Ao fazer scroll no Instagram, deparei-me com uma publicação da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), assinada por Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde. O texto é um exemplar perfeito da captura ideológica da psicologia portuguesa pelo transactivismo. Pretendo desconstruí-lo ponto por ponto, baseando-me em evidência científica e não em dogmas afirmativos.
1. A falácia central: “A identidade de género não é doença, mas o estigma que é gerado em torno dela pode provocá-la”
Esta frase constitui uma inversão retórica brilhante e perigosa. Ao afirmar que a «incongruência de género» não é uma patologia, mas que o «estigma» (ou seja, qualquer questionamento da afirmação imediata) é que causa o sofrimento, a OPP patologiza a realidade biológica e a dissidência científica. Transforma críticos em agressores e a dúvida clínica em violência.
Na prática, isto significa que o psicólogo fica impedido de realizar uma terapia exploratória profunda — aquela que, historicamente, resolvia entre 70% a 90% dos casos de disforia em crianças pré-púberes. O profissional é compelido a afirmar a identidade declarada, sob pena de ser acusado de promover o «estigma». É o modelo de affirmative care [cuidados afirmativos] puro, importado do protocolo holandês dos anos 90 e canonizado pela WPATH (World Professional Association for Transgender Health). O problema? Estes mesmos protocolos foram rejeitados por revisões sistemáticas independentes e recentes. A Cass Review (Reino Unido, 2024) concluiu que a evidência relativa a bloqueadores da puberdade e hormonas cruzadas em menores é de qualidade muito baixa, sem prova clara de benefício na saúde mental ou na redução do suicídio, mas com riscos conhecidos: infertilidade, disfunção sexual, perda de densidade óssea e impacto cognitivo.
2. A incapacidade (ou recusa) de abandonar o protocolo holandês e as directrizes da WPATH
A OPP continua ancorada num modelo criado com base num único estudo holandês, pequeno e altamente seleccionado, que nem sequer é replicado na prática actual. As normas de cuidados da WPATH (SOC-8), que a OPP segue implicitamente, foram classificadas por revisões independentes como carecendo de rigor metodológico e transparência. A circularidade entre a WPATH e a Endocrine Society, a influência activista e a supressão de dados incómodos (como revelaram as fugas de informação dos ficheiros internos da WPATH) estão hoje documentadas.
Entretanto, os países que seguiram a evidência abandonaram o modelo afirmativo para menores:
• Reino Unido: (Cass Review) — proibição do uso rotineiro de bloqueadores no SNS (NHS).
• Suécia (2022): recomendou a psicoterapia exploratória como primeira linha; hormonas apenas em ensaios clínicos.
• Finlândia (2020): restrições semelhantes, priorizando a saúde mental comórbida.
• Noruega (2023-2024): alinhou-se com os vizinhos nórdicos, rejeitando o modelo afirmativo como padrão.
Portugal, através da OPP, finge que nada disto aconteceu, mantendo o dogma afirmativo mesmo quando a própria evidência colapsou.
3. O silenciamento do debate: “Espero que este debate termine rapidamente”
Esta é a parte mais reveladora. Pedir o fim do debate não é defender direitos; é autoritarismo científico. A explosão de referenciações de menores (principalmente raparigas adolescentes, após 2014, com elevadas comorbilidades de autismo, trauma, PHDA e atracção pelo mesmo sexo) não se explica por «menos estigma», mas por contágio social através das redes sociais e do grupo de pares.
Estudos demonstram que a maioria dos casos de disforia de início rápido (ROGD) se resolve com tempo e terapia exploratória — e não com medicalização irreversível. Dizer que “as pessoas não merecem isto” é manipulação psicológica pura. Quem não merece este tratamento são os menores medicalizados experimentalmente, com esterilidade garantida e um arrependimento crescente (aqueles que destransicionaram). São as mulheres que perdem espaços e competições desportivas. São os adolescentes que sentem atração por pessoas do mesmo sexo que estão a ser «transicionados» em vez de se deixarem crescer e, já adultos, viverem plenamente a sua sexualidade. Parece haver, inclusivamente, uma homofobia subjacente na forma como a OPP encaminha estas crianças para a mutilação de órgãos saudáveis, quando a verdade — assente na evidência frágil, nos riscos e na desistência natural de muitos casos — é o que realmente protege vidas.
4. A falácia moral: a inversão do risco
A OPP defende que questionar a afirmação causa mais vítimas do que os próprios tratamentos afirmativos. Contudo, os dados provam o contrário:
• Os tratamentos afirmativos não reduzem o risco de suicídio (Cass Review e revisões nórdicas).
• Criam pacientes crónicos, dependentes de hormonas, cirurgias e acompanhamento permanente — uma fonte de rendimento estável para o sector.
A própria OPP tem emitido pareceres contra projectos-lei que visam reintroduzir a mediação clínica e limitar a ideologia de género nas escolas, defendendo a autodeterminação inclusive para menores. Isto não é ciência; é lobby profissional.
Conclusão
A mentira afirmativa destrói corpos saudáveis em nome de uma ideologia que confunde desconforto puberal e influência social com uma suposta «identidade inata».
Este posicionamento da Ordem não é psicologia baseada na evidência; é activismo travestido de autoridade científica. As vidas destruídas não pertencem àqueles que «não merecem o debate», mas sim às crianças que a OPP ajuda a encaminhar para um percurso médico irreversível.
A verdade não é estigma; a ideologia é que custa vidas. Ao defender este dogma, a OPP não protege ninguém; limita-se a lucrar com ele.
MARIA HELENA COSTA
_______________
Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: Identidade de Género – Toda a Verdade (2019), #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023) e Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025).
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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