Há épocas em que a humanidade avança e há outras em que, com grande convicção científica, troca os mapas pelo GPS e depois culpa o satélite quando acaba no meio da floresta.
Vivemos, como se vê, num tempo de desconstrução. Desconstrói-se o pai, a mãe, a autoridade, a ética, o sentido e, se sobrar tempo, reconstrói-se tudo com instruções do tipo IKEA emocional: peça A (identidade), encaixar na peça B (função), ignorar parafusos (afeto). No final, falta sempre uma peça. Curiosamente, é sempre a que sustentava a mesa.
Eu proponho, com a devida modéstia e alguma irresponsabilidade científica, um conceito mais moderno: a matriz antropoginelógica. Não é doença, ainda não tem código internacional, e provavelmente não será financiada por nenhum ministério. Mas soa suficientemente complexa para ninguém a contestar de imediato.
A ideia é simples: o ser humano não é um manual técnico, nem um algoritmo com mau humor. É um ser dialógico e, como tal, é conflito em potência e dança entre aquilo que quer e aquilo que pode. Afirma-se entre o impulso e o limite, entre o “eu quero agora” e o “talvez não seja boa ideia”.
Tradicionalmente, e aqui entra a parte em que metade dos leitores começa a tossir, chamámos a isso masculinidade e feminilidade. Não como caricaturas biológicas, mas como funções simbólicas: estrutura e relação, limite e acolhimento, forma e conteúdo. Como café e chá. Ambos líquidos, ambos quentes, mas experimente trocar um pelo outro às sete da manhã e verá o que acontece à civilização.
Mas hoje preferimos outra abordagem: a funcional. Tudo é função. Tudo é papel. Tudo é substituível. O pai? Uma função. A mãe? Outra função. A criança? Um projeto em curso. E o ser humano? Um PowerPoint mal formatado.
O problema é que, quando tudo é função, ninguém assume responsabilidade. Porque função não sente culpa. Função não ama. Função não sofre. Função executa. E quando a função falha… abre-se um novo grupo de trabalho.
A isto junta-se a política do pensamento correto, que é correto sobretudo porque não admite discussão. E então, para evitar conflitos, eliminam-se símbolos. O pai torna-se suspeito. A mãe, um conceito em revisão. A autoridade, um abuso em potencial. E o resultado? Uma sociedade profundamente educada… e estranhamente ansiosa.
E isto porque o ser humano precisa de conflito simbólico para crescer. Precisa de uma figura que diga “não” sem pedir desculpa por existir. Precisa de outra que diga “sim” sem exigir um relatório de produtividade emocional. Precisa de tensão para gerar consciência.
Sem isso, o que surge não é liberdade, é desorientação com autoestima.
E então aparecem os novos arquétipos: não o pai autoritário, nem a mãe protetora, mas o algoritmo compreensivo que até se pode revelar como o melhor psicólogo. Este nunca julga, nunca exige, nunca contradiz. Apenas sugere. E aprende consigo, o que é uma forma elegante de dizer que o substitui lentamente.
Estamos a criar, com grande entusiasmo progressista, um superego que não proíbe… mas vigia, que não orienta… mas classifica, que não educa… mas recomenda conteúdos semelhantes.
E no meio disto tudo, surge uma nova figura sociológica fascinante: o homem soft. Não é masculino nem feminino, é editável e adaptável. É um ser que evita conflito como quem evita glúten. Que prefere não ter opinião para não correr o risco de ter de defendê-la.
Mas atenção: isto não é emancipação; é desorientação bem vestida.
Porque a verdadeira emancipação não elimina tensões, integra-as. Não destrói símbolos, transforma-os. Não ridiculariza o que veio antes, compreende-o e acrescenta-o.
A masculinidade, no seu melhor, não é dominação; é estrutura. A feminilidade, no seu melhor, não é submissão; é relação. E entre ambas nasce algo raro hoje em dia e que se chamaria consciência com coluna vertebral.
Sem isso, temos uma sociedade muito sensível… mas incapaz de decidir; muito inclusiva… mas sem critérios e muito livre… mas sem direção.
E talvez, no fim, o mais irónico seja que, ao tentar libertar o ser humano de todas as estruturas, criámos a estrutura mais rígida de todas, aquela que não pode ser questionada.
Por isso, talvez valha a pena reconsiderar.
Não para regressar ao passado, mas para recuperar aquilo que o passado sabia e que o presente esqueceu com grande convicção: que o ser humano não se constrói por eliminação… mas por integração.
E que, no fundo, uma boa sociedade é como um bom cabaret: tem humor, tem conflito… e ninguém sai exatamente igual ao que entrou.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
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