No outro dia, a Axios publicou um artigo que citava “descobertas” de que a maioria das pessoas confiava nos seus médicos e enfermeiros. Acontece que estas “descobertas” foram completamente fabricadas por uma empresa chamada Aaru – utilizando inteligência artificial (o que levou a Axios a publicar uma nota do editor e um “esclarecimento”). A Aaru utiliza algo a que chamam “amostragem de silício”, onde os grandes modelos de linguagem (a IA) podem emular humanos a uma fracção do custo e do tempo necessários para a investigação tradicional, segundo noticiou o NY Times.
A amostragem de silício não é investigação. É a fabricação descarada da opinião pública por máquinas – e os principais órgãos de comunicação social e empresas de investigação estão agora a publicar estas fabricações como descobertas legítimas.
Esta não é uma aldrabice isolada. A tecnologia está a ser adoptada por alguns dos maiores nomes dos media, das sondagens de opinião e das pesquisas de mercado. A Gallup fez uma parceria com a startup Simile para criar milhares de “gémeos digitais” gerados por IA que simulam a representação de pessoas reais. A Ipsos está a trabalhar com a Universidade de Stanford para desenvolver dados sintéticos pioneiros para estudos de opinião pública. A distribuidora online de produtos farmacêuticos CVS, investiu na Simile e já está a utilizar estes insights fabricados para moldar a sua estratégia comercial. E órgãos de propaganda como o Axios estão a tratar os resultados como notícias, porque a imprensa corporativa nunca se cansa de servir toda e qualquer fraude vinda de Silicon Valley.
AI is taking polls for us now.
‘Silicon Sampling’
Is this a step towards having our Digital Twins vote for us, invest for us, etc?
No human interaction involved https://t.co/GMl9deNT9b— Polly St. George (@FringeViews) April 7, 2026
O principal objectivo das sondagens de opinião sempre foi a autenticidade – captar o que as pessoas reais realmente pensam – mesmo quando sobrestimam os partidos dos eixos de poder ou favorecem os clientes que as encomendam.
Este processo é imperfeito e complexo. Digamos que um instituto de sondagens quer saber quantas pessoas são a favor de uma determinada medida política, mas acaba com uma sondagem que inclui 80% de conservadores e apenas 20% de liberais. O instituto de sondagens pode achar que, na realidade, o país está mais próximo de uma divisão de 50-50, pelo que os resultados são reequilibrados para reflectir esta realidade percebida. Isto significa que as percentagens que consumimos como resultados de inquéritos são o resultado do modelo, e não números dos dados reais do inquérito.
O problema é que cada modelo é desenhado com os seus próprios enviesamentos, porque os institutos de investigação discordam sobre quais as variáveis que merecem mais peso. Em 2016, o analista político-chefe do The New York Times, Nate Cohn, realizou uma experiência na qual forneceu a cinco institutos de sondagem os mesmos dados de pesquisas eleitorais. Cohn encontrou uma variação de 5% entre os resultados devolvidos pelos modelos dos cinco institutos de investigação. Esta variação foi superior à margem de erro normalmente associada à amostragem aleatória, o que significa que os pressupostos do modelo estavam a distorcer os resultados de forma significativa. Isto é alarmante, pois sugere que os institutos de sondagem podem utilizar a modelação para manipular os inquéritos numa determinada direcção e influenciar a própria opinião pública, em vez de simplesmente relatarem o que o público pensa.
Mas as sondagens tradicionais, por mais imperfeitas que fossem, pelo menos começavam com respostas reais de cidadãos reais. Eram caras, lentas e complicadas precisamente porque o processo de resgate da opinião humana é caro, lento e complicado. A amostragem automatizada remove todos os vestígios desta complexidade – e, com ela, todos os vestígios da realidade. Os modelos são treinados com dados passados, ajustados pelos enviesamentos dos seus criadores e programados para gerar quaisquer opiniões “representativas” que o cliente deseje ver. O resultado não é a opinião pública. É um reflexo das premissas inseridas na máquina.
Na véspera da eleição de 2024, a Aaru realizou uma simulação completa que projectou, “com confiança”, uma vitória apertada para Kamala Harris. Essa “confiança” desmoronou-se perante os resultados reais saídos das urnas. Mas os investigadores de mercado utilizam agora estas pesquisas sintéticas para decidir lançamentos de produtos e campanhas publicitárias. As organizações de formulação de políticas substituem discretamente o feedback real por “sentimento do eleitorado” gerado pela IA. Cada vez que um veículo de comunicação ou um instituto de investigação respeitado apresenta estas invenções como factos, normaliza a ideia de que os dados fabricados são suficientes e rigorosos.
As consequências são gravosas. Quando os títulos dos jornais dizem “uma nova sondagem mostra”, os leitores já não têm sequer forma de saber se foram entrevistadas pessoas reais. A confiança nas instituições está a deteriorar-se rapidamente, sem que seja necessário fornecer aos decisores políticos e aos jornalistas um carregamento ilimitado de dados falsos que soam mais ou menos plausíveis. As ciências sociais, a estratégia política e a investigação de mercado correm o risco de se tornarem elaborados jogos de faz-de-conta digitais.
Trata-se, afinal, mais uma entre várias manobras transformistas sobre a realidade, que são tão caras às elites ocidentais.
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