Chegámos a um ponto em que o que mais incomoda na retórica de Donald Trump já nem são as constantes, flagrantes e grosseiras mentiras. Neste momento, o que é mais chocante é que o presidente norte-americano já nem sequer está preocupado com o sentido que fazem, ou não, as suas declarações.

Eis um magnífico exemplo da sua dislexia neuronal.

Trump decidiu criticar os países da NATO por não terem tomado quaisquer medidas significativas para ajudar os EUA com o Irão, numa mensagem no Truth Social em que afirma (capitulares zangadas do próprio):

“AS NAÇÕES DA NATO NÃO FIZERAM ABSOLUTAMENTE NADA PARA AJUDAR COM A NAÇÃO LUNÁTICA, AGORA MILITARMENTE DIZIMADA, QUE É O IRÃO. OS EUA NÃO PRECISAM DE NADA DA NATO, MAS ‘NUNCA SE ESQUECERÃO’ DESTE MOMENTO MUITO IMPORTANTE DA HISTÓRIA!”

Bom, se os Estados Unidos não precisam de ajuda, porque é que o inquilino da Casa Branca está tão zangado por não ter sido ajudado? E se o Irão está “militarmente dizimado” porque é que os Estados Unidos, que não precisam de ninguém, precisam de ajuda para derrotar o Irão? E se a operação militar norte-americana foi assim tão rápida e bem sucedida, porque é que este momento é assim tão importante historicamente?

E já agora, só por curiosidade, porque é que “NUNCA SE ESQUECERÃO” foi colocado entre aspas? Estará Trump a citar um dito famoso, um provérbio ou um verso?

 

 

Agora mais a sério: não deixa de ser verdade que a NATO sempre foi uma forma dos países europeus tratarem da sua defesa sem gastarem dinheiro nela (dinheiro que assim sobrou para regalias sociais e cuidados médicos universais e outros luxos do Estado Social que os americanos não têm). Mas também é evidente que os Estados Unidos nunca se importaram de pagar o preço da Aliança, porque esta lhes permitiu, basicamente, fazer da Europa um continente vassalo.

E alguns países europeus, para sua desgraça, já se enfiaram directamente em várias guerras criadas pelos Estados Unidos (Iraque, Afeganistão, Síria, Balcãs) ou indirectamente (Ucrânia, Líbia, Somália).

E de uma maneira geral, mesmo considerando oscilações retóricas, parece sensato que os países da NATO não se queiram envolver numa guerra desnecessária, ilegítima e catastrófica como aquela que a Casa Branca, a mando de Telavive, desencadeou agora no golfo Pérsico, até porque, aqui entre nós, os estados membros europeus não têm capacidade militar para fazer mais que uma triste figura.

Donald Trump alimenta uma retórica de tal forma desvairada, a guerra no Irão é de tal forma injustificável, que até os globalistas europeus, ironicamente, parecem pessoas ajuizadas, que se preocupam com o bem estar dos povos que lideram.

Alguns membros da NATO — incluindo o Reino Unido e a França — estariam a considerar liderar uma “coligação de Ormuz” com o objectivo de proteger a navegação no crucial Estreito, por onde passa grande parte do petróleo e dos fertilizantes do mundo. Mas todos sabemos que, para além das declarações de intenção, pouco mais será concretizado. Se a marinha americana não se arrisca neste momento à proximidade com as águas do Golfo, que outra marinha no Ocidente estará disponível para dar esse passo suicida?

 

 

Na verdade, o pedido de ajuda de Donald Trump é deveras cínico, esperando que outros cumpram o sacrifício que as suas forças não estão se atrevem a cometer.

 

 

E é por isso que muitos  países europeus têm adoptado até um posicionamento mais combativa em relação à administração Trump. O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Friedrich Merz, declarou que a guerra com o Irão “não é uma guerra da NATO”. Pedro Sánchez já mandou o presidente americano dar uma volta ao bilhar grande por várias vezes, Meloni não parece inclinada a aventuras suicidas e a Polónia vai assobiando para o lado.

Seja como for, e independentemente de ter ou não razões para esperar mais solidariedade dos países da NATO, Donald Trump podia tentar que o seu discurso, ou até que as suas acusações, fizessem algum sentido. Podia fingir que há nos seus argumentos um vector minimamente racional.

Outro vector do registo esquizofrénico da Casa Branca é este:

 

 

Portanto: os Estados Unidos iniciaram uma guerra que levou ao fecho do Estreito de Ormuz e agora o objectivo principal dos Estados Unidos é continuar a guerra para reabrir o Estreito de Ormuz, que foi fechado por causa da guerra que os Estados Unidos iniciaram.

É uma guerra ‘de rabo na boca’, que não faz sentido nenhum. Ao ponto de nem sequer ser feita para ser ganha.

A verdade é que o ensandecido presidente americano desistiu de fazer de conta que é um homem sensato e está agora a mostrar a toda a gente quem realmente é: