O Pentágono tem encoberto o número real de baixas resultantes da actual guerra no Golfo Pérsico e da presença militar norte-americana no médio Oriente desde 2023, que será bem superior às que foram oficialmente divulgadas.
Uma análise do The Intercept revelou que quase 750 soldados norte-americanos foram feridos ou mortos no Médio Oriente desde Outubro de 2023. Mas o Pentágono recusa-se a reconhecer o facto.
O Comando Central dos EUA (CENTCOM), responsável pelas operações militares no Médio Oriente, parece estar envolvido no que um oficial da defesa chamou de “encobrimento de baixas”, fornecendo números subestimados e desactualizados sobre mortes e ferimentos de militares.
Pelo menos 15 soldados norte-americanos ficaram feridos a 27 de Março, num ataque iraniano a uma base aérea saudita que alberga tropas norte-americanas, de acordo com dois funcionários do governo que falaram com o The Intercept. Centenas de militares norte-americanos foram mortos ou feridos na região desde que os EUA iniciaram a guerra contra o Irão, há pouco mais de um mês.
O presidente Donald Trump tem dito publicamente que as baixas são inevitáveis.
“Quando se tem conflitos como este, há sempre mortes.”
Na passada terça-feira, Trump insinuou que iria terminar a guerra com o Irão em apenas duas semanas, apesar de não ter alcançado muitos dos seus objectivos declarados, como uma mudança de regime, “a libertação do povo iraniano”, “ficar com o petróleo do Irão” ou forçar a “rendição incondicional” da República Islâmica. A dada altura, o presidente chegou a declarar que a guerra duraria
“o tempo que fosse necessário para atingirmos o nosso objetivo de PAZ EM TODO O MÉDIO ORIENTE E, NA VERDADE, EM TODO O MUNDO!”
E na directa proporção das adversidades que os Estados Unidos têm experimentado no Golfo Pérsico, os objectivos vão sendo alterados, a um ritmo alucinante.
Entretanto, o CENTCOM divulgou comunicados desactualizados sobre o número de baixas, incluindo uma declaração enviada no fim de Março pelo Capitão Tim Hawkins, referindo:
“Desde o início da Operação Epic Fury, aproximadamente 303 militares americanos foram feridos”.
O comentário excluía pelo menos 15 feridos no ataque à Base Aérea Príncipe Sultan, na Arábia Saudita.
O CENTCOM também não forneceu uma contagem dos soldados que morreram na região desde o início da guerra. Uma análise do The Intercept estima o número em pelo menos 15. Mas há quem fale em mais de setecentos.
New reports are coming out claiming that over 750 American soldiers have been killed in Iran.
Meanwhile, Israel has publicly stated that it will not deploy one single troop to help Trump during the ground invasion.
This is the definition of dying for Israel.
— Red Pill Media (@RedPillMediaX) April 4, 2026
O responsável da Defesa que falou sob anonimato afirmou a este propósito:
“Este é, obviamente, um assunto que [o Secretário da Guerra Pete] Hegseth e a Casa Branca querem manter em absoluto segredo.”
Em 2024, durante a administração Biden, o Pentágono forneceu cronologias detalhadas dos ataques a bases americanas no Médio Oriente, listando o posto avançado específico atacado, o tipo de ataque e se houve ou quantas foram as baixas, bem como uma contagem total de ataques por país.
Os números da administração Trump, em comparação, carecem de detalhes e clareza. Os números actuais de baixas do CENTCOM não parecem incluir mais de 200 marinheiros tratados por inalação de fumo ou outros ferimentos devido a um incêndio que devastou o USS Gerald R. Ford antes de o navio se dirigir para a Baía de Souda, na Grécia, para reparação. O CENTCOM não respondeu a quase uma dezena de pedidos de esclarecimento sobre o número de baixas e informações relacionadas.
Jennifer Kavanagh, directora de análise militar do Defense Priorities, um think tank que defende uma política externa americana ponderada, criticou esta estratégia de encobrimento do Pentágono:
“O CENTCOM e a Casa Branca deveriam fornecer informações precisas e oportunas sobre os custos e as baixas envolvidas nesta guerra. Afinal, são os contribuintes americanos que a financiam, e a prosperidade e o bem-estar económico dos EUA estão a ser prejudicados por ela.”
Enquanto os EUA bombardeiam o Irão implacavelmente, Teerão tem respondido com ataques a bases americanas em todo o Médio Oriente, utilizando mísseis balísticos e drones. O CENTCOM recusa-se até a fornecer uma simples contagem das bases americanas que foram atacadas durante a guerra. Mas é público que foram visadas bases no Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Qatar, Arábia Saudita, Síria e Emirados Árabes Unidos.
E o New York Times, citando responsáveis do Pentágono, noticiou que os danos causados pelo Irão nas instalações militares dos EUA no Golfo estão a obrigar as tropas norte-americanas a mudarem-se para hotéis e escritórios em toda a região.
Na terça-feira, Hegseth afirmou que o Irão ainda tinha capacidade para retaliar, mas que esses ataques seriam ineficazes:
“Sim, ainda lançarão alguns mísseis, mas nós abatemo-los”.
Porém, na manhã de quarta-feira, as autoridades do Bahrein, Kuwait e Qatar reportaram ataques com mísseis ou drones vindos do Irão.
Uma sequência semelhante aconteceu com Donald Trump. Logo depois de ter garantido total supremacia aérea norte-americana no território iraniano, o inquilino da Casa Branca foi confrontado com o duro cimento da realidade: quatro aeronaves e dois helicópteros do Pentágono tinham sido atingidos pela defesa anti-aérea iranaina.
Second A-10 was downed and possibly another F-16
— Megatron (@Megatron_ron) April 3, 2026
Na operação de resgate de dois pilotos norte-americanos que se seguiu, o Pentágono perdeu pelo menos seis aeronaves e mais dois helicópteros.
O general na reserva Joseph Votel, antigo chefe do Comando Central, recordou que as tropas norte-americanas na região enfrentam ataques de drones há pelo menos uma década. Referindo-se aos ataques com drones durante a campanha contra o Estado Islâmico na Primavera de 2016, Votel afirmou:
“Nessa altura, identificámos a necessidade de protecção contra esta ameaça, e o Departamento de Defesa demorou muito tempo a responder e a fornecer protecção adequada às nossas tropas. Era expectável que, se fosse atacado, o Irão retaliaria contra as nossas bases, instalações e forças, e concordo que nos deveríamos ter preparado para esta inevitabilidade.”
Kavanagh, que anteriormente chamou a atenção para a vulnerabilidade dos postos avançados americanos no Médio Oriente, concordou com Votel.
“Há anos que é claro que a rápida proliferação de drones e mísseis baratos colocaria em risco as bases americanas e os radares de detecção antecipada dos EUA na região, mas o Pentágono pouco fez para os proteger. A falta de investimento em infraestruturas reforçadas foi uma escolha. O Congresso deveria ver esta falha como prova de que simplesmente dar mais dinheiro ao Pentágono não é o caminho para a segurança nacional. Estaríamos melhor se as bases em toda a região fossem definitivamente encerradas.”
Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Seyed Abbas Araghchi, criticou os EUA por utilizarem civis como escudos humanos nos países do Golfo , escrevendo no X:
“Os soldados norte-americanos fugiram de bases militares no CCG para se esconderem em hotéis e escritórios. Os hotéis nos EUA negam reservas aos oficiais que possam colocar os clientes em perigo. Os hotéis do CCG deveriam fazer o mesmo.”
From outset of this war, U.S. soldiers fled military bases in GCC to hide in hotels and offices. They use GCC citizens as human shield.
Hotels in U.S. deny bookings to officers who may endanger customers. GCC hotels should do same. pic.twitter.com/U2U4je0059
— Seyed Abbas Araghchi (@araghchi) March 26, 2026
Votel também manifestou preocupação com a utilização de hotéis e escritórios pelas tropas, referindo que isso “poderá transformar a infraestrutura civil normal em alvos militares para o regime”.
No mês passado, um ataque com um drone iraniano ao hotel Crowne Plaza, um empreendimento de luxo em Manama, capital do Bahrein, feriu dois funcionários do Departamento de Guerra, de acordo com um telegrama do Departamento de Estado.
Votel afirmou que a falta de protecção adequada das tropas pode prejudicar as operações americanas.
“Penso que isto complica bastante o comando e o controlo e pode afectar a coesão e a eficácia das unidades. Dito isto, talvez não tenhamos muitas opções se não conseguirmos proteger as bases militares onde normalmente estariam alojados os efectivos.”
Pelo menos 15 soldados norte-americanos no Médio Oriente morreram desde o início da Guerra do Irão, incluindo seis militares mortos num ataque com drones em Port Shuaiba, no Kuwait, e um soldado que morreu num “ataque inimigo a 1 de Março de 2026 na Base Aérea Príncipe Sultan, na Arábia Saudita”. Mais de 520 militares norte-americanos também ficaram feridos, incluindo os que sofreram queimaduras e inalação de fumo no USS Gerald Ford.
Antes da actual guerra com o Irão, e após o início da guerra de Israel em Gaza, em Outubro de 2023, as bases americanas no Médio Oriente foram alvos cada vez mais frequentes de uma combinação de drones de ataque unidirecional, rockets, morteiros e mísseis balísticos de curto alcance. A maioria dos ataques ocorreu no ano seguinte ao início do conflito. Pelo menos 175 soldados foram mortos ou feridos nestes ataques, incluindo três militares que morreram num ataque em Janeiro de 2024 à Torre 22, uma instalação na Jordânia. Outros ataques atingiram a Base Aérea de Al-Asad, o Centro de Apoio Diplomático de Bagdade, o Campo Victory, Union III, a Base Aérea de Erbil e a Base Aérea de Bashur, no Iraque, e a guarnição de Al-Tanf, a Base Aérea de Deir ez-Zor, o Sítio de Apoio à Missão Euphrates, o Sítio de Apoio à Missão Green Village, a Base de Patrulha Shaddadi, a Zona de Aterragem de Rumalyn, Tell Baydar e Tal Tamir, na Síria.
As estatísticas de baixas não incluem trabalhadores de empresas privadas contratadas pelo Pentágono, sendo que a maioria sofreram ferimentos não relacionados com o combate. As estatísticas oficiais dos EUA mostram que houve quase 12.900 casos de ferimentos em empreiteiros na área de operações do CENTCOM, só em 2024. Mais de 3.700 foram ferimentos não fatais graves, incluindo traumatismos cranioencefálicos, que exigiram mais de sete dias de baixa médica. Dezoito contratados foram também mortos, todos no Iraque. Os números representam provavelmente uma subnotificação significativa, mas se mesmo a pequena fracção de ferimentos conhecidos em contratados for adicionada à contagem, o número de baixas entre americanos e militares em bases americanas poderá ultrapassar os 13.600, desde 2023.
Em nome de que valores civilizacionais, e servindo os interesses de quem?
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