Onde a Água chama pelo Calor e o Homem suspira pelo Amor
Não é nas abóbadas de pedra que o Infinito se deixa tocar. A abóbada é um obra cultural natural, uma expressão da comunidade que tenta guardar o fogo em ânforas de barro e isso é bom, porque o ser humano precisa de ritos como a videira precisa de latada. Mas o templo sem muro é o coração quando desarma as suas defesas e permite que a ferida sangre e respire na realidade do nós. Nesse lugar, Deus não é um conceito nem uma causa eficiente; é o próprio acto de ser amado e de amar, numa dança que confunde as estações: Pai, Mãe, Filho, são três respirações de um só pulmão (1).
A razão cartesiana quer dissecar o mistério como se ele fosse um relógio. Mas o reino não é um mecanismo; é uma semente que só germina no solo da vivência. Jesus não se equaciona numa tabela histórica porque ele é o instante em que o tempo se curva para beijar a eternidade. Quem o reduz a um dado arqueológico perde a sua sede. E quem o transforma em bandeira de partido ou em trincheira militar confunde o rosto com a máscara.
Olhemos para a água: ela aceita ser gelo para sustentar o inverno; aceita ser rio para servir a planície; aceita ser vapor para vestir o céu. A água, em cada mudança, continua a ser H₂O, uma essência que se disfarça de três corpos. O calor que desencadeia essa metamorfose não é uma temperatura; é uma metáfora do amor que desaba sobre o sólido do medo, o dissolve em lágrimas de compaixão e depois o eleva a uma leveza que tudo perdoa.
Assim é o percurso espiritual; ele passa do dogma à dúvida, da dúvida à confiança, da confiança ao abandono nos braços que nunca julgam. Os templos exteriores, os gestos litúrgicos, as instituições são as margens que protegem o rio de se perder no deserto. Porém, o rio não é as margens e quando a enchente chega, é o coração que transborda, não as pedras.
Por isso, não temamos o paradoxo: Deus é Pai-Mãe-Filho, a água é sólido-líquido-gás, o amor é lei e transgressão. Resta-nos viver e compreender, analisar para ficarmos com o invólucro vazio. O que serve, no fim, é a sede que nos fez procurar e a fonte que sempre esteve dentro de nós, batendo como um segundo coração (2).
ANTÓNIO JUSTO
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(1) A mística medieval refere frequentemente: “Deus está mais perto de nós do que a nossa própria alma, pois Ele é o próprio fôlego que a sustenta”.
(2) Santo Agostinho no seu livro Confissões resume: “… o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”. Isto corresponde à expressão da alma que busca a sua origem e fim. A frase sintetiza a condição humana à luz da fé.
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
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