Israel levou a cabo uma aterradora onda de ataques aéreos no Líbano, que matou e feriu cerca de 1400 pessoas, na sua maioria civis, enquanto Benjamin Netanyahu afirma que ainda tem “objectivos a cumprir” e que permanece “com o dedo no gatilho”.

 

Apesar do cessar-fogo acordado entre Washington e Teeerão, Israel descreveu a operação como a maior onda de ataques aéreos neste conflito, atingindo mais de “100 centros de comando e instalações militares do Hezbollah em 10 minutos” de fogo cerrado. As imagens que nos chegam, porém, mostram áreas residenciais a serem pulverizadas.

 

 

Os subúrbios do sul de Beirute, o sul do Líbano e o leste do Vale do Bekaa foram alvejados selvática e indiscriminadamente. No local do maior ataque aéreo em Beirute, as equipas de resgate ainda procuravam sobreviventes nos edifícios danificados, horas depois dos bombardeamentos.

O Ministério da Saúde libanês informou que pelo menos 182 pessoas morreram e 890 ficaram feridas, mas, posteriormente, a Al Jazeera reportou 254 mortos e 1165 feridos.

 

 

Os ataques ocorreram depois de o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ter negado a afirmação do Paquistão, que tinha mediado o acordo entre os EUA e o Irão, de que o cessar-fogo abrangia o conflito no Líbano. Paralelamente, numa declaração que correu pelas redes sociais, Netanyahu afirmou:

“Como sabem, entrou em vigor esta noite um cessar-fogo temporário de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irão, em plena coordenação com Israel. Os americanos não nos surpreenderam à última hora. Deixem-me ser claro: ainda temos objectivos a cumprir e vamos alcançá-los, quer por acordo, quer retomando os combates. Estamos preparados para regressar ao combate a qualquer momento necessário. O dedo está no gatilho. Este não é o fim da campanha, mas um passo no caminho para alcançar todos os nossos objectivos. O Irão entra nesta pausa bastante enfraquecido, mais fraco do que nunca.”

 

Em Washington, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, também afirmou que o Líbano não fazia parte do acordo, e JD Vance, que estava a ser celebrado como o homem chave do acordo entre os EUA e o Irão na administração americana, traiu qualquer vestígio de boa fé, ao afirmar que se os iranianos pensavam que o Líbano estava incluído no cessar-fogo era porque estavam equivocados.

O Hezbollah, que não reivindicou qualquer ataque desde o anúncio do acordo, disse que o grupo tinha o direito de responder e alertou as famílias deslocadas para que esperassem um anúncio formal de cessar-fogo antes de tentarem regressar a casa.

A presidência libanesa afirmou que vai continuar “os esforços para incluir o Líbano na paz regional”.

A mais recente escalada no conflito de décadas entre o Hezbollah e Israel eclodiu quando o grupo lançou rockets contra Israel em retaliação pelo assassinato do líder supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, na fase inicial da guerra, e em resposta aos ataques israelitas quase diários contra o Líbano, que continuaram apesar do cessar-fogo acordado em Novembro de 2024.

Não contando com os horríficos números dos bombardeamentos de ontem, mais de 1.700 pessoas foram mortas, incluindo pelo menos 130 crianças, como resultado da guerra, segundo o Ministério da Saúde libanês, que não distinguiu os combatentes dos civis.

Mais de 1,2 milhões de pessoas foram deslocadas, ou um quinto da população, a maioria das quais de comunidades muçulmanas xiitas.

As aldeias próximas da fronteira foram destruídas, enquanto as tropas israelitas invasoras procuram criar aquilo a que as autoridades israelitas chamam uma zona tampão de segurança, para destruir as infraestruturas do Hezbollah e expulsar os seus combatentes, facto que gerou mais que legítimas preocupações de que algumas áreas possam permanecer ocupadas mesmo após o fim da guerra e que muitos residentes libaneses talvez nunca consigam regressar.

As autoridades israelitas tinham indicado a sua intenção de continuar com a campanha no Líbano, mesmo que houvesse um acordo com o Irão. Mas, nos últimos dias, fontes militares citadas pelos meios de comunicação israelitas sugeriram que o exército não tinha qualquer intenção de avançar mais na invasão, reconhecendo que não conseguiriam desarmar o Hezbollah pela força.

Os observadores manifestaram surpresa com as capacidades militares do Hezbollah neste conflito, uma vez que se acreditava amplamente que o grupo tinha sido entretanto severamente enfraquecido. A organização financiada, treinada e equipada pelo Irão lançou frequentemente rockets e drones contra o norte de Israel, e confrontou com firmeza as tropas israelitas em terra, no sul do Líbano.

 

Uma reacção criminosa, mas expectável.

Ontem, no artigo que o ContraCultura publicou sobre o acordo de cessar-fogo entre as autoridades americanas e iranianas, escrevemos:

“Tudo isto pode ser destruído num instante pelos sionistas, que não se vão conformar facilmente com estas tréguas.”

Acto contínuo:

 

 

No mesmo artigo, escrevemos também:

“É claro que a credibilidade diplomática da Casa Branca está hoje num nível muito perto do zero e ninguém – e muito menos Teerão – vai tomar as boas intenções americanas como garantidas.”

Acto contínuo:

 

 

Era previsível que o aparelho Epstein ia reagir como reagiu, tanto na sua delegação em Washington como em Telavive. E se alguém tem dúvidas sobre quem é o patrão na Sala Oval, este episódio é de eloquente resolução. Enquanto Donald Trump tenta a todo o custo sair de uma guerra desastrosa e humilhante, que lhe está a destruir o mandato presidencial, o seu superior hierárquico em Telavive enterra-o ainda mais na lama ensanguentada do conflito. A circunstância faz lembrar um célebre momento cinematográfico:

 

 

A intenção do regime sionista não passa pela paz, obviamente, até porque Netanyahu não é propriamente um destituído mental e sabe perfeitamente que o discurso de vitória de Donald Trump, para consumo MAGA, é completamente fraudulento. Como também já afirmámos, nenhum dos objectivos que presidiram a este injustificável ataque ao Irão foram atingidos: a teocracia islâmica continua vigente. O povo iraniano não foi “libertado”. O urânio enriquecido continua lá. A capacidade balística continua lá. O controlo iraniano do Estreito é total. A China poderá continuar a contar com um aliado poderoso no Golfo Pérsico. O Irão continuará a ser a grande potência da região.

Ou seja, Israel nada ganhou com a manobra e vê agora o sul do Libano não só como o único troféu de caça que ainda poderá juntar ao seu mausoléu de horrores, mas também como uma forma de obrigar o Irão a responder na mesma moeda, e consequentemente empurrando de novo os Estados Unidos para a sua guerra santa.

Porque se Teerão decidir retaliar, bombardeando Israel ou voltando a fechar Ormuz, Donald Trump volta a não ter maneira de salvar a face, cantar vitória e alimentar a fanfarronice. E depois das ameaças apocalípticas que proferiu e escreveu, qualquer regresso norte-americano ao teatro de guerra será absolutamente infernal.

Para os iranianos. Para os americanos. Para toda a gente, menos para os sionistas de fé escatológica.