Tenho detectado um certo gosto pela novelesca de ficção científica no gabinete de propaganda da Casa Branca.

Reparem bem na última rábula delirante, proferida por nem mais nem menos que o director da CIA, John Ratcliffe:

 

 

E esta não é de todo a primeira vez que lhes cai a veia para a fantasia futurista.

Em Abril de 2025, Trump, talvez sob o efeito de drogas alucinogénicas, afirmou que os EUA têm armas tão poderosas que ninguém faz sequer ideia do seu poder (nem ele?). Essas armas incríveis não devem ter sido utilizadas agora no Golfo Pérsico, considerando o desastre…

Nesse mesmo mês desse mesmo ano, Michael Kratsios, “director científico” da actual administração americana, sugeriu que os Estados Unidos possuem tecnologia capaz de “manipular o tempo e o espaço”. Uau. Accionem já essa maquinaria para voltarmos ao momento em que Donald Trump ainda não se tinha decidido a fazer a guerra ao Irão. Sempre se poupava na humilhação, na destruição, nos mortos, e no preço do gasóleo.

Em Janeiro deste ano, circulou abundantemente nas redes sociais uma narrativa fabulástica sobre uma arma sónica de poderes sobrenaturais que as forças norte-americanas usaram na operação pirata do rapto de Nicolás Maduro, em Caracas. Neste caso, a propaganda era de tal forma grosseira que parece ter sido literalmente decalcada de um filme da Marvel.

Agora, o director da CIA veio dizer que possui este incrível mecanismo de detecção baseado em inteligência artificial – o Ghost Murmur – que é capaz de identificar um alvo humano a 40 milhas de distância, recorrendo a este método:

“A tecnologia secreta utiliza magnetometria quântica de longo alcance para encontrar a assinatura eletromagnética de um batimento cardíaco humano e combina os dados com um software de inteligência artificial para isolar a assinatura do ruído de fundo.”

Foi, alegadamente, graças a esta alegada tecnologia que o Pentágono alegou ter encontrado os pilotos que se tinham despenhado no Irão, quando a aeronave ou as aeronaves que tripulavam foram atingidas por defesas iranianas que entretanto já nos tinham garantido que não existiam.

Espectáculo. Mas…

a) Se a tecnologia é “secreta” o bom do John Ratcliffe não devia ter falado nela publicamente. Confessar, sem necessidade nenhuma e em conferência de imprensa, a utilização de sistemas desconhecidos, altamente avançados e de grande relevância táctica não será por certo uma decisão recomendável. Não sei, digo eu, e que sei eu?

b) A elaboradíssima expressão “magnetometria quântica de longo alcance” refere-se a uma tecnologia que, segundo o Grok, é “controversa” e “quase de ficção científica”:
O “longo alcance” (centenas de metros ou quilómetros) é controverso: Cientistas consultados pela Scientific American são cétpicos. O campo magnético do coração cai muito rápido com a distância (lei do inverso do cubo ou quadrado), e a um quilómetro seria extremamente fraco, imerso em ruído ambiental (campo da Terra, outros animais, interferências). Seria um avanço revolucionário, quase ficção científica, se realmente funcionar em escala de campo aberto. Alguns acham que pode ser desinformação ou exagero para esconder a verdadeira tecnologia usada.

c) Mas o senso comum é melhor conselheiro do que a IA: alegadamente, o sistema Ghost Murmur detecta a assinatura electromagnética do batimento cardíaco humano (o campo magnético gerado pela actividade eléctrica do coração), combinada com inteligência artificial para filtrar o ruído de fundo e isolar o sinal de uma pessoa em território inimigo. Mesmo que a tecnologia seja real, e capaz de ser usada militarmente, e possua um raio de acção enorme, a assinatura electromagnética tem que existir previamente, para que um indivíduo específico seja identificado, caso contrário o sistema vai detectar amigos e inimigos, basicamente toda a gente com um bater de coração no perímetro rastreado. Ora, isto requer uma base de dados com as assinaturas electromagnéticas do batimento cardíaco gravadas e digitalizadas de todos os efectivos do Pentágono, ou pelos menos de todos aqueles que podem ser enviados em missões em território hostil, certo?

d) Acontece que um simples electrocardiograma não serve para extrair essa assinatura, porque esse exame detecta apenas o sinal eléctrico. Um ecocardiograma também não se adequa a este efeito, porque converte o som das batidas cardíacas em imagem. Apenas um magnetocardiograma é adequado para captar as assinaturas cardíacas necessárias ao funcionamento deste sistema. Terão assim que ser feitas, previamente ao uso da tecnologia, dezenas de milhares de magnetocardiografias, um procedimento que implica equipamentos extremamente onerosos e por isso, deveras incomum, que não faz sequer parte do protocolo de diagnóstico médico das forças militares norte-americanas.

E assim, percebemos que a tecnologia, para além de ser tecnicamente duvidosa, é operacionalmente impraticável.

Mas porque raio é que eu estou a perder tempo com este assunto, perguntará o leitor que a este parágrafo teve a paciência de chegar?

Para demonstrar que o Regime Epstein falsifica tudo, mente sobre qualquer assunto, deturpa a realidade em função da constante operação psicológica a que submete as massas. E delira, deveras, no seu trajecto psicótico.

Só isso.

 

 

Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura