No momento em que escrevo estas linhas, JD Vance acaba de falhar a salvação do seu futuro político. Perdão. Acaba de falhar um acordo de paz duradouro com Teerão. E Donald Trump acaba de decretar um bloqueio naval no Estreito de Ormuz. Tudo indica que a guerra vai continuar. E intensificar-se até ao zero absoluto da razão.

Mas aconteça o que acontecer, com o Estreito de Ormuz aberto ou fechado, com a gasolina mais barata ou mais cara (na verdade é sempre cara porque somos roubados escandalosamente pelos impostos sobre os combustíveis), com mais ou menos colégios de raparigas a serem rebentados no Irão, com mais ou menos horrores inomináveis perpetrados em Gaza e no Líbano, não nos livramos do inferno.

Não nos livramos do inferno de ter estes líderes políticos – verdadeiros demónios à solta, apologistas sinceros e devotos do extermínio, do genocídio, da destruição pela destruição.

Não nos livramos do inferno que é a América. Do inferno que é A União Europeia. Do inferno que é o Reino Unido. Do inferno que é Portugal. Não nos livramos do inferno que é o Ocidente.

E quando digo inferno, não me refiro à literária cenografia de Dante. Nem sequer à alta probabilidade do castigo eterno. Este inferno de que falo, é o d’aqui e é o d’agora.

Este concreto, palpável, material, fedorento inferno da máxima corrupção das elites e da vil obediência das massas. Este inferno infecto e decadente das sociedades europeias. Este inferno abissal, historicamente recordista, dos corredores do poder em Washington.

Sim, quando digo inferno refiro-me ao pecado, à desonra, à iniquidade em que vivemos todos e agora mergulhados, sem sombra de revolta, nem possibilidade de redenção.

Refiro-me ao silêncio crepuscular das multidões, que sabem que são conduzidas por psicopatas e pedófilos e canibais e carrascos e homicidas e genocidas, e deixam-se ainda assim por eles conduzir!

Refiro-me ao sujo ofício de intermediários e de agentes, de publicitários e de secretários, de facilitadores e de adjuvantes destes psicopatas, destes pedófilos, destes canibais, destes carrascos, destes homicidas e destes genocidas; refiro-me a todos nós, cúmplices na banalização do mal!

Refiro-me aos banqueiros como aos bancários, aos ministros como aos funcionários, aos senhores como aos escravos, todos ele êmbolos sincronizados da mesma locomotiva de Satanás!

Refiro-me à complacência dos cegos do cérebro, à tirania dos indiferentes, à ambição dos imbecis, à imposição democrática dos normalóides e à tirania dos simples de espírito!

Refiro-me à cobardia dos militares, à estupidez dos sábios, à ignorância dos académicos, à dependência dos libertários!

O inferno somos nós e o inferno são eles – os que toleramos para além do que é admissível, os que legitimamos para além do que é legítimo, os que defendemos para além do que é defensável, os que colocamos no poder, mesmo quando somos conscientes de que vão utilizar esse poder contra nós!

Mesmo quando eles próprios não escondem que estão a trabalhar afincadamente para nossa desgraça!

A besta da Casa Branca fará aquilo que lhe for mandado fazer, claro, o animal de Telavive persistirá no seu trilho de cinzas, evidentemente; as coisas podem correr mal ou menos mal, mas deste inferno na Terra, senhores, não há maneira de escaparmos.

É tarde demais para chegar cedo.

 

Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura