A marca deixada pela transição das antigas províncias ultramarinas para a esfera de influência soviética e norte-americana.
A celebração do 25 de Abril de 1974 reside numa encruzilhada de memórias, interesses políticos e identidades culturais. Longe de ser um evento monolítico, a comemoração da Revolução dos Cravos continua a ser um campo de batalha simbólico onde se confrontam, por um lado, a aspiração a uma festa de afirmação nacional e, por outro, a instrumentalização do evento para fins partidários imediatos. Uma análise da gênese e do estado atual das comemorações, suportada por dados históricos objetivos, permite evidenciar as virtudes e as contradições inerentes à forma como Portugal celebra a sua democracia. O 25 de Abril situa-se numa zona de tensão permanente entre celebração nacional, memória traumática e instrumentalização ideológica. O busílis da questão estará na expressão equilibrada dessa tensão para o desenvolvimento de uma sociedade mais lúcida sem apropriações de esquerda ou de direita.
O 25 de Abril proporcionou a Portugal a conquista da liberdade democrática, mas os padrões de festejo atuais demonstram uma rutura perigosa: a diferença no tratamento do evento entre as forças de esquerda e as de direita.
Esta dicotomia evidencia que Abril deixou de ser um contrato social assente na palavra liberdade, transformando-se num trunfo ideológico mobilizado de forma assimétrica. A esquerda, sentindo-se detentora da memória revolucionária socialista, promove uma festa de rua que reforça a sua narrativa fundadora; parte da direita, por seu turno, tende a reduzir a data ao formalismo, como forma de sublimar o incómodo histórico de uma revolução que a desalojou do poder e a obrigou a adaptar-se ao novo regime.
Os apelos do Presidente da República para que as evocações desta data sejam “mais doação do que proclamação” e “mais futuro do que passado” são um sintoma de cansaço relativamente à liturgia repetitiva que domina a Assembleia da República. A festa, nestes moldes, serve mais os partidos que a nação, pois perpetua uma divisão ideológica que impede o alargamento da celebração a toda a sociedade portuguesa…
A fragilidade da narrativa oficial do 25 de Abril reside na sua tendência para silenciar as memórias dissonantes. A aclamação da liberdade referenciada a um Abril só florido, se não for contextualizada, corre o risco de ser mal contada e de diluir os erros e a dor daqueles que foram vítimas da transição. A análise demográfica e sociológica revela que, entre 1974 e 1976, Portugal recebeu cerca de 500 a 700 mil cidadãos portugueses vindos das ex-colónias africanas durante o turbulento Processo Revolucionário em Curso (PREC).
A integração destas pessoas, bem como a dos militares que combateram no Ultramar, foi marcada por fricção identitária e por uma não integração do retorno na memória coletiva nacional.
Neste sentido, uma celebração da liberdade que apenas exalta a queda do regime, mas omite erros e o drama dos soldados e dos civis desalojados pela descolonização é uma celebração truncada. A liberdade genuína exige que se reconheça o custo humano do império e da sua brusca dissolução ao serviço de uma ideologia extrema que influenciou o equilíbrio geopolítico a favor das duas potências mundiais da altura.
A análise crítica negativa centra-se aqui na natureza diletante e apressada da descolonização portuguesa. A historiografia atual confirma que o processo de descolonização não foi apenas um acto de justiça ou de cumprimento da Carta da ONU, mas sobretudo um tabuleiro de xadrez da Guerra Fria.
A realidade geopolítica é que as antigas colónias (Angola e Moçambique) foram atiradas para guerras civis devastadoras que duraram décadas, nas quais a União Soviética e os Estados Unidos intervieram para apoiar movimentos satélites, em detrimento dos interesses das populações locais, dos portugueses que ali residiam e em prejuízo dos interesses de Portugal e de independências sem hegemonias partidárias. A independência das colónias não trouxe a paz imediata; pelo contrário, o fim do império em 1975 gerou uma redefinição forçada das fronteiras e da identidade da nação, sem que houvesse um plano estruturado para mitigar os efeitos sociais e económicos.
Contudo, uma análise positiva, partindo do mesmo facto, destaca a resiliência do país. A despeito da geringonça ideológica do PREC, o pequeno Portugal conseguiu integrar meio milhão de cidadãos, remodelando a sua estrutura social, educativa e empresarial com os quadros qualificados que chegaram de África. O caos da descolonização gerou o mérito excecional da reintegração.
A resolução que evitaria o confronto narrativo seria a transição para uma festa da vida, das regiões e da liberdade criativa. Uma celebração mais inclusiva poderia enfatizar dimensões culturais, regionais e humanas em vez de privilegiar a interpretação política dominante. A liberdade, afinal, não é monopólio de uma ideologia; é um valor plural, vivido de formas distintas por diferentes cidadãos.
É confortável observar-se que em diversas escolas há uma movimentação de associações, escolas, coletividades e grupos culturais que exploram Abril como celebração da vida, utilizando o teatro, a música e a literatura como veículos de coesão social, para além da dialética esquerda-direita.
O 25 de Abril não pode ser, nem deve ser, território exclusivo de uma ideologia que dê a impressão que a identidade portuguesa se reduz à liberdade de Abril. Reduzir a festa a um desfile de partidos seria perpetuar as feridas do PREC e esquecer a nação e os retornados.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
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