Em 11 de junho de 2014, Jeffrey Epstein enviou um email a Bill Gates com uma proposta que deveria ter estampado a capa de todos os jornais do planeta: “Por que não fazemos algo radical, disruptivo. A Saúde Global poderia avançar em saltos em vez de passos, com tentativas de avanços genéticos e virologia. Estou feliz em compartilhar um fundo significativo com você em pesquisa pura, se você escolher.” A frase está nos Epstein Files. É documento oficial. Um condenado por crimes sexuais contra menores propondo ao maior financiador privado da OMS uma parceria em avanços genéticos e virologia. E a imprensa tratou como nota de rodapé.
O email ganha outra dimensão quando se entende o que Epstein fazia com a biologia fora das caixas de entrada. Epstein mantinha um plano concreto, discutido repetidamente com cientistas e empresários desde o início dos anos 2000: usar seu rancho de 33.000 pés quadrados no Novo México, o Zorro Ranch, como base para inseminar 20 mulheres simultaneamente com seu esperma. O modelo era o Repository for Germinal Choice, um banco de esperma real abastecido com material de laureados com o Nobel que operou até 1999 para fortalecer o pool genético humano. Epstein se via como matéria-prima genética superior. Chamava essa obsessão de transhumanismo. Em reuniões científicas redirecionava sistematicamente a conversa para como humanos poderiam ser melhorados geneticamente. Alan Dershowitz, seu próprio advogado e professor emérito de Harvard, relatou que ficou horrorizado com as discussões, dado o uso da eugenia pelos nazistas. Em uma sessão em Harvard, Epstein criticou abertamente esforços para reduzir a fome e fornecer saúde aos pobres porque aumentava o risco de superpopulação. Steven Pinker rebateu e foi excluído das reuniões seguintes. O acesso à elite científica vinha através de John Brockman, agente literário que organizava jantares onde cientistas eram apresentados a financiadores. Por essas portas passaram Stephen Hawking, Murray Gell-Mann, George Church e Frank Wilczek. Os mesmos jantares que serviam para recrutar vítimas de tráfico sexual serviam para triar mulheres com credenciais acadêmicas como candidatas ao programa reprodutivo de Epstein. A operação eugênica e a operação criminosa funcionavam na mesma infraestrutura social.
Em março de 2015, Terje Rod-Larsen encaminhou a Epstein uma proposta de pesquisa sobre pandemias que havia sido submetida à Fundação Bill & Melinda Gates. A Fundação rejeitou formalmente. Mas propostas de pesquisa sobre pandemias circulavam entre um condenado por tráfico sexual e a maior fundação de saúde global do mundo sem gerar uma única manchete. Emails internos do MIT Media Lab revelam que uma doação de 2 milhões de dólares de Bill Gates ao laboratório foi direcionada por Jeffrey Epstein. Funcionários do MIT tomaram medidas deliberadas para ocultar a conexão. Joi Ito, diretor do Media Lab, renunciou em 2019 quando o New Yorker expôs o esquema. Epstein planejava criar um instituto no MIT chamado ONE SCIENCE para explorar inteligência de sinais, big data, biologia matemática e neurociência. Financiava o Programa de Dinâmica Evolutiva de Harvard dirigido por Martin Nowak. O New York Times documentou que mantinha um plano declarado de inseminar a raça humana com seu DNA usando seu rancho no Novo México.
Para entender o que esses documentos significam é preciso recuar um século.
Em 1913, John D. Rockefeller cria a Rockefeller Foundation. Em 1920, a Fundação se torna a principal financiadora do precursor direto da OMS. Quando a OMS é oficialmente fundada em 1948, a infraestrutura já pertencia ao dinheiro Rockefeller. De 1910 a 1939, a mesma Fundação financia diretamente o Eugenics Record Office em Cold Spring Harbor, que catalogava linhagens defeituosas na população americana e redigiu leis que resultaram na esterilização forçada de mais de 60.000 cidadãos. Do outro lado do Atlântico, financiou o Kaiser Wilhelm Institute em Berlim, cujos pesquisadores foram mentores de Josef Mengele. As leis de esterilização nazistas de 1933 foram modeladas nas leis americanas que o dinheiro Rockefeller criou. Edwin Black documentou cada centavo em War Against the Weak.
Quando eugenia virou sinônimo de campo de concentração, Frederick Osborn, ex-presidente da American Eugenics Society e cofundador do Population Council dos Rockefellers, escreveu em 1968: “Eugenic goals are most likely to be attained under a name other than eugenics.” Objetivos eugênicos têm mais chance de sucesso sob outro nome. A agenda mudou de endereço. Planejamento familiar. Saúde reprodutiva. Vacinação global. Vigilância genômica. Os nomes mudam a cada década. Os cheques vêm das mesmas famílias. E um século depois, um operador de rede condenado por tráfico sexual planejava programas de reprodução seletiva no deserto do Novo México enquanto financiava transhumanismo e jantava com prêmios Nobel.
Agora conectem as camadas.
Bill Gates Sr. foi membro do conselho da Planned Parenthood, fundada por Margaret Sanger com financiamento Rockefeller e ligações documentadas ao movimento eugênico. Bill Gates Jr. transformou sua fundação na maior financiadora privada da OMS, ultrapassando dezenas de países soberanos. Em 2011, Epstein escreveu a Boris Nikolic, que viria a ser nomeado executor substituto de seu testamento: “Aposto que se reservarmos um dia inteiro, chegaremos a algumas soluções candidatas para a escassez de vacinas… bill melinda você sam.. a ilha / rancho. época de natal.” Soluções para escassez de vacinas discutidas na ilha particular de um pedófilo condenado que planejava inseminar 20 mulheres com seu DNA. Em 2013, Epstein perguntou a vários contatos: “Bill Gates disse que seus vacinadores estão sendo baleados e mortos no norte da Nigéria. Como você resolveria a situação?” O nível de intimidade operacional entre os dois sobre temas de saúde global é documental.
Em março de 2013, Epstein e Gates se reuniram com Thorbjørn Jagland, presidente do Comitê do Nobel, em Estrasburgo. Em junho de 2014, Epstein pediu diretamente a Gates para doar generosamente ao MIT Media Lab, ao Programa de Dinâmica Evolutiva de Harvard e ao Bard College. Gates doou. O MIT ocultou a conexão. Harvard recebeu. A gramática é a mesma do Eugenics Record Office em 1910. Financiamento privado. Roupagem científica. Instituições de prestígio como escudo reputacional. E um operador condenado por crimes contra menores circulando como corretor de acesso entre o capital e a ciência.
Em 2010, a Fundação Rockefeller publicou Scenarios for the Future of Technology and International Development. O cenário Lock Step descreve uma pandemia respiratória seguida de lockdowns e vigilância sanitária centralizada. Uma década antes do COVID-19. Durante a pandemia real, Rockefeller financiou o Pandemic Prevention Institute e Gates operou como segundo maior financiador da OMS. Os dois maiores poderes sobre a política sanitária global durante a maior crise do século eram fundações de bilionários que jamais receberam um voto. Em 2021, a própria Fundação Rockefeller admitiu oficialmente que seu legado eugênico causou danos reais a pessoas e comunidades. A mídia cobriu por dois dias.
O padrão que emerge de 4 milhões de páginas de documentos é arquitetura. Rockefeller construiu a infraestrutura da saúde global no século XX e financiou a eugenia que esterilizou 60.000 americanos e inspirou leis nazistas. Gates opera essa infraestrutura no século XXI. Epstein circulava entre os dois mundos propondo avanços genéticos e virologia, financiando pesquisa em melhoramento humano nas maiores universidades do planeta e discutindo escassez de vacinas na sua ilha particular com o homem que mais dinheiro coloca na OMS. Um homem que buscava melhorar a espécie humana com seu próprio DNA no deserto do Novo México enquanto triava jovens mulheres nos mesmos jantares de Manhattan onde recrutava vítimas. E quando os arquivos começaram a falar, a máquina de silenciamento funcionou com a mesma eficiência bancária que a construiu.
Quem financia a arquitetura manda na resposta. Quem manda na resposta define o que é ciência oficialmente. E na próxima pandemia, a democracia chega atrasada novamente porque nunca esteve na sala onde as decisões foram tomadas.
MARCOS PAULO CANDELORO
__________
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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