz. Mas no princípio desta semana já dizia que a resposta dos iranianos à proposta de tréguas de Washington era “inaceitável”.
A análise da CIA pode até estar a subestimar a resiliência económica do Irão, caso Teerão consiga exportar petróleo através de rotas terrestres, principalmente por ferrovia através da Ásia Central. Os comboios de camiões e comboios não podem substituir o volume de navios e as rotas marítimas abertas, mas podem proporcionar alguma protecção económica.
Sobre o armamento iraniano, a avaliação confidencial dos serviços de informação afirma que o arsenal de mísseis e lançadores móveis do Irão continua a ser formidável.
Acredita-se que o Irão possuía cerca de 2.500 mísseis balísticos antes do início da guerra, além de milhares de drones. O Irão utilizou estas armas para lançar ataques de retaliação contra aliados dos EUA no Golfo, bem como contra instalações militares americanas em toda a região. Uma investigação visual do Washington Post revelou que os ataques aéreos iranianos danificaram ou destruíram pelo menos 228 estruturas ou equipamentos em instalações militares norte-americanas no Médio Oriente, um nível de destruição muito superior ao reconhecido publicamente pelo governo norte-americano.
Exclusive: Iranian strikes have hit at least 228 structures or pieces of equipment at U.S. military sites since the war began, a Post analysis of satellite imagery reveals.
The destruction is far greater than what was previously reported or acknowledged by the U.S. government.… pic.twitter.com/CkcfoWT6NB
— The Washington Post (@washingtonpost) May 6, 2026
Para controlar o tráfego no Estreito de Ormuz, no entanto, os mísseis são menos importantes do que os drones, de menor custo, segundo analistas dentro e fora do governo. E, ao contrário dos mísseis de médio alcance, estes drones podem ser construídos em pequenos armazéns e instalações facilmente ocultáveis.
Danny Citrinowicz, investigador sénior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, sediado em Telavive, afirmou a este propósito:
“Basta um drone atingir um navio e nenhuma seguradora assumirá as apólices dos petroleiros.”
No início de Abril, a comunidade de inteligência norte-americana avaliou que mais de metade dos lançadores de mísseis do Irão ainda estavam intactos e que o país possuía milhares de drones de ataque unidirecional no seu arsenal.
Citrinowicz, antigo chefe da divisão do Irão nos serviços de informação militar israelita, disse que, mesmo que o bloqueio durasse vários meses, não obrigaria o regime a ceder às exigências de Washington, acrescentando:
“O problema é que eles não acham que precisam de capitular.”
No final, e apesar dos bombardeamentos massivos efectuados pelos EUA e por Israel sobre o Irão, o resultado da guerra será um gigantesco fracasso estratégico e militar. Citrinowicz publicou no X um parágrafo lapidar:
“O que começou como uma guerra supostamente destinada a derrubar o regime e a desmantelar as suas capacidades nucleares e de mísseis balísticos, pode, em vez disso, deixar o regime do Irão mais forte do que antes – fortalecido pelo alívio das sanções, mantendo ainda capacidades significativas de mísseis, continuando a apoiar os seus aliados e, quase certamente, preservando o enriquecimento de urânio no seu próprio território.”
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