O Partido Trabalhista perdeu o controlo de importantes concelhos nas eleições locais do Reino Unido, com o Reform UK, liderado por Nigel Farage, a conquistar vitórias expressivas e a invadir tradicionais bastiões da esquerda britânica.

 

Os eleitores de 136 autoridades locais foram às urnas no dia 7 de Maio para eleger mais de 5.000 vereadores. O Reform conquistou mais de 1.300 assentos (presidências, vereações e/ou representantes nas assembleias municipais), enquanto o Partido Trabalhista perdeu cerca de 1.200 (83% dos que ocupavam) e os Conservadores cerca de 500. Os trabalhistas perderam a presidência de 29 municípios.

Para se perceber a dimensão da vitória do Reform UK, o partido de Farage detinha apenas 2 assentos neste universo de municípios antes destas eleições.

 

 

Em reacção aos resultados, o primeiro-ministro Keir Starmer afastou a demissão, dizendo aos seus apoiantes na região oeste da área metropolitana de Londres que assumia a “responsabilidade” pelas derrotas, mas que não abandonaria o seu mandato de cinco anos.

A votação foi o maior teste eleitoral desde a vitória esmagadora de Starmer nas eleições gerais de Julho de 2024 e foi amplamente vista como um veredicto intermédio do seu mandato. Confirmou também a ascensão do Reform UK, que conquistou os seus primeiros 10 conselhos nas eleições locais de Maio de 2025 e, desde então, tem igualado ou superado o Partido Trabalhista e os Conservadores na maioria das sondagens nacionais.

À luz destes resultados, não é de admirar que estas eleições tenham sido adiadas, de forma deveras controversa, por Starmer, em 2025.

 

Vitórias do Reform UK em território tradicionalmente hostil à direita.

Os ganhos do Reform Uk são especialmente significativos em regiões que eram fortalezas históricas dos trabalhistas.

Em Tameside, um distrito metropolitano de Manchester, o Partido Trabalhista garantiu 25 lugares, mas perdeu 14, enquanto o Reform garantiu 19, após conquistar 18. Um padrão semelhante surgiu em Redditch, a sul de Birmingham, onde o partido de Starmer caiu para 13 vereadores após perder cinco e o Reform conquistar oito.

Em Tamworth, no centro de Inglaterra, o Partido Trabalhista caiu para 14 lugares depois de perder um, enquanto o Reform subiu para 10 depois de conquistar nove. O resultado mais surpreendente ocorreu em Hartlepool, no nordeste de Inglaterra, onde o Partido Trabalhista e o Reform empataram com 15 vereadores cada, tendo o primeiro perdido seis e o segundo conquistado 11.

O Partido Reformista obteve também a sua primeira maioria absoluta da noite em Newcastle-under-Lyme, no centro-oeste de Inglaterra, e conquistou o distrito londrino de Havering, no leste do país, num realinhamento histórico de forças políticas.

O Partido Trabalhista manteve Reading (29 lugares) e Plymouth (31), e reteve os distritos londrinos de Ealing (46), Hammersmith & Fulham (38) e Merton (32). Em Oxford, o partido conquistou 20 lugares contra 13 dos Verdes. Em Southampton perdeu sete lugares, ficando com 24, enquanto o Reform ficou com oito e os Verdes e os Conservadores com seis cada.

Os Conservadores conquistaram lugares à custa do Partido Trabalhista em Wandsworth, no sul de Londres, onde o distrito perdeu a maioria absoluta, com 29 lugares para os Conservadores contra 28 para os Trabalhistas. Os Conservadores também retomaram o controlo do Conselho Municipal de Westminster, a primeira vitória da noite para o antigo partido no poder, e mantiveram Harlow, com 22 vereadores, e Broxbourne, em Hertfordshire, com uma maioria de 24.

Os Liberais Democratas também avançaram, assumindo o controlo de Stockport, na Grande Manchester, e Portsmouth, na costa sul, além de terem conquistado lugares em vários distritos londrinos.

 

Starmer recusa-se a largar o osso do poder.

Num discurso aos activistas locais no oeste de Londres, Starmer reconheceu a dimensão da derrota, mas rejeitou os pedidos de demissão:

“Os resultados são difíceis, muito difíceis, e não há forma de suavizar a situação. Dias como este não enfraquecem a minha determinação em promover a mudança que prometi”.

A mudança que prometeu parece não agradar grande coisa aos eleitores.

O primeiro-ministro afirmou que a perda de vereadores trabalhistas “dói, e deve doer, e assumo a responsabilidade”, mas insistiu que não abandonará o cargo “para mergulhar o país no caos”, segundo a BBC.

Aquele que é um dos primeiro-ministros mais odiados na história da monarquia constitucional britânica, destacou ainda a dimensão da sua vitória nas eleições gerais de 2024. “Liderando o partido, conquistei esta vitória, que representa um mandato de cinco anos para mudar o país”, afirmou, confirmando a sua intenção de cumprir o mandato e voltar a candidatar-se nas próximas eleições gerais.

No entanto, vozes dentro do partido apelaram ao seu afastamento. Daren Hale, líder do grupo trabalhista em Hull, onde o partido perdeu sete lugares, disse à BBC:

“Não desejo mal a Keir Starmer, mas acho que, no fim das contas, ele não é a pessoa certa para nos levar ao próximo nível”.

Rebecca Long-Bailey, deputada trabalhista por Salford e candidata à liderança em 2020, afirmou que o partido perdeu vários vereadores e excelentes candidatos devido ao sofrível trabalho que tem vindo a realizar a nível nacional em diversas questões. A pressão sobre Starmer tem aumentado nos últimos meses devido à controvérsia em torno da sua nomeação de Lord Peter Mandelson como embaixador do Reino Unido em Washington, apesar da amizade do nobre com o falecido financista pedófilo Jeffrey Epstein. Mandelson foi despedido em Setembro de 2025, após a publicação de e-mails que detalhavam essa relação.

Em Fevereiro de 2026, o líder do Partido Trabalhista Escocês, Anas Sarwar, apelou publicamente à demissão do primeiro-ministro, a figura mais importante do partido a fazê-lo até agora.

 

Farage declara que o seu partido “veio para ficar”.

Farage afirmou que o país está a assistir a uma “mudança histórica na política britânica”, tradicionalmente dominada pelo Partido Trabalhista e pelos Conservadores, declarando:

“Agora somos o partido mais nacional de todos. Viemos para ficar”.

Fundado em 2018 como Partido do Brexit e renomeado em 2021, o Reform UK construiu grande parte do seu ímpeto na oposição à imigração, na crítica às políticas climáticas de emissão zero e na promessa de desmantelar programas locais de diversidade. O partido conquistou os seus primeiros lugares nos conselhos municipais em Maio de 2025 e parece agora estar a consolidar essa base numa força nacional.

Numa publicação nas redes sociais, o partido alegou que os eleitores trabalhistas estavam a migrar directamente para o Reform e que estava a “quebrar a barreira vermelha de uma forma que nem as sondagens nem os especialistas previram”.

 

O equívoco dos bifes.

É no entanto claríssimo que o eleitorado do Reform UK vai ter uma desilusão grande, já daqui a três anos, se o partido mantiver esta trajectória e vencer as legislativas de 2029. Como já por várias vezes tivemos oportunidade de documentar, o Reform UK é uma versão 2.0 do Partido Conservador e a validação flagrante do adágio “alguma coisa tem que mudar para que tudo continue na mesma”.

Nigel Farage está a enxertar as cúpulas do partido com homens do estabelecimento, já recuou inúmeras vezes em relação a políticas de imigração mais decisivas, está a patinar até em relação ao combate à cultura woke que infecta toda a administração pública britânica, é um russofóbico e um falcão da guerra tão ou mais febril que os globalistas assumidos e, de todo em todo, um guardião do sistema.

No panorama político britânico actual, existe uma opção que parece verdadeiramente populista e anti-sistema: o Restore Britain. Mas dada a sua juventude e apesar de taxas de adesão à militância verdadeiramente recordistas, o partido não tem expressão na vertente municipal e apresentou resultados insignificantes nestas eleições, muito porque se apresentou às urnas apenas numa dezena de municípios, embora tenha tido bons resultados nessas localidades.

Talvez em 2029 seja diferente. Até porque só um Restore Britain forte no parlamento poderá obrigar Farage a cumprir, mesmo que minimamente, as expectativas do seu eleitorado, quando for primeiro-ministro.