Carruagem Pushpaka . O Palácio Voador de Ramayana em Angkor . Varro

 

“Sempre que um conjunto de circunstâncias invulgares se apresenta, é da natureza da mente humana analisá-lo até que se encontre um padrão racional a algum nível. Mas é perfeitamente concebível que a natureza nos apresente circunstâncias tão profundamente organizadas que os nossos erros de observação e lógica mascarem completamente o padrão a identificar. Para o verdadeiro cientista, não há aqui nada de novo.”

 Jacques Vallée

 

Estamos neste momento a viver num histerismo maluco sobre a narrativa dos bichos alienígenas que o Regime Epstein está a propagar (apesar do hambúrguer de coisa nenhuma que foi servido ao público na sexta-feira), numa clara e armadilhada psyop em que as massas, mais uma vez, estão a cair que nem tordos aparvalhados.

Saiu na semana passada um artigo sobre este assunto no Contra e estou já farto de alertar para a fraude que aí vem tanto aqui como no blog, mas vale a pena insistir, até porque as redes sociais estão a rebentar com conteúdos deste género ensandecido (com o devido respeito por David Icke, que ele bem o merece):

 

 

Pensem comigo, por gentileza. Em que é que consiste o fenómeno OVNI?

Temos hoje a certeza de que algo se passa de estranho com o tecido da realidade – isso é indiscutível. Há milhares, centenas de milhares de relatos de avistamentos de objectos voadores (e mergulhadores) não identificados e de criaturas não humanas que passeiam descontraidamente pela curvatura da Terra. Há relatórios militares e papers científicos e testemunhos de informadores e denunciantes que apontam para presenças inexplicáveis e factos enigmáticos. Sim. Tudo bem. Mas o que nos contam esses relatos e esses documentos?

As viaturas em que estas entidades se deslocam são de uma diversidade morfológica delirante: discos e esferas, triângulos e tetraedros, rectângulos e paralelepípedos, boomerangs e charutos, orbes e shapeshitfers, naves espaciais do género ‘Guerra das Estrelas’, naves espaciais do género ‘Encontros Imediatos’, autómatos voadores, drones sem mecanismo propulsor, drones com mecanismo propulsor mas que desafiam as leis da gravidade, enfim, uma quantidade maluca de tecnologias e formatos.

Depois, as entidades. São homenzinhos cinzentos e homenzinhos verdes; são como os humanos, mas louros e esbeltos (“nórdicos”); são reptilóides e insectóides; são baixinhos e são altos; a maior parte são humanóides cabeçudos; todos têm braços e pernas e olhos, mas uns têm nariz e boca, outros não; uns falam e outros comunicam por telepatia; uns são autómatos, outros são biológicos; uns são beras, outros são bonzinhos e assim sucessivamente até ao total jardim zoológico do assunto.

O motivo da sua visita também difere, caso a caso. Cumprem as mil distâncias incalculáveis dos cosmos para chegarem até aqui com o fim de desenhar complexas geometrias nas searas, decapitar o gado, alertar sobre as ameaças das alterações climáticas (!), impedir que a raça humana espolete o suicídio termonuclear, raptar Sapiens e inoculá-los com microprocessadores, trabalhar em cooperativa com a CIA e com a NASA em projectos de grandiosidade operática, enfim, trazem com eles uma quantidade também prolixa de objectivos e missões.

Toda este fenomenologia (melhor seria dizer mitologia) começou a ser registada por altura da II Guerra Mundial. Antes disso, a narrativa era completamente diferente. Antes disso, falávamos de outro tipo de presenças misteriosas. Os veículos eram carros de fogo ou “carruagens infernais”; estrelas-guia e nuvens animadas, palácios voadores e tapetes voadores; “cavalos flamejantes” e “barcos celestiais”; e, no caso do épico hindu Mahabharata, bastante mais elaborado no que diz respeito à tecnologia: “pássaros de madeira leve com motores de mercúrio” e “rugido de leão”.

As entidades eram deuses e semi-deuses; santos e demónios; anjos e arcanjos, profetas e guerreiros; heróis prometidos ou ressuscitados; figuras marianas e messiânicas; espíritos e fantasmas, ou seja:

Os paradigmas culturais e tecnológicos de cada civilização reflectem a interpretação e descrição que fazemos de qualquer tipo de fenomenologia que escape ao nosso entendimento. 

Diz-se que os indígenas sul-americanos conseguiam observar e interpretar os portugueses e os espanhóis que chegavam em botes às praias, mas que eram incapazes de assimilar a presença ao largo dos grandes navios que traziam estes estranhos seres, por não estarem dotados de referências conceptuais que lhes permitissem sequer o processamento visual dessas embarcações inimagináveis para eles.

O mesmo poderá estar a acontecer connosco, agora. Confrontados com uma dimensão da realidade de tal forma díspar da nossa experiência empírica, o melhor que podemos fazer é configurar estas entidades e o seu aparato técnico com referências que dominamos: carros de fogo e cavalos flamejantes, quando viajávamos de carroça; discos voadores quando Hollywood comanda a nossa imaginação. Aparições marianas quando o cristianismo dominava o conteúdo onírico dos nossos dias, reptilóides e insectóides extraterrestres quando, privados da metafísica pela civilização materialista, nada temos a que recorrer senão ao medo perante o mistério.

Na verdade, se pensarmos bem, não há qualquer prova material de que estas entidades sejam provenientes de outros planetas. Ao contrário, não parece fazer muito sentido que tantas espécies diferentes, viajando em veículos  tão diversos e dispondo de tecnologias de tal forma avançadas que ultrapassam facilmente as mais elementares constantes da física, convirjam ao mesmo tempo para este remoto e em tudo modesto terceiro calhau a contar do sol, considerando a imensidão incomensurável do espaço-tempo.

Como já afirmei tantas vezes, parece-me que este é um fenómeno de ordem espiritual. E a verdade sobre a natureza do cosmos não nos é dada, por definição ontológica. A nossa percepção e a nossa capacidade cognitiva é condicionada à necessidade e à sobrevivência, e não à detenção de uma perspectiva holística, transcendente e omnisciente do universo. O que não sabemos e que nunca saberemos é imenso como imenso é aquilo que não percepcionamos e que está muito além da nossa capacidade empírica ou científica.

É na verdade a tudo isso que chamamos “sobrenatural”. Da mesma forma que a ciência contemporânea chama “energia escura” e “matéria escura” a mais de 90% da composição do universo, e que a ciência do século XIV chamava peste a uma quantidade diversa de doenças contagiosas.

É possível que se dê ciclicamente na história da humanidade (ou nem tão ciclicamente como isso) uma espécie de curto circuito entre as dimensões que nos são familiares e outras que existem para lá do nosso esquema ontológico e empírico. Mas, como aconteceu no passado, não creio que esse momento de confrontação com o mistério nos eleve para um outro patamar de conhecimento. Ao contrário, o que temo é que a circunstância seja manipulada e instrumentalizada pelas elites para fins nefastos relacionados com a religião, a ideologia, a política e o poder.

Júlio César teve uma visão, pouco antes de atravessar o Rubicão em 49 a.C., enquanto hesitava e reflectia sobre as graves consequências de iniciar uma guerra civil em Roma. Suetónio relata essa visão desta forma:

“De repente, apareceu ali perto um ser de estatura maravilhosa e beleza extraordinária, que se sentou e tocava uma flauta de cana. Não só os pastores correram para ouvi-lo, como também muitos soldados deixaram seus postos, entre eles alguns trombeteiros. A aparição tomou uma trombeta de um deles, correu para o rio, tocou o sinal de guerra com um sopro poderoso e atravessou para a outra margem.”

César interpretou a aparição como um sinal dos deuses e exclamou, também segundo Suetónio:

“Tomemos o caminho que os sinais dos deuses e a injustiça dos inimigos nos indicam. A sorte está lançada!” (Alea iacta est).

A aparição sobrenatural, ou, falando modernês, a entidade alienígena, convenceu-o a avançar com as suas legiões, marcando o início da guerra civil contra Pompeu e o Senado. E o fim da República, que passou a Império.

E quem pode garantir que a “revelação” do fenómeno OVNI que agora o Regime Epstein está a desenvolver, não será utilizada para iniciar um processo de natureza semelhante?

 

 

Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura