Por muito volátil que seja a memória colectiva do Ocidente, com certeza que nos lembramos dos objectivos iniciais que, segundo a Casa Branca, presidiram ao desencadear da guerra contra o Irão. Afinal, esses propósitos, desvalidos de razão – é certo, foram enunciados apenas há um mês.
A 28 de Fevereiro de 2026, quando a aliança EUA/ Israel iniciou a operação Epstein Fury, as razões apontadas para fazer a guerra já eram frágeis:
– Um alegado programa nuclear que o próprio Donald Trump tinha afirmado em Junho de 2025 que havia destruído com a série de bombardeamentos que ordenou na altura.
– A “libertação” do povo iraniano de um sistema despótico e opressivo e correspondente mudança de regime.
Nunca foi demonstrado que o Irão possui ou alguma vez possuiu armas nucleares ou até que estava perto de as obter (acusações deste género têm sido alimentadas por Israel desde os anos 90), sendo que a Casa Branca exigia agora também o desmantelamento de todos os sistemas balísticos convencionais da República Islâmica, algo que as autoridades iranianas nunca iriam aceitar.
Por outro lado, a declaração de intenções relativamente à libertação do povo iraniano não é honesta, já que não faltam na geografia global regimes de inspiração autoritária, até no Ocidente. Podíamos começar por libertar os desgraçados bifes do jugo de Keir Starmer, a multidão sonâmbula de franceses da tirania de Emmanuel Macron, a turba tuga dos oligarcas da Terceira República, ou até, num rasgo de maior ambição, as massas europeias da déspota von der Leyen. São todos eles exemplos edificantes de libertação dos povos sujeitos a terríveis ditaduras.
Acresce que países com armas nucleares e regimes autoritários ou inspirados na lei islâmica, como o Paquistão e a Coreia do Norte, que não têm sido incomodados pelos EUA, ensinam ao mundo que a opção atómica é o garante da sua soberania, pelo que muitos peritos em geoestratégia têm afirmado que esta guerra vai promover o desenvolvimento de armamento nuclear em vários países desprovidos ainda desse recurso.
Já para não falar no próprio Irão, que se até aqui tinha desenvolvido apenas um tímido processo de enriquecimento de Urânio, irá por certo, sobrevivendo a esta guerra, como tudo indica que vai sobreviver, acelerar o seu programa atómico. E com sólidas razões para isso (entre as quais as 160 meninas mortas em Minab).
Adiante.
Acontece que à medida que a guerra se tem alongado para lá dos prazos inicialmente previstos pela Casa Branca, os seus objectivos e as suas justificações têm oscilado radicalmente.
A guerra que ia durar quatro ou cinco dias, alongou-se para cinco semanas, ou dois meses ou seis ou sabe-se lá quando vai acabar. A guerra que só terminaria com a rendição incondicional do regime iraniano, afinal pode acabar já amanhã. Ou não. Se calhar é uma guerra que está penas no seu início. Se calhar haverá uma invasão com tropas no terreno. Se calhar, não. A guerra que foi feita para libertar o povo iraniano, mata-lhe os seus filhos. A guerra que foi feita para mudar o regime teocrático, pode ser terminada com uma teocracia no poder. Se calhar mais feroz, até, não importa realmente. A guerra que foi feita porque os israelitas a iam fazer de qualquer forma, com o apoio ou sem o apoio dos Estados Unidos, é a mesma guerra que foi feita por iniciativa dos Estados Unidos, para combater os interesses da China. E assim sucessivamente, até à exaustão do bom senso.
Mais tarde, o objectivo primordial do Regime Epstein sofreu uma reviravolta esquizofrénica e passou a ser a abertura do Estreito de Ormuz, que a agressão do Regime Epstein tinha provocado, porque antes da ofensiva do Regime Epstein o Estreito estava aberto e o petróleo e os fertilizantes agrícolas transitavam pacificamente para todo o lado, sem preocuparem as seguradoras da marinha mercante.
Enfim, esta guerra tem tantos motivos, e todos tão voláteis, que até serve o fundamentalismo escatológico cristão-sionista, que anuncia a construção do Terceiro Templo em Jerusalém e correspondente Armagedão.
Este é aliás um conflito que não pode ser considerado formalmente pela Casa Branca como uma guerra, porque para ser uma guerra precisava da autorização do Congresso, que não teve.
Quanto maior a humilhação, mais modestos os objectivos.
Mas agora, por cima de tudo isto, temos um narrativa completamente diferente. Afinal, todos estes objectivos de nada valiam nem valem, porque os verdadeiros, supremos e invioláveis propósitos são estes: a “destruição da marinha e da força aérea iranianas”, a “diminuição das suas capacidades balísticas” e a “destruição das suas fábricas”.
Sim, a sério. O Secretário de Estado norte-americano até enfatizou que devemos escrever isto mesmo num bloco de notas para referência futura:
SECRETARY RUBIO: Here are the clear objectives of the operation. You should write them down:
1. The destruction of Iran’s air force
2. The destruction of their navy
3. The severe diminishing of their missile launching capability
4. The destruction of their factories
🎯 pic.twitter.com/SrqCtPLlZB— Department of State (@StateDept) March 30, 2026
Secundando Marco Rubio, Donald Trump, logo a seguir, afirmou que os Estados Unidos poderiam cessar os ataques ao Irão dentro de duas ou três semanas e que não é necessário um acordo para pôr fim à guerra, nem sequer abrir o Estreito de Ormuz, nem nada. É declarar vitória sobre as cinzas, sobre as evidências e sobre a flagrante humilhação e dirigir todo o poder do Pentágono para Cuba, ou a Gronelândia, que sempre serão alvos mais fáceis, certamente.
Fantástico. Valeu mesmo a pena matar tanta gente, gastar um bilião de dólares por dia, mergulhar a economia mundial no caos, destruir indústrias e cidades nos países do Golfo e criar condições para que os democratas vençam as intercalares, porque tudo vai mudar no Médio Oriente com esta vitória estrondosa dos Estados Unidos da América.
Estes abstrusos comentários do inquilino da Casa Branca surgiram depois do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, ter declarado que não existem quaisquer negociações em curso com Washington, apesar de Trump ter alegado insistentemente na última semana que o Irão estava envolvido em conversações e a “implorar” por um acordo.
A mentira, ainda por cima grosseira, tem o problema de não sobreviver durante muito tempo à realidade dos factos, e a alegada iniciativa diplomática parece ter sido sujeita ao esquecimento no espaço de uma noite mal dormida, de tal forma que, quando questionado pelos jornalistas na Casa Branca se um esforço diplomático bem-sucedido era um pré-requisito para os EUA terminarem o conflito, Nonsense Donald respondeu assim:
“O Irão não precisa de fazer um acordo, não. Vamos sair muito em breve… talvez daqui a duas semanas, talvez três. Quando sentirmos que foram, durante um longo período de tempo, relegados para a Idade da Pedra e que não serão capazes de desenvolver uma arma nuclear, então iremos embora”.
Mais um objectivo novo desta guerra: “relegar o Irão para a Idade da Pedra”.
Boa sorte, porque a este ritmo Donald Trump corre um risco bem superior de ser relegado para Mar-a-Lago, quando os democratas vencerem as eleições intercalares de Novembro e, com maiorias nas duas câmaras do Congresso, o destituírem rapidamente, e desta vez, ao contrário da palhaçada de 2019 e 2020, com razões de sobra para isso.
E tudo isto numa altura em que os preços da gasolina nos Estados Unidos ultrapassaram a média de 4 dólares por galão (3,8 litros). Mais ou menos o que custava o combustível no apogeu inflaccionário do também desastroso mandato de Joe Biden.
A Europa como bode expiatório.
Com a guerra a correr ao contrário das suas glorificadas expectativas, Donald Trump está agora, claramente, a canalizar os maus fígados resultantes da humilhação a que está a ser sujeito, perante a plateia global, para os “aliados” europeus.
Numa publicação no Truth Social, o presidente dos EUA criticou os países, “como o Reino Unido”, que “recusaram envolver-se na decapitação do Irão”, sugerindo que comprem combustível americano ou se envolvam na guerra do Golfo, afirmando acrescidamente:
“Terão de começar a aprender a lutar por vós próprios, os EUA já não estarão lá para vos ajudar, tal como vocês não estiveram lá para nos ajudar. O Irão foi, essencialmente, dizimado. A parte difícil já passou. Vão buscar o vosso próprio petróleo!”
Dá a sensação que uma das partes mais lesadas, na conclusão da guerra do Golfo, será a Europa.
Anteriormente, o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, também tinha destacado a relutância do Reino Unido em entrar na guerra, afirmando:
“Da última vez que verifiquei, deveria haver uma Marinha Real grande e poderosa que também estivesse preparada para fazer coisas deste tipo”.
Hegseth é tão estúpido como parece e “da última vez que verificou”, verificou mal: a marinha britânica é uma anedota mal contada, da proa até à popa, que não está preparada para “fazer coisas” de tipo algum.
Por seu lado, o pomposo e sonhador secretário da Defesa do Reino Unido, John Healey, respondeu às críticas do presidente americano, insistindo risivelmente, durante uma viagem ao Qatar, que o seu país continuava a ser um aliado fundamental dos EUA. Isto apesar de até se ter dado ao requinte de crueldade de negar ao Pentágono o acesso a uma base aérea estratégica no Indico.
Numa outra publicação no Truth Social, Trump criticou ainda a França por ser “MUITO INÚTIL” (capitulares do próprio), em particular por não permitir que
“aviões com destino a Israel, carregados com equipamento militar, sobrevoassem o território francês”.
O gabinete do Presidente Emmanuel Macron observou que a posição da administração francesa, incluindo a de não autorizar a utilização das suas bases para ataques ao Irão, tinha sido clara desde o início.
“Estamos surpreendidos com este tweet. A França não mudou a sua posição desde o primeiro dia do conflito e confirmámos esta decisão.”
A declaração sugere, bem, que Trump está “a tentar criar uma narrativa de sucesso” ao dizer que a abertura do Estreito de Ormuz não faz parte dos objectivos dos EUA na guerra contra o Irão e acrescenta ainda:
“Os EUA têm a maior e mais poderosa marinha do mundo. Se os EUA não o conseguem, que diferença farão os franceses e outros europeus ao entrar na guerra? O Irão continuará a controlar o Estreito de Ormuz e provavelmente continuará a bombardeá-lo. E querer enviar os iranianos de volta para a ‘Idade da Pedra’ é essencialmente a israelização dos objectivos de guerra dos EUA. É assim que os israelitas conduzem a guerra. Não procuram qualquer objectivo estratégico para além de garantir que os seus vizinhos estão o mais fracos possível e, a cada dois ou três anos, bombardeiam-nos novamente.“
É de tal forma evidente o desnorte da Casa Branca, que até Macron passa por inteligente e o seu aparelho por sensato. O que não é nada fácil, convenhamos.
Mais um porta-aviões para o barulho.
Como se tudo isto não fosse já deveras surrealista, o porta-aviões USS George H. W. Bush partiu de Norfolk, Virgínia, na terça-feira, com destino, presume-se, ao Golfo Pérsico.
O contra-almirante Alexis Walker, comandante do grupo de ataque do porta-aviões da classe Nimitz, não especificou a missão exacta, mas declarou:
“Quem sabe quanto tempo isto vai demorar? Quando a nossa missão à volta do mundo estiver concluída, então voltaremos para casa. Comunicaremos com as nossas famílias conforme for permitido, mas estamos aqui para cumprir uma missão e ficaremos o tempo que for necessário”.
O Vice-Almirante John Gumbleton, Vice-Comandante das Forças da Frota norte-americana, dirigiu-se à tripulação antes da sua partida, dizendo:
“Do Chefe de Operações Navais para baixo, estamos cientes da incerteza sobre o calendário desta operação, que causou ansiedade e frustração. Mas, independentemente do cenário estratégico, vocês estão prontos para a operação”.
Estas devem ser as declarações mais frouxas e temerosas e desinspiradoras da história do almirantado norte-americano e a prova provada que a moral das tropas do Regime Epstein estará muito perto do zero absoluto.
E percebe-se o desânimo. Os porta-aviões norte-americanos são objectos dinossáuricos, alvos fáceis no contexto da guerra assimétrica que se trava no Golfo e com um impacto limitado no teatro das operações, para além do sistemático despejo de bombas que não têm tido qualquer repercussão nos vectores fundamentais do conflito, para além das imensas baixas civis do lado iraniano.
Especula-se que este navio vá substituir o USS Gerald R. Ford, que depois de ter sido sabotado pelos seus próprios marinheiros e atingido por fogo inimigo (a versão oficial, deveras implausível, é que sofreu um incêndio na lavandaria), foi dado como inoperacional e está agora num porto croata, em reparações que lhe permitam um regresso seguro aos EUA.
The USS Gerald Ford, one of the largest U.S. aircraft carriers, will be out of service for two years after being struck by Iran.
It’s definitely not a fire in the laundry room… pic.twitter.com/u4WMN0x0NG
— GBX (@GBX_Press) March 28, 2026
Tudo isto é estúpido e a parte mais estúpida de tudo isto é que isto tudo era absolutamente desnecessário.
Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura
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