Depois de ter, por duas vezes, feito recurso à mais baixa retórica imaginável, considerando que se trata de um chefe de estado, prometendo galhardamente extinções e cataclismos, sugerindo crimes de guerra e todo o tipo de barbaridades com indisfarçável volúpia, Donald J. Trump acabou por renunciar ao seu próprio bluff e por volta da meia noite de ontem (hora de Portugal), concedeu ao bom senso e ao desastre que ele próprio criou. Mas vale a pena fazermos um breve viagem pelas últimas 48 horas.

No Domingo de Páscoa, depois de ter conseguido vender uma operação militar falhada, em território iraniano, como um heroico triunfo, o inquilino da Casa Branca, que já tinha advertido por várias vezes que estava preparado para fazer desaparecer do mapa um país que não cometeu qualquer agressão contra os EUA, excepto ferir o orgulho do seu presidente e a hubris do Regime Epstein, publicou esta ordinária, tresloucada e aviltante mensagem:

“Terça-feira vai ser o Dia das Centrais Eléctricas e o Dia das Pontes, tudo num só embrulho, no Irão. Não vai haver nada igual!!! Abram a merda do Estreito, bastardos enlouquecidos, ou vão viver no Inferno — Vejam só! Louvado seja Alá.”

O tom, o vernáculo e a pulsão sanguinária da mensagem não deixaram apenas desvairados os iranianos em particular, os xiitas em geral e os muçulmanos com algum respeito por si próprios. Também nos Estados Unidos houve quem se sentisse deveras incomodado, mesmo entre aqueles que apoiaram Donald Trump desde sempre (mas agora já não).

 

 

Não contente com a sua infame prosápia de demónio à solta, o magnata de Queens dobrou a aposta e na madrugada de segunda para terça-feira, escreveu e publicou estas alucinadas linhas:

“Uma civilização inteira vai morrer esta noite, para nunca mais voltar. Não quero que isso aconteça, mas provavelmente vai acontecer. No entanto, agora que temos uma Mudança de Regime Completa e Total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE? Vamos descobrir esta noite, um dos momentos mais importantes na longa e complexa história do Mundo. Que Deus abençoe o Grande Povo do Irão.”

 

 

Para além de não se perceber bem de que “Mudança de Regime Completa e Total” é que o infeliz está a falar (e, já agora, porque é que os termos foram escritos com capitulares), a primeira frase do parágrafo fez subir as sobrancelhas de multidões de observadores, analistas, críticos e simples utilizadores das redes sociais.

“Uma civilização inteira vai morrer esta noite”? Quem é que Donald Trump pensará que é? O Vishnu de Oppenheimer, que se transforma no destruidor de mundos? E será que esta terrível expressão implicava que a desvairada figurinha equacionava a utilização de armas nucleares? Houve muito boa gente que pensou que sim, e enquanto sobre o acerto dessa especulação circulavam rumores na imprensa corporativa, Tucker Carlson desafiava os generais do Pentágono a desobedecerem ao seu comandante em chefe, caso essa decisão, antes impensável, mas agora hipotética, fosse tomada.

 

 

Vale a pena voltar a sublinhar este facto: Donald Trump ameaçava extinguir uma civilização apenas porque essa civilização lhe bateu o pé, quando agredida. O Irão não atacou os Estados Unidos da América.

Acontece que todo este barulho shakespeariano resultou em nada, porque entretanto, no último minuto do prazo que tinha dado ao Irão para ceder às suas exigências, Donald Trump cedeu às exigências do Irão, de forma a conseguir um acordo de cessar-fogo, fracasso retumbante (se bem que abençoado, claro) que vai vender, mais uma vez, como uma esplêndida vitória.

No seu anúncio do cessar-fogo, lemos:

“Com base nas conversas com o Primeiro-Ministro Shehbaz Sharif e o Marechal de Campo Asim Munir, do Paquistão, nas quais me pediram que suspendesse a força destrutiva que ia ser enviada esta noite para o Irão, e sujeito a que a República Islâmica do Irão concorde com a ABERTURA COMPLETA, IMEDIATA e SEGURA do Estreito de Ormuz, aceito suspender os bombardeamentos e os ataques ao Irão por um período de duas semanas.”

No anúncio do cessar-fogo do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, lemos:

“Em nome da República Islâmica do Irão, expresso a minha gratidão e apreço aos meus queridos irmãos, Sua Excelência o Primeiro-Ministro do Paquistão, Sharif, e a Sua Excelência o Marechal de Campo Munir, pelos seus incansáveis esforços para pôr fim à guerra na região.
Em resposta ao pedido fraterno do Primeiro-Ministro Sharif na sua mensagem, e tendo em conta o pedido dos Estados Unidos para negociações baseadas na sua proposta de 15 pontos, bem como o anúncio do Presidente dos EUA sobre a aceitação do quadro geral da proposta iraniana de 10 pontos como base para as negociações, declaro, em nome do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, o seguinte:
Se os ataques contra o Irão forem suspensos, as nossas poderosas Forças Armadas cessarão as suas operações defensivas.
Durante um período de duas semanas, a passagem segura pelo Estreito de Ormuz será possível através da coordenação com as Forças Armadas iranianas e tendo em devida conta as limitações técnicas.”

 

 

Ou seja: Os EUA aceitam a suspensão das hostilidades em troca da abertura do Estreito de Ormuz. Que estava aberto antes do início das hostilidades. E vão sentar-se agora à mesa das negociações com os iranianos numa circunstância em que Teerão vê a sua posição mais reforçada do que se encontrava antes de ser atacado, dada a alta resiliência e capacidade combativa que demonstrou, na directa proporção do desastre e da humilhação a que foi submetido o Pentágono.

Em favor da Sala Oval, há que levantar a possibilidade de Donald Trump, vendo-se encurralado numa guerra que estava a correr pessimamente e a abrir caminho para uma vitória histórica dos democratas nas intercalares de Novembro, e da qual não parecia ter uma saída airosa por onde se enfiar, ter exagerado no tom retórico de tal forma que qualquer solução de cessar-fogo pudesse ser mascarada como um triunfo, se não militar, pelo menos diplomático, já que o acordo permite a toda a gente respirar de alívio, e aos mercados energéticos e financeiros, um regresso à sanidade. Por enquanto.

Convenhamos: de todas as declarações triunfantes – e ridículas por serem triunfantes – que já fez sobre esta guerra, esta será talvez a menos ridícula (embora permaneça como fraudulenta).

É claro que a credibilidade diplomática da Casa Branca está hoje num nível muito perto do zero e ninguém – e muito menos Teerão –  vai tomar as boas intenções americanas como garantidas. Não surpreenderia ninguém que Washington chamasse Teerão à mesa das negociações só para surpreender o regime islâmico com um ataque massivo e com o assassinato até dos oficiais iranianos nomeados para se sentarem nessa mesa.

E o que é mais: tudo isto pode ser destruído num instante pelos sionistas, que não se vão conformar facilmente com estas tréguas, como avisa – e muito bem – Joe Kent:

 

 

E aqui, entra o advogado do diabo: por uma vez, Benjamin Nethanyahu é capaz de ter razão se manifestar frustração e ressentimento em relação às acções da Casa Branca. Afinal, nenhum, mas absolutamente nenhum dos objectivos (e foram enumerados muitos) que presidiram a este injustificável ataque ao Irão foram atingidos.

A teocracia islâmica continua vigente. O povo iraniano não foi “libertado”. O urânio enriquecido continua lá. A capacidade balística continua lá. O controlo iraniano do Estreito é total. A China poderá continuar a contar com um aliado poderoso no Golfo Pérsico. O Irão continuará a ser a grande potência da região. E etc.

Na verdade, a única coisa que realmente mudou, e não para melhor, foi esta: a percepção do poder militar norte-americano e da sua capacidade para defender os seus aliados do Golfo.