
Num recente Grande Debate da RTP sobre identidade de género e transexualidade, a psiquiatra Zélia Figueiredo, com vasta experiência no acompanhamento de centenas de casos, defendeu o modelo de afirmação de género. No entanto, as suas declarações revelam contradições profundas que merecem escrutínio público, especialmente quando envolvem menores.
Figueiredo afirma, de forma consistente, que o transgenerismo não é uma doença. Esta posição alinha-se com a despatologização promovida pela OMS na CID-11, que substituiu termos anteriores por “incongruência de género”, movendo-a do capítulo de perturbações mentais para “condições relacionadas com a saúde sexual”. Em princípio, trata-se de uma evolução conceptual destinada a reduzir estigma. Contudo, o simples facto de a “incongruência de género” (ou “disforia de género” no DSM-5) continuar listada em manuais diagnósticos como o DSM e a CID-11/12 não significa, por si só, que não se trate de uma condição com componente patológica. Manter um diagnóstico, mesmo relocalizado, reconhece que existe sofrimento clinicamente significativo, incongruência marcada e persistente entre o sexo biológico e a identidade vivenciada, que frequentemente requer intervenção. A mudança de terminologia — de “transtorno da identidade de género”/“transexualismo” para “disforia de género” e agora “incongruência de género” — resultou em grande medida de pressão activista e lobbies, semelhante ao que ocorreu com a homossexualidade no passado. O objectivo declarado foi reduzir estigma, mas gerou críticas por priorizar considerações políticas sobre rigor científico puro.
Esta afirmação ganha contornos problemáticos no contexto prático. Se não é uma doença (ou patologia), por que razão se medicaliza de forma rotineira e precoce com bloqueadores da puberdade, hormonas cruzadas e cirurgias irreversíveis em adolescentes? Tratamentos médicos pressupõem uma condição que justifica intervenção clínica significativa. A despatologização formal não elimina o sofrimento real, as elevadas comorbilidades psiquiátricas (autismo, trauma, depressão, ansiedade — frequentemente acima de 70% nos estudos) nem os riscos documentados das intervenções.
No mesmo debate, Figueiredo atacou pessoalmente o psiquiatra Ricardo Gusmão, acusando-o de mentiroso ou de apresentar dados falsos. Simultaneamente, admitiu não ter tempo para ler relatórios, revisões sistemáticas ou estudos actualizados “porque tem de atender os doentes no consultório”. Esta é uma contradição grave e anti-científica. Ao agir assim, a médica ignora os princípios da Magna Carta das Universidades, que estabelece que o ensino e a investigação devem ser inseparáveis para que a prática não se torne obsoleta ou ideológica.
A incoerência de Zélia Figueiredo atingiu o seu auge quando mentiu descaradamente, em directo e a cores, afirmando que bloqueadores da puberdade e hormonas nunca eram prescritos a crianças. A realidade dos factos desmente-a: a psiquiatra omitiu que, após apenas dez minutos de consulta a sós com uma menor de 10 anos — uma criança que se auto-mutilava —, aconselhou a mãe a avançar imediatamente para bloqueadores da puberdade “antes que lhe viesse o período”. Fê-lo sem qualquer tentativa de compreender as causas profundas daquele sofrimento ou da auto-mutilação, ignorando o dever de diagnóstico exploratório em favor de uma medicalização precipitada.
O Dr. Ricardo Gusmão tem alertado precisamente para esta postura, denunciando três pontos fundamentais:
– Que o transgenerismo na infância e adolescência está a ser impulsionado por um contágio social e não por uma base biológica comprovada;
– Que a “afirmação de género” ignora sistematicamente as comorbilidades psiquiátricas graves;
– E que é dever do médico ser “intolerante” perante a mentira científica e a negação dos factos.
Mais grave ainda, Gusmão revelou o escândalo do NHS (Serviço Nacional de Saúde britânico), que passou cinco anos a tentar silenciar as críticas e a ocultar a má prática clínica que ocorria na clínica Tavistock, provando que o sistema pode ser corrompido para proteger uma narrativa em vez dos doentes.
A psiquiatria moderna baseia-se em evidência: revisões sistemáticas independentes, meta-análises e follow-up de longo prazo. Recusar-se a actualizar o conhecimento sobre um tema com explosão de casos enquanto se acusa os críticos de ignorância não é prática clínica responsável — é dogmatismo. A Cass Review (Reino Unido, 2024) concluiu que a evidência para bloqueadores da puberdade é “notavelmente fraca”, com efeitos negativos consistentes na densidade óssea, fertilidade e desenvolvimento cognitivo.
O depoimento da mãe no reel da Juventude em Transição ilustra o outro lado: pais que sentem pressão para afirmar imediatamente, com profissionais a minimizarem dúvidas. Isto não é “transfobia” — é preocupação legítima com evidência. Dizer “não é doença” não resolve o dilema ético. A medicalização experimental em massa não é neutra nem compassiva. Ignorar relatórios científicos enquanto se ataca críticos projecta exactamente o que se critica nos outros. A melhor prática actual exige humildade científica: primum non nocere (primeiro, não fazer mal). Portugal deve seguir a evidência europeia actualizada, não narrativas ideológicas. Os jovens merecem medicina baseada em ciência, não em activismo.
MARIA HELENA COSTA
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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: Identidade de Género – Toda a Verdade (2019), #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023) e Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025).
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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