Segundo a agência Lusa:

“Montenegro defende diálogo com Rússia e concorda com participação de Putin no G20.”

O primeiro-ministro referiu a este respeito e na sequência da posição de Donald Trump:

“É preciso estabelecer diálogo com a Rússia para resolver os conflitos em que a Rússia está envolvida. Portanto, desse ponto de vista, como observador externo – Portugal, que não faz parte do G20 -, eu não tenho nenhum problema em vislumbrar aspetos positivos nessa inclusão.”

Não se trata de uma posição isolada. Há mais quem partilhe desta opinião que se está a disseminar consistentemente na Europa a vários níveis.

Com efeito, após dois anos de narrativa moralizante sobre a Rússia — “Estado pária”, “regime criminoso”, “ruptura histórica” — começam a ouvir‑se, vindas das mesmas capitais europeias, vozes a defender “reaberturas de canais”, “diálogo com Moscovo” e até a participação de Vladimir Putin em fóruns como o G20. Como poderá o eleitorado compreender esta reviravolta?

A resposta é desconfortável, mas simples: pelas mesmas razões que hoje levam os responsáveis políticos da União Europeia a reabilitar, ainda que discretamente, a Rússia. A escassez relativa de recursos energéticos baratos e fiáveis tornou‑se evidente. Substituir o gás e o petróleo russos revelou‑se caro, tecnicamente complexo e politicamente tóxico. Os decisores já o perceberam; em breve, também os eleitores o sentirão na fatura energética, na competitividade industrial e no emprego.

O problema não é a existência de interesses – toda a política internacional é um equilíbrio instável entre valores proclamados e necessidades materiais. O que verdadeiramente impressiona, neste caso, é a ausência de qualquer horizonte ético minimamente coerente, bem como de uma estratégia consistente, ainda que de médio prazo. Demonizou‑se Moscovo em termos quase teológicos para mobilizar as opiniões públicas; agora, começa a preparar‑se, sem explicação séria, o regresso à “normalidade pragmática”, quando os custos económicos se tornam insustentáveis.

Esta oscilação entre moralismo inflamado e realpolitik envergonhada corrói a confiança dos cidadãos. Não lhes foi dito, com clareza, que a Rússia não desaparece do mapa, que a segurança europeia terá de a incluir de algum modo e que a autonomia energética exige décadas, não slogans. O resultado é um ziguezague que expõe a mediocridade estratégica de boa parte das lideranças ocidentais, presas ao ciclo curto das sondagens e à espuma mediática.

Dizer que o nível das lideranças chegou ao seu ponto mais baixo pode parecer exagero retórico. Infelizmente, olhando para a forma como se passou da demonização absoluta ao pragmatismo envergonhado, é prudente não excluir a possibilidade de descer ainda mais.

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.