Chegar aos sessenta anos não é o começo da decadência.
É o fim do teatro.
As luzes se apagam, o público vai embora, e finalmente sobra só você,
sentado numa cadeira dura,
com a coluna rangendo e a cabeça funcionando melhor do que nunca.
Não devo mais explicações a ninguém.
Se quiser, dou contexto.
Justificativa, nunca mais.
Quem cobra explicação geralmente não quer entender – quer mandar.
Os fatos já não me atormentam.
Eles existem, pronto.
Eu observo, mastigo, engulo seco
e cuido da única coisa que ainda posso mandar:
como reajo.
Dizer “não” virou algo simples, quase elegante.
Sem culpa, sem drama, sem bula moral.
Não sou egoísta.
Sou seletivo.
E quem confunde uma coisa com a outra sempre foi um parasita educado.
Conversas inúteis?
Eu simplesmente me levanto e vou embora – mesmo sentado.
Foi assim com a política.
Hoje só falo quando vale a pena sujar as mãos.
O resto é barulho de fundo para quem ainda precisa se sentir importante.
Ansiedade pelo futuro?
Nenhuma.
O meu nem é tão longo
ou tão interessante assim.
A vantagem da idade é saber que o relógio não blefa.
Não sigo modas, tendências, costumes ou essas coreografias morais de rede social.
Sou o que sou.
E ponto final costuma encerrar bem as frases.
Perfeição?
Nem na escrita.
Texto perfeito é cadáver embalsamado.
Prefiro frases mancando, mas vivas.
O corpo não é mais o mesmo.
Claro que não.
Mas aguentou bebida, cigarros, ressacas,
noites mal dormidas, escolhas erradas e mulheres complicadas.
Não sinto vergonha – sinto gratidão.
Foi um bom cavalo de guerra.
Adiar conversas?
Nunca mais.
O “eu te amo” que ficou preso na garganta agora sai rouco, mas sai.
Sem vergonha. Sem pudores.
Não tenho mais tempo para covardia emocional.
Aprendi a reconhecer minha ignorância.
Não sei – e daí?
Vergonha é fingir que sabe.
Livros ainda são uma das poucas coisas decentes que sobraram.
Também aprendi a não esperar nada de ninguém.
Sou um velho.
Velhos são outsiders por definição.
E, para dizer a verdade,
há um certo prazer em não pertencer a porra nenhuma.
A velhice é a guerra civil da existência.
Tudo que você foi começa a brigar com o que você ainda é.
Mas uma coisa ninguém tira:
experiência não é opinião.
É cicatriz.
WALTER BIANCARDINE
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