
Isto não é mais do que a revelação
revelada pelo poderoso poder
que se fez estático
no mais alto dos horizontes;
que se aproximou e, suspenso
a dois arcos de distância (ou mais perto),
falou a Maomé.
Alcorão . (53:4-11) . Tradução livre do texto em inglês.
I . Todos somos Gabriel.
Na origem do Alcorão está o arcanjo Gabriel, que traz a Palavra a Maomé. É exactamente o mesmo anjo que anuncia, na tradição judaico-cristã, a encarnação do Verbo de Deus, que traz a justiça e a verdade, mas também o amor e a fraternidade. Essa “encarnação do Verbo”, para os cristãos é Jesus e para os judeus é ninguém, até ver. Seja como for, cristãos, judeus e muçulmanos têm mais em comum que descender de Abraão. Acreditam todos neste extra-terrestre que traz uma mensagem de transcendência. Os judeus até acham que o anjo em queda livre é uma espécie de guardião da fé.
II . Barba ou cabelo?
Como diferenciar judeus e muçulmanos num campo de batalha do Mediterrâneo Clássico? Os muçulmanos rapam a cabeça (porque uma careca escanhoada funcionava como uma pintura de guerra e porque Maomé nunca fez a barba) e os judeus rapam a cara (porque uma face escanhoada funcionava como uma espécie de pintura de guerra e porque se rapassem a cabeça não se distinguiam dos muçulmanos). Assim, toda a gente tem a certeza rápida de que está a matar o soldado certo: se tens barba és de Meca, se não tens és de Jerusalém.
Qualquer santificação da barba no contemporâneo mundo que vivemos deriva assim de uma alergia a barbeiros e de uma cosmética de guerra. Ponto.
III . Quem nunca pecou é um macaco (macho).
O apedrejamento não está legislado no Alcorão porque, reza a lenda, uma sacana de uma cabra petiscou essas iniciáticas páginas. Mas o segundo livro sagrado do Islão (Ṣaḥīḥ al-Bukhārī), que precede cronologicamente o Alcorão, conta a história de um profeta que, vendo um macaco atirar uma pedra a outro macaco, concluiu que o macaco vítima de apedrejamento teria que ser uma fêmea infiel e que o macaco agressor teria que ser o macho traído e por isso, justificadamente, atirador de pedras.
IV . Virgens infinitas.
As setenta e duas virgens que o Islão promete aos seus mártires não são na verdade setenta e duas. São infinitas, porque no árabe do Alcorão o número 72 serve para ilustrar o que é inumerável. Se eu disser que o califa Abdul Hamid tem 72 cabras, o que eu quero dizer é que ele tem cabras que nunca mais acabam. Além disso, nos escritos sagrados originais, o paraíso com 72 incontáveis virgens lá dentro implica também a presença – e a logística – dos incontáveis servos das virgens (todo o bordel tem seguranças, todo o harém tem eunucos). Trata-se de uma multidão ansiosa, dependente e dispendiosa que não perfaz na verdade os mínimos necessários a uma ideia de qualidade de vida-depois-da-vida.

V . Depois de espirrar, Adão fala.
Há muitas histórias em comum entre o Alcorão e a Bíblia e episódios como o de Jonas (Yunus na versão muçulmana) e a Baleia ou como o dos padecimentos – e da fidelidade – de Job (Ayub) fazem também parte do imaginário islâmico.
Assim sendo é natural que encontremos no Alcorão a história de Adão e Eva. Nesse episódio ficamos a saber que a primeira palavra dita pelo primeiro homem na Terra, “Alhamdulillah” (“Deus seja louvado”), acontece depois de um espirro. A que Alá responde “Yarhamuk-Allah (“Deus te abençoe”). É significativo para os muçulmanos que essa primeira palavra seja dita para louvar a Deus. Mas não deixa de ser divertido que a causa imediata da oralidade humana, para os muçulmanos, advenha de uma constipação. Seja como for, a expressão “Deus te abençoe” ainda é usada pelos portugueses para contrapor ao espirro de alguém. Esse costume linguístico advém não da tradição cristã, mas do legado islâmico.
VI .Uma língua moribunda.
Noventa por cento dos 1.7 biliões de muçulmanos no planeta não falam a língua em que o Alcorão foi escrito. Não é de admirar. Cem por cento dos cristãos contemporâneos não dominam o grego koiné, o hebraico e o aramaico em que o Antigo e o Novo testamentos foram originalmente redigidos, por exemplo. Há no entanto que ter em consideração que a tradução escolástica de textos ancestrais, ainda por cima resultantes de tradição oral, podem rapidamente transformar a mensagem original num desaguisado canónico construído para alimentar o poder institucional das igrejas, como aconteceu na baixa idade média da Europa e acontece actualmente um pouco por todo o mundo islâmico.
VII . O guerreiro e o carpinteiro.
Maomé era um próspero comerciante do Médio Oriente do século VI depois de Cristo. De forma a dominar as rotas comerciais dessa época, um comerciante competente teria que ser em concomitância um guerreiro de primeira estirpe. Não existia outra hipótese. É por isso que o Alcorão será sempre mais inspirador de violências do que o Novo Testamento. Como qualquer pessoa normal, os dois profetas são produto da sua situação. Cristo é um pobre carpinteiro de um miserável e infecto do império romano, no seu apogeu. Maomé é um próspero – e bélico – capitalista que trabalha sobre a decadência desse mesmo império. A mensagem evangélica tem que ser diferente.
VIII . A primeira revelação ou a alfabetização do Profeta.
A primeira revelação a Maomé só nos chega no capítulo 96 do Alcorão. O Al-Alaq ou “O Coágulo” é composto por 19 versos e foi transmitido pelo anjo Gabriel ao profeta. Gabriel aparece a Maomé quando este se encontra em retiro na caverna do Hira, próximo de Meca, e ordena-lhe que leia a escritura. Maomé confessa porém que não sabe ler, pelo que o anjo o abraça e lhe revela os primeiros cinco versos:
Lê: Em nome do teu Senhor que criou
Criou o homem de um coágolo.
Lê: e o teu senhor é o mais generoso,
Aquele que ensina pela pena
Ensinou o homem aquilo que ele não sabia.
Alcorão . (96: 1-5) . Tradução livre do texto em inglês.
Parte-se do princípio que ao sexto verso Maomé já estava devidamente alfabetizado. Não é por acaso que Qur’an (Alcorão) significa, literalmente, “Ele Lê” e este episódio relaciona-se directamente com uma característica do Deus islâmico que é apenas ligeiramente diferente do Deus cristão: Enquanto este último cria pela palavra falada, o primeiro cria pela palavra escrita. Em comum, o poder criador da palavra e João, no primeiro versículo do seu evangelho, não deve ofender nenhum muçulmano com estas palavras iniciáticas de substância transcendente:
No princípio era o verbo.
João 1:1
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