A narrativa dominante no espaço mediático ocidental apresenta a Ucrânia como bastião da democracia, vítima exemplar de uma agressão externa e candidata natural à integração europeia. Essa leitura, ainda que contenha elementos de verdade – a Rússia é inequivocamente a potência agressora –, esconde zonas de sombra que fragilizam a credibilidade do regime de Kiev e, por arrasto, a dos seus apoiantes europeus.

Os escândalos recentes de corrupção, em plena guerra, ilustram que a teia oligárquica e clientelar continua profundamente entranhada no Estado ucraniano. O país permanece, nos principais índices internacionais, entre os mais corruptos da Europa. As instituições anticorrupção existem e a sociedade civil é hoje mais combativa, mas isso não altera o facto essencial: a natureza patrimonial e informal do sistema político está longe de ter sido superada. Insistir em apresentar a Ucrânia como “modelo de Estado de direito” é mais propaganda que análise.

A isto soma‑se o episódio Nord Stream. As investigações de serviços ocidentais e de vários órgãos de comunicação social apontam, com crescente consistência, para o envolvimento de estruturas ucranianas na sabotagem do gasoduto, infraestrutura crítica de Estados da UE e da NATO. A recusa de Kiev em assumir ou esclarecer o sucedido fragiliza a confiança estratégica dos aliados e colide com a retórica ucraniana de defesa da “ordem internacional baseada em regras”. Não é fácil conciliar a exigência, justa, de responsabilização da Rússia por crimes de guerra com o silêncio sobre uma operação clandestina que afetou diretamente interesses europeus.

No plano militar e político, a recusa de Zelensky em admitir qualquer via negocial séria, quando a correlação de forças no terreno se lhe tornou claramente desfavorável, levanta uma questão moral inevitável. Se a vitória plena – incluindo a recuperação da Crimeia – é hoje, na melhor das hipóteses, altamente improvável, insistir numa retórica maximalista corre o risco de prolongar, sem benefício estratégico proporcional, o sofrimento do seu próprio povo. Uma liderança responsável deve saber quando o custo marginal de continuar a combater ultrapassa o que ainda é realisticamente alcançável. Persistir na lógica do “tudo ou nada” aproxima‑se perigosamente da irresponsabilidade política.

Finalmente, as perseguições e discriminações dirigidas, ao longo de anos, contra as minorias russófonas não se apagam por força de recentes alterações legislativas. A vontade declarada de adotar princípios basilares de direitos humanos – condição sine qua non para a adesão à União Europeia – é positiva, mas a prática no terreno continua longe de ser convincente. Muito do que foi feito resulta mais da pressão de Bruxelas do que de uma cultura interna consolidada de respeito pelas minorias. Enquanto persistirem dúvidas fundadas sobre o tratamento efetivo dos cidadãos russófonos, será difícil apresentar a Ucrânia como exemplo acabado de Estado de direito pluralista.

Nada disto absolve Moscovo da responsabilidade primeira pela guerra nem nega o direito da Ucrânia à autodefesa. Mas obriga a abandonar a linguagem hagiográfica e a encarar Kiev como aquilo que é: um Estado em guerra, com problemas estruturais graves – corrupção, défices de Estado de direito, tensões étnico‑linguísticas – que não desaparecem por decreto nem por decreto‑propaganda. A insistência europeia em mitificar a Ucrânia pode ser politicamente conveniente no curto prazo, mas terá, inevitavelmente, um custo de credibilidade a médio prazo, quando a distância entre o mito e a realidade se tornar demasiado evidente para ser ignorada.

 

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.