A intervenção armada de Israel e dos EUA contra o Irão, de 28 de fevereiro último, representou, na generalidade, um ponto de viragem e de introdução de novos paradigmas na política externa e na diplomacia das Monarquias do Golfo.
O confronto implicou desde logo a introdução de uma nova narrativa na condução e gestão dos seus assuntos internos.
A reação imediata do Irão de ataque e retaliação às estruturas militares dos EUA implantadas em território de alguns Estados do Golfo Pérsico cedo extravasaram essa lógica inicial para passarem a constituir ameaças graves e dramáticas, consumadas, às suas estruturas civis, aos seus ativos energéticos e com consequências substanciais no plano humanitário, económico e financeiro. Calculam-se aproximadamente em quase 400 biliões de dólares os prejuízos registados no Golfo. A atividade económica reduziu-se drasticamente calculando-se que mais de 5 milhões de postos de trabalho se perderam.
O encerramento do Estreito de Ormuz, a verdadeira e grande arma “atómica” do Irão, implicou sérios constrangimentos e prejuízos às economias do Golfo. Sabido que por ali transita 1/5 do petróleo do Mundo ou cerca de 20% da produção mundial, os hidrocarbonetos refinados, transformados e exportados pelos Estados regionais com maior expressão integram uma quota importante do fluxo de recursos energéticos. As ações militares iranianas visando as respetivas infraestruturas estratégicas abalaram profundamente as suas capacidades de produção e de exportação, o que aliado ao condicionamento de circulação marítima pelo Estreito desferiu golpes profundos nas economias dos Estados do CCG, as quais dependem quase exclusivamente do comércio de hidrocarbonetos.
Por exemplo, o Qatar, um dos principais produtores mundiais de Gás Natural Liquefeito (GNL), responsável por 20% do GNL consumido no Mundo, sofreu dois ataques retaliatórios nas suas refinarias e no principal campo de gás natural (Ras Lafant) bem como em South Pars, a maior reserva de GN conhecida e partilhada pelo Irão e Qatar (neste, conhecida por Norte Dome), o que implicou a dramática redução em 17% da sua capacidade de produção de gás natural. Segundo a Qatar Energy, serão necessários entre 5 a 7 anos para repor o status quo ante, não esquecendo que o Qatar é só por si responsável pela exportação de 25% de todo o GNL a nível mundial, sobretudo dirigido para o sudoeste asiático e sul da Ásia.
Ou seja, temos dois aspetos que poderão resumir a situação que foi prevalecendo ao longo de mais de mês e meio de conflito, numa perspetiva do Golfo Arábico:
– Economias profundamente dependentes dos hidrocarbonetos e os efeitos do encerramento do Estreito de Ormuz;
– Ativos estratégicos destruídos que tiveram impacto não no petróleo já produzido (mas que também não circula) mas na produção futura com efeitos devastadores nos mercados, cadeias de fornecimento, atividade económica mundial, estagnação das economias, inflação e ameaça de eventual estagflação.
Tais aspetos contribuíram para criação de uma “perfect storm” económica a nível mundial, realidade que corporizou a verdadeira globalização do conflito, que o Irão sempre teve como objetivo. O fenómeno vai mais além da original equação bélica e catapultou para a primeira linha do conflito e das atenções uma região que, tradicionalmente, tem permanecido relativamente afastada dos cenários de conflito no Médio-Oriente (compare-se por exemplo com a realidade do conflito israelo-árabe).
Os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo mantiveram uma atitude defensiva e de rejeição no envolvimento militar, procurando, na linha da boa tradição do Golfo, apelar para o não escalar da situação e para a procura de soluções de contenção e negociação.

Quais os grandes desafios que enfrentaram desde o início das hostilidades?
– A capacidade, resistência e resiliência para manter esta linha estratégica defensiva de ação (Arábia Saudita e EAU foram os únicos que deram sinais indiciadores de posições relativamente mais musculadas mas sem consequências práticas);
– Os meios ou instrumentos de que dispunham, no contexto de uma economia de guerra, para gerir e recuperar os danos e prejuízos sofridos e que tenderão a projetar-se no futuro com efeitos estratégicos negativos de inegável dimensão no turismo, na paralisia ou redução drástica da circulação aérea e nos sectores dos serviços, financeiro, da logística e da economia tecnológica e digital;
– O futuro das relações com o Irão, Israel e os EUA, uma vez alcançado um eventual acordo definitivo num quadro negocial que, numa abordagem prospetiva, levará tempo a alcançar e será difícil, com cedências de partes beligerantes extremadas e muito polarizadas;
– Força e determinação para afirmação do Conselho de Cooperação do Golfo como player com projeção internacional e para consolidar mecanismos estruturais de coordenação e unidade no seu seio;
As respostas ainda dependem de muitas variáveis exógenas e endógenas como os resultados de um débil processo de negociações iniciado a 10 de Abril, em Islamabad, ou das dinâmicas geradas após a sua suspensão. Assinale-se que o cessar fogo, fragilizado nos seus termos e modos, tem registado vários prolongamentos e sobrevivido sob pena “capital” de resvalar para um ponto sem retorno, no complexo e gravíssimo cenário dos bloqueios do Estreito de Ormuz.

Riscos políticos para os Estados do Golfo.
O Golfo Pérsico é um epicentro estratégico no Médio-Oriente. Pelo que ficou dito, mas também porque se situa numa geografia de convergência ou confluência económica e geopolítica, a um tempo favorável (recursos energéticos) e de risco (acentuadas dependências económicas e de recursos naturais bem como de alianças e parcerias sobretudo viradas para Ocidente – EUA, Grã-Bretanha mas também França e Alemanha e outros Estados da União Europeia).
Agreguem-se demografias pouco expressivas, exiguidade territorial (exceção feita relativamente à Arábia Saudita – cerca de 36 milhões de habitantes, 90% concentrados nos principais centros urbanos – o que contrasta, por exemplo, com os 3 milhões do Qatar, dos quais cerca de 2 milhões são expatriados) e ainda as dependências de um número esmagador de mão de obra estrangeira e da importação de bens alimentares e de consumo.
Todos estes factores foram revelados de forma dramática pelo Conflito contribuindo para um grau elevadíssimo de exposição do Golfo Arábico às tensões regionais, por vezes a tentações de protagonismos de alguns Estados (como o Qatar) em quadros mais controversos e menos pacíficos de entendimento ou perceção regionais e às ameaças/pressões colocadas pelo Irão e por Israel.

Os principais riscos geopolíticos não são de hoje.
O “envolvimento forçado” dos Estados do Golfo no conflito jamais poderia ser visto como uma espécie de “starting point”.
A geografia, as alianças e parcerias com o Ocidente e a evolução das dinâmicas internas da República Islâmica do Irão foram vetores que progressivamente foram moldando e desenhando a região, sobretudo desde a Revolução islâmica de 1979, a qual deixou um “legado” ideológico e religioso, fomentou “medos existenciais”, concorrência de interesses geopolíticos e hegemónicos e acelerou a configuração de uma ordem regional e de um sistema equilíbrio de poderes no Golfo baseada em garantias externas de segurança.
Em particular, o temor da “exportação” da doutrina revolucionária xiita pelo Golfo e a instrumentalização das minorias xiitas nos territórios das Monarquias sunitas como armas de proselitismo religioso radical aliado ao fenómeno da ação dos denominados “eixos de resistência” (Hezbollah e Houtis) que empurraram Estados vizinhos para frentes de conflitualidade e de ameaça à estabilidade regional (Líbano, Iémen, Iraque – milícias pró-iranianas) têm sido elementos de risco nas opções políticas e diplomáticas das Monarquias do Golfo, os quais encontraram no contexto imersivo do conflito, terreno favorável de eclosão com expressão que se desconhecia (eventualmente, adivinhava-se) anteriormente.

Dilemas e opções estratégicas das monarquias do golfo face ao conflito.
Nesta ordem de considerações importa afirmar o dilema fundamental:
– A opção “defensiva” e a hipotética entrada no cenário bélico. O eixo estratégico nos domínios militar e de segurança com os EUA esteve sempre presente. A escolha pela opção “ofensiva” ou de defesa como resposta aos ataques iranianos (os Governos do Golfo sempre mencionaram os “ataques de Teerão”, rejeitando-os e condenando-os, mas nunca se referiram à iniciativa militar de Israel e EUA contra o Irão) encerrava o risco de um “alinhamento” com Israel o que não deixaria de incorporar custos internos elevados. A verdade insofismável e incontornável era esta: a opção pela escalada do conflito teria a inevitável leitura de estar do lado de Israel.
Ora, apesar do Bahrein, dos EAU (os primeiros) e da Arábia Saudita terem participado favoravelmente na iniciativa de normalização de relações com Israel incorporada nos conhecidos Acordos de Abrãao (que o Qatar rejeitou liminarmente), verdade é que as hostilidades entre o Hamas e Israel iniciadas a 7 de Outubro de 2023 tiveram o efeito de arrefecer, se não mesmo de congelar, as dinâmicas regionais do fim do primeiro mandato de Trump. Foram sérias as consequências da desproporcionalidade da retaliação de Israel na Faixa de Gaza nas opiniões publicas árabes e nada fácil a tarefa das elites oficiais sunitas do Golfo, que enfrentaram descrédito e custos políticos internos pesados.
Dilema ainda porque os Estados do Golfo “sofreram” o peso e os grilhões dos “eixos ocidentais”. Ou seja, identificados pelo Irão quer com os EUA (as principais bases militares norte americanas no Médio-Oriente situam-se no Golfo), quer com a participação na lógica dos Acordos de Abrãao, quer com modelos e estilos e padrões de vida “ocidentais” que o Irão naturalmente repudia e verbera (insista-se e recorde-se que os EAU foram os primeiros a sofrer ataques iranianos, e não por acaso), as autoridades sunitas encontraram-se, igualmente, pela ordem de razões enunciadas, tolhidas e limitadas na sua liberdade de escolhas e decisões estratégicas e, por consequência, sujeitos às medidas retaliatórias de Teerão que, por via indireta, visaram atingir os interesses estratégicos do Ocidente. No léxico de think thanks e analistas norte-americanos o Golfo Arábico chega mesmo a ser referido como um “western lake”…
Nesta intrincada e dramática teia de interesses cruzados, as Monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) enfrentaram durante mais de mês e meio outras, não menores, circunstâncias limitadoras de ação e decisão:
– Os eixos das suas políticas externas regem-se pelo interesse de melhor gerir vulnerabilidades de segurança e económicas; assegurar garantias externas de segurança e ao mesmo tempo manter autonomia e espaço de manobra político traduz-se numa dualidade difícil mas que foi possível gerir até a eclosão do presente conflito, através de uma diplomacia multidirecional e flexível, na aposta ainda que meramente formal no multilateralismo, na defesa de causas humanitárias (o que cai sempre bem), na aposta no papel de facilitação e moderação em situações controvertidas (o Qatar é disso bom exemplo, se atentarmos ao papel que procurou desempenhar nos contactos entre Israel/Hamas, EUA/houtis ou mesmo no Sudão) e na diversificação de geografias alvo (Ásia, Africa Ocidental e América do Sul), de alianças e na exploração de domínios de cooperação alternativos. O caso do Qatar será eloquente neste contexto, pois em 2022 tinha em marcha uma declarada abordagem diplomática à África Ocidental que coincidia, em paralelo, com a aproximação ao mundo lusófono e com a exibição do Estatuto de Observador associado ao CPLP;
– Internamente, a “”Saudia Arabia Vision 2030” e a “Qatar Vision 2030” (esta, em especial, virada para a afirmação do Qatar como hub turístico e do desporto mundial) assentam no pressuposto de um Golfo seguro, estável, alinhado e integrado na economia global;
– O conflito com o Irão veio ameaçar aqueles fundamentos estratégicos e, potencialmente, colocar em causa a sua execução, o que nos conduz de imediato aos apelos constantes que ouvimos das Monarquias regionais à diplomacia e à negociação/intermediação/mediação. Contudo, nunca manifestaram disponibilidade no envolvimento em qualquer exercício de negociações, (sucessivamente anunciadas e adiadas), sobretudo pela falta de confiança na “diplomacia de negociação” dos EUA, até tendo em conta as experiências do passado (abandono unilateral do JCPOA -Joint Comprehensive Plain of Action – em 2017; implosão dos processos de Junho de 2025 e de Fevereiro de 2026, este último, recorde-se, que decorria em Muscate sob os auspícios do Omã). Para os Estados do CCG foi-se cristalizando e sedimentando o entendimento de que “negociação”, para Washington, acabou sempre em “guerra” o que gerou frustração e igualmente temor que pudessem vir a ser usados “como peões no xadrez regional EUA/Israel”, socorrendo-nos da leitura de Bader Al Saif, Professor da Universidade do Kuwait e participante ativo das Conferências de Chatham House, partilhada de resto por muitos outros analistas e cultores da problemática do Médio Oriente;
– No momento atual, dominado pelas dúvidas relativas à continuidade do processo das “Islamabad Talks” e pelas incertezas de uma conjuntura dominada pelo controlo estratégico do acesso a portos regionais, de retaliações e da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, os Estados do Golfo terão inevitavelmente sempre de prever e decidir:
1. Sobre o futuro das suas relações com os principais players e stakeholders (Irão, Israel) regionais tendo em conta inevitáveis e previsíveis alinhamentos e acomodações geopolíticas, disputas de hegemonias e a defesa dos seus interesses estratégicos independentemente de resultados do processo de Islamabad ou de outros (?); seria desejável, no entendimento de diversos think tanks e fontes de analistas internacionais que equacionassem e desenvolvessem quadros de negociação direta com o Irão, libertando-se de tutelas alheias e autonomizando-se de iniciativas terceiras inconsequentes.
Neste contexto:
(i) pesará o facto da retoma de uma fasquia mínima de confiança com o Irão será de longo prazo porque Teerão continuará a projetar a sombra do seu poder, quer diretamente, quer através de potenciais intervenções disruptivas nas infraestruturas estratégicas do Golfo (a ameaça e o risco estão lá);
(ii) a crescente postura assertiva e agressiva de Israel que com os ataques de 28 de Fevereiro agregou e acumulou acrescidos patamares regionais de incerteza geopolítica;
2. Sobre o relacionamento com os EUA, avaliar se na verdade devem ou podem continuar a confiar em Washington como garante da segurança regional ou se devem encetar uma fase inovadora de concertação e aprofundamento de interação e cooperação em matéria de segurança e defesa avançando em matéria de reforço de mecanismos internos, privilegiando interesses comuns e minimizando efeitos de rivalidades e disputas familiares, de hierarquia e prestígio, fenómeno que tem caracterizado e de certa forma desacreditado o quadro inter-regional.
Em suma, suceda o que suceder, na opinião de cientistas políticos norte-americanos, nomeadamente do “Middle East Institute”, os Estados do Golfo “permanecem na linha da frente. O Irão está logo do outro lado do Estreito de Ormuz e nalguns casos as respetivas capitais encontram-se a menos de 160 km do Irão”. Portanto – concluem – “deverão tomar decisões concretas de salvaguarda e defesa dos seus interesses e prioridades estratégicas e de autonomia no quadro geopolítico regional”.

O Processo de Islamabad
1 – O Paquistão surgiu como honest broker com vista a acolher negociações diretas presenciais (novidade) entre EUA e Irão, mas com base em desconfianças mútuas e premissas frágeis e duvidosas;
2 – O plano de 10 pontos submetido pelo Irão e aceite “como base” de negociação pelos EUA teria sido reação à proposta prévia americana cujos contornos nunca foram conhecidos, mas que se adivinharam;
3 – A aceitação de Washington foi lida em plurais quadrantes de análise como um recuo, se não mesmo como derrota estrutural e estratégica americana, ao conter pontos claramente inegociáveis e inaceitáveis;
4 – Há contudo que sublinhar que os americanos aceitaram os dez pontos iranianos “como ponto de partida” das negociações e levaram o Irão a sentar-se à mesa das negociações; no plano diplomático encerram propostas e contrapropostas, avanços e cedências das partes; e conclusões extemporâneas, dir-se-iam despiciendas. A imparcialidade na análise não se pode confundir com o compromisso das partes diretamente envolvidas na defesa dos seus interesses; facto é que, ainda que se possam evocar razões de ordem interna dos EUA, estes teriam partido para Islamabad “numa posição de enfraquecimento estratégico”;
5 – As fragilidades supra apontadas revelaram-se e foram sendo escalpelizadas sem recurso a exercícios especulativos; desde logo porque os americanos salvaguardaram-se desde o início com o entendimento que iriam “discutir um documento de base”; guardando assim espaço de manobra negocial;
6 – Ambiguidades também, e por outro lado, nos objetivos! Para Trump, a prioridade começou por ser posta na abertura sem condições do Estreito de Ormuz e a reposição da liberdade de navegação em águas internacionais, e na recusa liminar da aplicação de taxas de circulação pelo Irão (que disse depois que as dividiria com o Omã e que serviriam para ressarcimento dos prejuízos resultantes dos ataques sofridos no decurso da fase aguda e operacional do conflito!!); como era previsível, o objetivo prioritário voltou-se depois para a questão nuclear e para a exigência que o Irão declarasse sem qualquer margem de dúvida que abdicava do enriquecimento de urânio e da bomba atómica (a fazer recordar outras negociações…); portanto, para já, táticas variáveis, resultados imprevisíveis;
7 – Fragilidades relativas ao entendimento divergente acerca da inclusão da cessação dos ataques de Israel ao Líbano quando não havia razão para hesitações; era ponto claro e inequívoco da lista iraniana; a atitude de distância de Israel da lógica e filosofia de Islamabad traduziu-se na sugestão de iniciar negociações com o Governo do Líbano mas com exclusão do Hezbollah e de prosseguir os ataques contra Beirute e outras cidades libanesas; as negociações têm decorrido em Washington ao nível de Embaixadores; que se veja, à data, inflamou a revolta do “proxy” iraniano e “desagradou” obviamente as chefias Houtis (“quem se senta à mesa com sionistas é também sionista” – citam-se as chefias do Hezbollah quando solicitaram ao Governo do Líbano que não aceitassem falar com homólogos israelitas);
8 – As tensões entre Trump e Netanyahu cresceram e tornaram-se evidentes; ambos acusam indesmentível desgaste, quer internacional quer doméstico, com opiniões públicas divididas entre o apoio e a rejeição de cenários bélicos; sucedem-se as opiniões e análises coincidentes de que a guerra iniciada a 28 de Fevereiro não era uma guerra dos EUA mas sim de Israel que com o Irão mantém perene e dramática disputa existencial; para Trump as midterm elections constituem um teste fulcral para a segunda metade do mandato presidencial não sendo de excluir um potencial processo de impeachment; Netanyahu corre o risco de enfrentar processos políticos e judiciais (internos) que determinarão o fim da sua vida pública e mesmo a prisão. Para Trump o conflito era desnecessário. Para o líder israelita será inevitáve. Para o primeiro é determinante ou sair da guerra com um resultado palpável ou escalar o conflito na procura desse resultado; para o segundo, a continuação do conflito representa a sua sobrevivência ou seja, enquanto existirem frentes de combate, existirá Netanyahu.

Consequências imediatas e leituras possíveis.
O Médio-Oriente retoma a sua face mais preocupante: conflitos intermitentes, mas sem fim, fruto da complexidade geopolítica regional. Hoje, em concreto, os reflexos negativos a longo prazo na economia global, na segurança energética, na estabilidade dos mercados, no respeito do normativo internacional e na manutenção (ou não) da atual ordem financeira centrada no dólar e no futuro da geopolítica da energia e do sistema financeiro internacional.
É verdade que os EUA deixaram o sinal de um “método de entendimento”, o que no entender de vários analistas significaria uma “janela de abertura” para a continuidade das conversações. Também é verdade que ninguém esperaria soluções numa primeira ronda que durou 21 horas, sobretudo face ao que separa os beligerantes.
Haverá contudo que perscrutar e considerar os sinais e os cenários possíveis sem ceder à tentação de exercícios especulativos:
1 – Subsistem de facto condições objetivas para novas rondas de negociações e estarão os players realmente interessados em conversar?
2 – Onde poderiam ter lugar? Regressar ao Paquistão? Quem poderia assumir o papel de um novo honest broker?
3 – Assistimos a um intervalo para repensar estratégias, “contar espingardas”, amenizar efeitos de erosão das opiniões publicas internas (sobretudo pelo lado dos EUA, não do Irão) ou retomar a lógica da escalada de um conflito “adormecido”?
4 – A intempestiva decisão de Trump de um bloqueio naval unilateral do Estreito de Ormuz e dos portos iranianos, apoiada por Israel, e as reações de Teerão de condenação da medida como pirataria, e a ameaça lançada sobre os portos do Golfo e do Mar Arábico (“se a segurança dos portos da República Islâmica estiver ameaçada nenhum porto do Golfo e do Mar Arábico estará seguro”) indicia a eventual propensão para uma multiplicidade de situações, entre instabilidade crónica, escalada “económica” com um potencial de resvalar para militar e a evidente afirmação do real poder regional do Irão.
5 – O que esperar dos Estados do Golfo? Permito-me citar a este propósito um estudioso iraniano:
“They would never let again be able to be staging ground on an offensive scenario (…) At this point, for Gulf States, US operations in their territories are a red line. If that stops tensions, the situation could eventually de-escalate…If it doesn’t…expect escalation”.
Embora vinda de quem vem, contribuirá para uma avaliação do estado de degradação e desconfiança no plano do relacionamento entre EUA e os seus aliados no Golfo Arábico, indiciadora de uma expectável reconfiguração geopolítica da região.
A apreciação final (condicionada, no tempo, às incertezas, impasses e volatilidade do xadrez regional):
– Washington “estrategicamente diminuído” (eventualmente perdedor e dependente do que lograr taticamente no terreno, em simultâneo com o que venha, e quando, a alcançar em sede de negociações);
– Um Irão que permanece, resistente e resiliente;
– Uma China ganhadora;
– Uma Federação Russa prudente, mas também a capitalizar vantagens óbvias;
– Uma Europa enfraquecida, órfã de liderança, dividida e em busca de um papel interveniente no Estreito de Ormuz, pós-conflito.
E uma última citação, esta de Maquiavel:
“Wars begin when you will, but they do not end when you please.”.
ANTÓNIO ALVES DE CARVALHO
____________
Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa; Diplomado do I Curso de Funcionários Internacionais, vertente de Estudos Europeus, pela Universidade Técnica de Lisboa. Diplomata. Foi Diretor de Serviços da América do Sul e Central e Coordenador do Gabinete de Apoio ao Investimento da Diáspora no MNE. Chefe de Missão no Uruguai, Embaixador na Guiné-Bissau e no Qatar.
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