O Irão submeteu recentemente à União Europeia uma proposta de acordo relacionada com o acesso ao Estreito de Ormuz. À primeira vista, este movimento pode ser interpretado como um gesto diplomático de alcance meramente regional, focado em garantir estabilidade ou concessões numa área geográfica estrategicamente sensível. No entanto, uma leitura mais atenta e aprofundada revela que esta iniciativa poderá conter implicações estruturais de grande monta para o próprio sistema financeiro internacional.

O Estreito de Ormuz é amplamente reconhecido como um dos mais importantes corredores energéticos do planeta, sendo responsável pelo trânsito de aproximadamente 20% do petróleo consumido a nível mundial. Esta passagem estratégica liga os produtores de crude do Golfo Pérsico aos mercados globais, tornando qualquer ameaça ou constrangimento no seu fluxo suscetível de provocar choques energéticos de amplo espectro. Paralelamente, o contexto geopolítico tem-se vindo a deteriorar nos últimos anos, exercendo uma pressão crescente sobre os preços da energia, em particular na Europa. Os aumentos registados no gás natural, no petróleo e nos seus derivados têm sido substanciais, alimentando tensões inflacionistas e expondo vulnerabilidades na segurança energética europeia. A esta conjuntura acresce uma tendência de longo prazo que aponta para uma redução gradual da quota do dólar americano nas reservas internacionais detidas pelos bancos centrais de diversos países, sinalizando uma possível erosão da hegemonia monetária dos Estados Unidos.

É neste quadro complexo que a possível aceitação, por parte da União Europeia, de um acordo energético denominado em euros , yuan — ou noutras moedas alternativas ao dólar — ganha particular relevância. Caso a proposta iraniana venha a ser acolhida, ainda que de forma experimental ou limitada, poderá ser interpretada como um sinal significativo de mudança nos padrões históricos de liquidação do comércio internacional de energia. Tal cenário coloca questões profundas sobre a resiliência do chamado sistema do “petrodólar”, que remonta aos acordos estabelecidos na década de 1970 entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita. Esse sistema consolidou o dólar como principal moeda de reserva global, em grande parte graças à obrigatoriedade de que as transações petrolíferas fossem realizadas na moeda norte-americana, gerando assim uma procura estrutural por dólares que beneficiava a economia dos EUA e o seu financiamento externo.

Trata-se pois de uma verdadeira ‘bomba nuclear’ económico-financeira com impacto certo, senão fatal, na hegemonia financeira norte-americana, em que a divida (aliás, impagável) ascende a mais de 37 triliões de USD que é financiada pelos petro-dólares.

Uma eventual fragmentação ou erosão deste sistema poderia desencadear consequências de longo alcance. Entre elas, destacam-se: o fortalecimento de blocos económicos alternativos, como os BRICS, que têm procurado ativamente criar mecanismos de comércio e financiamento independentes do dólar; uma reavaliação estratégica por parte dos países exportadores de energia, que poderão passar a diversificar as moedas de faturação das suas vendas; e potenciais efeitos negativos sobre a capacidade dos Estados Unidos de financiar a sua dívida pública em condições favoráveis, uma vez que a procura global por ativos denominados em dólares tenderia a diminuir.

Diversas instituições internacionais, analistas e decisores políticos têm vindo a alertar que o atual contexto geopolítico — marcado por sanções, conflitos regionais e uma crescente competição entre potências — poderá funcionar como um catalisador de transformações monetárias mais profundas e duradouras. Nesse sentido, o conflito em torno do Irão não deverá ser analisado exclusivamente sob a ótica da segurança regional, da proliferação nuclear ou das tensões no Golfo. Pelo contrário, este episódio insere-se numa dinâmica mais ampla de competição estratégica pela definição e controlo da moeda de referência no sistema internacional, envolvendo atores como a China, a Rússia e a própria União Europeia, cada um com os seus interesses e visões para a arquitetura financeira global.

Em suma, o episódio relacionado com o Estreito de Ormuz pode ser interpretado como um possível ponto de inflexão nas relações económicas e monetárias internacionais. Mais do que um simples incidente diplomático regional, ele ilustra tensões crescentes entre a ordem financeira estabelecida, centrada no dólar, e as tendências emergentes de diversificação monetária no comércio global. A forma como a União Europeia responderá à proposta iraniana poderá, assim, ter repercussões que vão muito além das fronteiras do Médio Oriente, influenciando o futuro da geopolítica da energia e do sistema monetário internacional nas próximas décadas.

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.