Passar do espartilho da figura para a eficácia do serviço ao povo.
O que outrora foi ponta de lança das civilizações, do método científico ao Estado de direito, da Revolução Industrial à integração pós-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, tropeçando até nas suas próprias instituições.
O problema não é de conteúdos… A questão está na linguagem e na forma de os tornar operativos.
Criticámos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com razão, especialmente no que toca ao controlo comunista, à ausência de um cidadão soberano no sentido ocidental e à repressão sistemática de liberdades fundamentais. Essa crítica sobranceira impediu-nos de ver o óbvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ciência e da técnica, sobretudo nas tecnologias limpas.
O caso do automóvel eléctrico é exemplar.
As pessoas – e isto é um facto empírico, não um juízo moral -, querem comer e viver bem. Não olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades primárias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria…
A Europa sempre prezou os seus valores humanistas e o seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as populações como hoje; fá-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democrática. Onde a China usa um partido único e uma arquitectura explícita de vigilância, a Europa usa regulamentação assimétrica, algoritmos de pontuação social disfarçados de “análise de risco”, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correcção política que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.
A diferença não é de essência, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a nível de controlo e influência da consciência social. A diferença é que o faz de maneira velada e hipócrita, de maneira a que a maioria das populações não se dê conta, porque as suas necessidades primárias encontram satisfação.
Há uma verdade incómoda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a nível de empreendimentos são as grandes empresas. O Estado e os seus governantes não estão interessados em preços baixos para o povo, porque quanto mais caros são os produtos, mais o Estado ganha à custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribuições sociais embutidas nos preços).
Enquanto a Europa impõe tarifas “anti-dumping” ou regulações ambientais que funcionam como barreiras não pautais, está na realidade a proteger não o trabalhador, mas a ineficiência instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado.
Uma tese final torna-se simples e incómoda para ambos os lados: a China tem muito que aprender com a Europa em matéria de soberania do cidadão, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito que aprender com a China em matéria de eficácia executiva, de visão industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da população.
O dogma ocidental de que a democracia liberal é condição sine qua non para o desenvolvimento tecnológico está factualmente errado porque a China desmentiu-o. O dogma chinês de que o controlo partidário é compatível com a inovação sustentada a longo prazo também enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de cérebros…
Qualquer sistema que se meça apenas pela pureza dos seus princípios, e não pelos seus efeitos, está condenado à irrelevância ou à hipocrisia.
E aprender, para uma civilização que se quer humanista, é o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a bússola da mão.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
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