A Morte de Socrates . Jacques-Louis David . 1787

 

As últimas palavras de figuras históricas representam um fascinante vislumbre da mente humana no limiar da morte. Elas podem ser profundas, irónicas, poéticas ou até banais, reflectindo o carácter, as crenças ou as circunstâncias finais daqueles que as proferem e deixando à posteridade um vestígio eloquente das suas personalidades.

Ao longo da história, essas declarações finais capturaram a imaginação colectiva, servindo como epitáfios improvisados, máximas imperecíveis, que ecoam através dos séculos. Neste breve ensaio, exploramos o tema das “famosas últimas palavras” de personagens históricos.

 

Políticos e estadistas: morrem como os outros.

Começando pelos líderes políticos, cujas vidas foram marcadas pelo poder e o conflito, as suas palavras finais frequentemente carregam um tom de resignação ou desafio, mas ecoam também um facto incontestável: apesar do poder que detêm em vida, mostram-se frágeis na morte, como toda a gente.

Antes de ser auxiliado por um escravo porque não conseguia suicidar-se sozinho, Nero, o infame imperador romano, lamentou pateticamente no seu derradeiro momento, em 68 d.C.:

“Que artista morre comigo!”

O Cardeal Wolsey, ambicioso e draconiano chanceler de Henrique VIII, morreu de doença natural em Leicester, em 1530, depois de ter sido condenado à morte. Já a caminho da Torre de Londres, proferiu uma das mais célebres últimas frases de que há registo:

“Se ao menos tivesse servido Deus com o mesmo zelo que servi o rei…”

Marie Antoinette, a rainha francesa que os jacobinos levaram ao cadafalso em 1793, desculpou-se ao pisar o pé do carrasco, deixando à posteridade não a sua proverbial arrogância, mas a sua polida educação:

“Perdoe-me, senhor. Foi sem querer.”

Louise-Marie-Thérèse de Saint Maurice, uma aristocrata francesa, declarou pomposamente, após deixar escapar gases no seu leito de morte:

“Bom. Uma mulher que se peida ainda não está morta.”

As últimas palavras do almirante Nelson (morto na Batalha de Trafalgar, a 21 de Outubro de 1805) são um tema clássico e controverso na história naval britânica. Existem várias versões relatadas por testemunhas oculares e fontes contemporâneas, mas a mais famosa e tradicional é esta:

“Kiss me, Hardy” (em português: “Beija-me, Hardy”).

Esta frase foi dita a Sir Thomas Hardy, o capitão do seu navio-almirante HMS Victory, que se inclinou para o beijar na testa enquanto Nelson agonizava no convés inferior, após ser atingido por um atirador francês.

Sem saber que o seu rival e amigo havia morrido horas antes, no mesmo dia 4 de Julho de 1826, mas traindo a sua obsessão com o compatriota e adversário político, John Adams, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, emitiu este derradeiro sussurro:

“Thomas Jefferson sobrevive.”

Pancho Villa, o líder revolucionário mexicano, apelou ao embuste, para que fosse recordado por palavras que não disse, ao ser assassinado em 1923:

“Não me deixem terminar assim. Digam a eles que eu disse alguma coisa.”

Franklin D. Roosevelt, presidente americano, queixou-se casualmente, segundos antes de um derrame fatal em 1945:

“Tenho uma terrível dor de cabeça.”

Winston Churchill, o icónico primeiro-ministro britânico que será a figura histórica mais citada de sempre, murmurou nos seus últimos momentos, pouco antes de entrar em coma após um derrame cerebral em 1965:

“Estou entediado com tudo isto.”

 

A Morte de Nelson . Benjamin West . 1806

 

Escritores, pintores e músicos: criativos até ao fim.

No mundo das artes e da literatura, as últimas palavras frequentemente revelam uma mistura de criatividade e melancolia.

Sendo que o problema da sua obra estará mais na quantidade do que na qualidade, Leonardo da Vinci, o génio renascentista, manifestou uma talvez desadequada humildade, quando em 1519 terá proferido estas últimas palavras:

“Ofendi Deus e a humanidade porque o meu trabalho não alcançou a qualidade que deveria”.

Ludwig van Beethoven, o imortal compositor romântico, declarou solenemente, minutos antes da sua morte, em 1827:

“Amigos, aplaudam, a comédia terminou.”

A poetisa americana Emily Dickinson, observou poeticamente, antes de entregar a alma ao Criador, em 1886:

“Tenho de ir, pois a névoa está a subir.”

Oscar Wilde, ensaiando uma despedida digna de seu lendário talento para os ditos espirituosos, terá observado:

“O meu papel de parede e eu estamos a lutar num duelo até a morte. Um de nós tem de ir.”

Jane Austen, a renomada romancista britânica, expressou, nos seus últimos instantes, resignação e ansiedade pela paz final:

“Não quero nada além da morte.”

Gustav Mahler, enquanto conduzia no seu leito de morte uma imaginária orquestra, despediu-se desta existência com uma tirada minimal, que também podia ter saído do último respirar de Salieri:

“Mozart!”

Fernando pessoa foi adequadamente múltiplo e contraditório no momento da sua morte. A sua última manifestação oral, pouco antes de falecer a 30 de novembro de 1935, não podia ser mais prosaica, dirigindo-se à enfermeira do hospital onde estava internado nestes termos

“Dê-me os óculos!”

Porém, no dia anterior, escreveu em inglês a sua última frase, com um tom enigmático e quase esotérico, que não podia ser mais adequado ao seu intrincado cosmos intelectual:

“I know not what tomorrow will bring” (“Não sei o que o amanhã trará”).

As últimas palavras que George Orwell escreveu antes de morrer, em 1950 e apenas com 46 anos de idade, foram:

“Aos 50 anos, todos têm o rosto que merecem.”

Frida Kahlo, a pintora mexicana, expressou expectativas sobre o trânsito entre a morte e a vida que, para uma ateia, são deveras peculiares:

“Espero que a saída seja alegre e espero nunca retornar.”

Bing Crosby, talvez delirando, talvez num último exercício de humor, afirmou terminalmente:

“Foi uma grande partida de golf, companheiros!”

Frank Sinatra, escolheu aquilo que podia ter sido um verso de uma canção sua, afirmando estas derradeiras palavras:

“I’m losing it” (“estou perdido” ou “estou a perder a cabeça”).

Salvador Dalí, o surrealista espanhol, não saiu do seu contexto conceptual, ao inquirir, em 1989, no seu derradeiro leito:

“Onde está o meu relógio?”

Bob Marley, ícone do reggae, reflectiu durante o seu último fôlego:

“O dinheiro não compra vida”.

James Brown, o rei do soul, percebeu o fim, afirmando, em 2006, instantes antes de falecer:

“Vou-me embora esta noite.”

 

Maria Antonieta é Levada para o Cadafalso . William Hamilton . 1794

 

Profundos e irreverentes: filósofos e cientistas no fim do caminho.

As últimas palavras dos filósofos não escapam ao universo dos temas que lhes atormentaram o raciocínio, revelando reflexões sobre a morte, a vida e o conhecimento, ou até arriscando a ironia.

À beira da morte, Confúcio foi fiel à sua lendária capacidade de síntese, anunciando sem mais lamúrias:

“A hora da minha morte chegou.”

A Heráclito, filósofo pré-socrático grego, que morreu por volta de 475 a.C., são atribuídas palavras finais que perguntam pela mutabilidade dos elementos, coerente com sua filosofia do fluxo constante:

“Podeis transformar o tempo chuvoso em seco?” 

O episódio da morte de Arquimedes oscila entre a tragédia e a comédia, já que as suas últimas palavras foram provavelmente a causa do seu assassinato. Durante o Cerco de Siracusa (212 a.C.), o geómetra estava imerso no estudo de problemas matemáticos, traçando círculos e diagramas geométricos no chão, com um bastão. Na confusão da batalha que travava pela cidade, um legionário romano, ignorando a identidade do sábio, entrou na sua casa e invadiu o seu espaço de trabalho. Arquimedes, alheio aos perigos da guerra e focado na preservação dos seus cálculos, exclamou abruptmamente e gesticulando em fúria:

“Afasta-te, camarada, do meu diagrama!”

O soldado, assustado e irritado pela reacção do matemático (que gesticulava com um bastão na mão), tanto como ignorante do seu valor, trespassou-o de pronto com o seu gladio.

 

Morte de Arquimedes . Thomas Degeorge . 1815

 

De acordo com o historiador Cassius Dio, Marco Aurélio, o estoico que terá sido o único imperador filósofo da história do Ocidente, e que morreu em 180 d.C., terá proferido esta metáfora poética de aceitação da finitude:

“Vão para o sol nascente; eu já estou no poente.”

A derradeira anotação que o último dos antoninos escreveu no seu diário (mais tarde conhecido por “Meditações”), foi esta pacífica rendição:

“Vai então pelo teu caminho, com uma cara sorridente, sob o sorriso daquele que te deixa ir.”

Francis Bacon, o filósofo, cientista, ensaísta e poeta inglês, falecido em 1626, transformou o seu último fôlego numa oração devota:

“Bendito seja Deus, embora eu mude de lugar, não mudarei de companhia; pois caminhei com Deus enquanto vivi, e agora com Deus vou descansar.” 

Voltaire, o filósofo iluminista francês que morreu em 1778, terá afirmado, fiel ao seu impenitente cinismo, quando um padre o instou a renunciar ao diabo:

“Este não é momento para fazer novos inimigos.” 

Thomas Hobbes, autor de “Leviatã”, que morreu em 1679, exibiu cruamente o medo e a incerteza resultantes da visão materialista do mundo que preconizou em vida.

“Estou diante de um terrível salto nas trevas.”

Relatos contemporâneos descrevem que no seu estertor, David Hume, o filósofo empirista escocês que morreu em 1776,  gritou em desespero, e em sinal contrário do seu ateísmo:

“Estou em chamas!”

Karl Marx, fiel à sua epistemológica irreverência, recusou à posteridade qualquer máxima, afirmando no fatídico 14 de Março de 1883:

“As ultimas palavras são para os tolos que em vida não disseram o suficiente!”

Agonizante, Richard Feynman, o físico americano e Nobel de 1965, teve presença de espírito para ironizar:

“Odiaria morrer duas vezes. É tão chato”

Mas as mais célebres últimas palavras alguma vez atribuídas a um filósofo são aquelas que Platão colou na boca de Sócrates, no diálogo Fédon. Depois de beber a cicuta e sentindo já os seus efeitos fatais, o ‘moscardo’ de Atenas terá dito:

“Ó Críton, devemos um galo a Asclépio; paga a dívida, não te esqueças.”

Este apelo para que o seu discípulo saldasse uma dívida tem muitas leituras, a primeira das quais: Platão quis reforçar a intransigente integridade ética do mestre, que mesmo no momento da sua morte não se esquece de cumprir deveres agendados.

Depois, há uma ironia brutal, subjacente a este derradeiro apelo: Asclépio era o deus grego da medicina e da cura e o costume ateniense obrigava ao sacrifício de um galo no altar da divindade quando alguém ficava curado de uma doença. Ora, mesmo sabendo que não poderia ser salvo ou ‘curado’ da ingestão do veneno, Sócrates não quis deixar o Deus sem o seu devido tributo. Da mesma forma que, sabendo bem que iria ser condenado à morte se não mostrasse no seu julgamento comedido arrependimento, Sócrates recusou semelhante ignomínia, insistindo até na necessidade de uma sentença exemplar.

Por último, Jesus Cristo, que disse, do alto do pior suplício do império romano, onde foi colocado pelos fariseus e onde agonizou lentamente até à morte, estas redentoras e eternas e clementes palavras (Lucas 23:24):

“Perdoai-lhes, Senhor, que eles não sabem o que fazem.”