A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, abordou a ameaça transformista dos deepfakes, depois de imagens geradas por inteligência artificial (IA) que a retratavam em lingerie terem circulado online.
Meloni abordou as imagens que foram falsamente apresentadas como reais por opositores políticos no X, referindo-se a publicações nas redes sociais contendo fotos suas e “sensuais”, num quarto, em trajes íntimos, geradas por IA, que muitos retardados acreditaram serem genuínas.
As imagens são obviamente falsas e Meloni, mantendo algum espírito, dada a circunstância, referiu até que o criador dos artefactos a tinha “melhorado bastante”.
A primeira-ministra pediu às pessoas que sejam mais vigilantes ao visualizar imagens geradas por agentes de Inteligência artificial, instando-as a verificar antes de acreditar.
As fotos geradas por IA têm sido tema de debate em vários países nos últimos meses, incluindo a Grã-Bretanha, que exigiu que o X impedisse a sua ferramenta de IA, Grok, de criar imagens que ridicularizavam políticos, ameaçando banir a plataforma caso não cumprisse o requisito. O caso em questão, no entanto, foi motivado pela intenção do Governo de Starmer de anular a sátira política, já que os artefactos visados não procuravam induzir o público em erro e não podem ser classificados como deepfake.
A este propósito Giorgia Meloni escreveu no X:
“Os deepfakes são uma ferramenta perigosa, porque podem enganar, manipular e atacar qualquer pessoa. Eu consigo defender-me. Muitos outros não conseguem. Por isso, deve ser sempre aplicada uma regra: verificar antes de acreditar e acreditar antes de partilhar. Porque hoje acontece comigo, amanhã pode acontecer com qualquer um.”
Girano in questi giorni diverse mie foto false, generate con l’intelligenza artificiale e spacciate per vere da qualche solerte oppositore.
Devo riconoscere che chi le ha realizzate, almeno nel caso in allegato, mi ha anche migliorata parecchio. Ma resta il fatto che, pur di… pic.twitter.com/or44qru2qj
— Giorgia Meloni (@GiorgiaMeloni) May 5, 2026
À primeira abordagem, o incidente destaca o crescente impacto dos deepfakes no discurso político, levantando preocupações sobre a desinformação e o potencial de tal tecnologia ser utilizada contra pessoas que podem não ter os meios ou a plataforma para se defenderem. Mas a questão é mais profunda. Em Outubro de 2023, escrevemos sobre este assunto a seguinte advertência:
Chegámos finalmente a um modo tecnológico em que já não podemos acreditar em nada do que vemos ou ouvimos.
(…)
A inteligência artificial – que ainda está a dar os seus primeiros passos mas já cria imagens e poemas, realiza filmes, projecta cenários em 3D e até compõe música que passa muito bem por algo criado pela sensibilidade humana – está também a deformar a fronteira entre o real e o imaginário.
(…)
Quando todos soubermos que é possível às tecnologias digitais a fabricação de uma realidade paralela, então não confiaremos em nada. Tudo nos parecerá inautêntico. De facto, a própria palavra “autêntico” não terá qualquer significado. Estaremos então claramente a co-habitar o país de Alice, incapazes de distinguir entre o sonho e o sonhador, perdidos numa espécie de labirinto de espelhos, sem sabermos quais os que reflectem a realidade e os que projectam ilusões.
(…)
A vertente tecnológica, aliada ao vector político, está a terratransformar a percepção que temos das coisas. E a Singularidade não tarda nada; esse momento em que a realidade não tem como ser validada.
Não foi assim há tanto tempo que as provas visuais reinavam, nos tribunais como na opinião pública. Se alguém entregasse a uma mulher casada uma fotografia do seu marido na cama com a secretária, a infeliz não a questionaria como prova de infidelidade. Agora já não é bem assim. E a curtíssimo prazo qualquer criança de 10 anos poderá produzir as provas incriminatórias que desejar, com alguns cliques no rato.
E se assim é, o que não poderá ser quando as máquinas de propaganda se dedicarem à mistificação digital? Que tal uma falsa evidência que dê início a uma guerra? E porque não simular uma invasão de extra-terrestres, em directo, no telejornal? Ou fabricar uma pandemia inexistente, fornecendo aos ávidos e servis meios de comunicação social, imagens realistas de milhares de cadáveres em valas comuns, hospitais a abarrotar de mortos-vivos e pânico de multidões, nas cidades de um país remoto da Indochina?
Muito para além das graves implicações destes cenários, há uma falência mais profunda, que é aquela contada na proverbial rábula de Pedro e do Lobo, que é a de não sabermos o que é real e o que não é. E essa dúvida será devastadora. Todos terão a sua opinião subjectiva sobre quase tudo, todos serão especialistas, todos poderão acreditar naquilo em que decidirem acreditar, seja qual for a razão. Ninguém confiará em nenhum dos habituais fundamentos probatórios da verdade.
O velho adágio bíblico de “ver para crer” deixará de ter qualquer significado.
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