BREVE ENSAIO REVISIONISTA SOBRE OS PROCESSOS DE RUPTURA AXIOMÁTICA DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL
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TESE: As rupturas políticas, sociais, religiosas e económicas que fracturam o percurso da história do Ocidente não decorreram tanto de valores ideológicos ou morais, como da ganância e da Vontade de Poder das suas elites.
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Leia a primeira parte deste ensaio.
Capítulo VI . Para a posteridade ficou como libertador. No seu tempo, era apenas mais um déspota.

É realmente uma pena, mas Simón Bolívar, o grande libertador da América do Sul, o revolucionário axiomático dos manuais de Che Guevara, Fidel Castro, Lula da Silva e Hugo Chavez, não passou de um aristocrata com manias de nepotismo.
Muito mais parecido com Napoleão – o seu fiel inimigo – do que com Washington – o seu modelo constitucional – Bolívar conseguiu impor-se como ditador em 3 das repúblicas que inaugurou, muito graças a uma tenacidade ímpar na história do homem e a um género raro daquele espírito combativo que deixa exaurida a sintaxe de qualquer biógrafo.
Na verdade, um dos seus documentos mais célebres – o Manifesto de Cartagena – está pejado dos lugares comuns que Jefferson tinha enunciado quarenta anos antes, a não ser, claro está, quando Bolívar desce às questões terrenas: nas entrelinhas, todos percebemos que a revolução também se importava com fenómenos comezinhos como o comércio livre, a cunhagem da moeda, a administração dos dinheiros públicos e a gestão do modelo esclavagista (Bolívar usava frequentemente a libertação de escravos como moeda de troca na obtenção de apoios militares).
Guerreiro persistente mas filósofo sofrível, utilizando sem parcimónia nem originalidade a retórica liberal do seu século, doutrinando o anti-federalismo e a independência dos estados regionais, Bolívar acabou por não resistir à tentação de governar como imperador sobre as nações que hoje conhecemos por Peru, Colômbia, Venezuela e Equador.
Depois de dezenas de campanhas militares com avanços e desgraças, revoluções e contra-revoluções, alianças e traições, vitórias e derrotas, Bolívar acaba por castigar os espanhóis com o golpe de misericórdia de 1824 – e assume controlo absoluto de grande parte do Continente Sul Americano.
El Libertador passa então a aplicar com assaz urgência não os seus ideais, mas as suas ambições, exercendo o poder como um monarca absolutista, protegendo a sua fortuna, a sua Constituição e as suas repúblicas dos males da democracia.
As dificuldades, porém, não tardaram: em 1826 a Grande Colômbia estava já em convulsão com levantamentos populares, manobras subversivas de opositores políticos e descontentamento geral: o homem que sabia qual era a melhor maneira de governar uma república lutava agora para controlar a fúria dos súbditos da sua monarquia.
Bolívar combateu arduamente pela preservação do poder durante mais 4 anos, até que em 1830, quando se preparava para fugir para a Europa, desiste também de lutar contra a tuberculose e morre a 17 de Dezembro.
No leito de morte, temendo talvez o julgamento da História, Bolívar ordena ao seu ajudante de campo que queime todos os seus escritos. Lamentavelmente, não foi obedecido.
Capítulo VII . O que se desmoronou em Outubro de 1917 não foi o império russo. Foi a sua nomenclatura.
Não é preciso nenhum mestrado em História para perceber isto: desde que Pedro o Grande saiu vencedor do conflito com a Suécia em 1714, a Rússia tem existido em permanência como nação imperialista – um status quo que nem Napoleão, nem Hitler, nem Ronald Reagan conseguiram derrubar.
Com a revolução bolchevique as coisas não mudaram na sua essência. Tratou-se fundamentalmente de substituir um regime decadente por outro que desse mais garantias de sobrevivência ao império e o internacionalismo comunista funcionou lindamente como justificação para a conquista do necessário espaço vital.
Czares e Bolcheviques procuraram impor a sua pátria mãe no tecido geo-estratégico do mundo, objectivando a expansão do território imperial e implementando uma pressão máxima sobre as áreas de influência. Uns e outros apoiaram-se numa elite burocrática radical e fortemente militarizada. Uns e outros não hesitavam em fuzilar, deportar, perseguir. Uns e outros promoviam a imobilidade social e o mais niilista despotismo sobre o cidadão. Uns e outros exploraram em proveito próprio as divisões, as misérias e as desgraças da Europa. Uns e outros utilizaram com mestria as virtudes e as perversidades da propaganda e do culto do grande líder: Pedro fundou S. Petersburgo. Os intérpretes da Revolução de Outubro apressaram-se de imediato a chamar-lhe Leninegrado.
O entendimento muito russo da imagem como nomenclatura chega a ser divertido: a famosa foto de Lenine arengando ao proletariado foi perdendo personagens sempre que Estaline matava mais um herói do partido. Na primeira imagem (em cima) ainda vemos Lev Kamenev, Zinoviev e Trotsky. Mas, à medida que o camarada José os enviava para o inferno, os restantes líderes revolucionários foram sendo concomitante e cirurgicamente retirados da cenografia.
Quando Estaline terminou a matança, Lenine ficou, finalmente, a sós com a multidão. Segurando a coroa de Pedro, o Grande.
Capítulo VIII . Em boa verdade, a Revolução dos Cravos devia ser lembrada como o Dia de S. Receber.
O 25 de Abril é uma obra prima da iconografia revolucionária e, bem vistas as coisas, os seus capitães tinham melhores condições para o golpe de estado que Lenine, o inventivo intérprete de Marx, que numa Rússia sem operários optou por fazer a revolução primeiro e fabricar o proletariado depois.
Do dia para a noite, em plena guerra fria, um país europeu, ocidental e colonialista é palco de um sonho tardio de Che Guevara, que inclui: a justa causa anti-fascista, heróis românticos vindos da classe média militar, flores nas metralhadoras, o povo na rua a gritar liberdade, intelectuais a escrever trovas grandiloquentes, exilados regressando em glória, libertação de presos políticos, entrega das colónias aos povos indígenas, nacionalizações, reformas agrárias, enfim, toda a parafernália imagética e toda a praxis revisionista necessária ao triunfo das rupturas regimentais.
O país foi, durante uns tempos, a última fronteira da revolução marxista, local idílico para a esquerda livre que ressacava do Maio de 68 e território estratégico para a esquerda apparatchik do império a leste. Depois da iminência de uma guerra civil, os ânimos nacionais e internacionais acalmaram e Portugal iniciou o seu trajecto de jovem democracia, titubeando pela intensidade dos novos tempos.
É claro que tudo isto se deve à insatisfação com que um certo escalão de oficiais do exército encarava a parcimónia salarial do estado. O carácter avarento e de vistas curtas de um coorporativismo saloio, que alimentava uma país de analfabetos e uma tirania de brandos costumes não tinha nunca, em 48 anos, revoltado a sociedade civil, que ainda nos princípios de Abril de 74 aplaudia com entusiasmo Marcelo Caetano no Estádio do Jamor.
Para além da imensa minoria daqueles que ousavam a cidadania, a clandestinidade, o protesto académico; daqueles que foram perseguidos e torturados, deportados e humilhados; os outros todos deixaram-se calar, deixaram-se estar, assobiaram para o lado, fizerem o devido xixi no devido penico. Durante meio século de lamentável ditadura.
Porém, aqueles que andavam na selva a fugir aos morteiros dos turras para defender uma anacrónica, difusa e, para muitos, incompreensível ideia de Quinto Império, acabaram por perder a paciência. Já Napoleão dizia que sem soldo não há soldados e foi essencialmente por má gestão das carreiras dos quadros intermédios das forças armadas, e apenas subsidiariamente por imperativos de agenda política, que homens magníficos – como Salgueiro Maia, ou medonhos – como Otelo Saraiva de Carvalho, acabaram por oferecer uma promessa de democracia e de liberdade aos portugueses.
52 anos depois, porém, a Terceira República continua a espelhar, teimosamente, os tiques corporativos da Segunda.
Epílogo . É triste e preocupante, mas a história do Ocidente está repleta de ilusões.

A argamassa ensanguentada a que pomposamente chamamos História é fundamentalmente fabricada de vilanias. O homem é um ser moralmente baixo que vai arrancando das eras uns raros momentos de glória, expressos sobretudo através das artes e da filosofia, mas contrariados quase sempre pela violência, a ganância e a sede de poder.
Corroboram esta tese factos materiais abundantes: as centenas de milhar de pessoas que morreram na Europa medieval só para que fosse imposto o cânone da natureza do Espírito Santo; uma guerra que durou 116 anos, pelejada apenas por causa da ambição de duas famílias; o horror das guerras fronteiriças da França revolucionária, as incontáveis vítimas das invasões napoleónicas e da orgia fratricida da Guerra Civil Americana; a chacina inútil nas trincheiras de Flandres, a barbaridade que se ergueu sob as ruínas de Estalinegrado ou Dresden, a demência da guilhotina, a crueldade da fogueira, a vertigem da ganância, da inveja e do ódio que infestam a grande novela do Sapiens.
Apenas se soubermos avaliar o homem pela sua justa medida de predador, estaremos preparados para perceber que – nas rupturas regimentais da civilização ocidental – o que nos é vendido como virtude, deriva invariavelmente do instinto da caça ou da ambição imperial, do interesse comezinho ou da insanidade colectiva, da malevolência obstinada ou da mais proverbial vaidade, da intriga perversa ou da cobiça imensa, mas, fundamentalmente,de um facto velho como as barbas do profeta: o poder absoluto corrompe absolutamente, e as elites ocidentais, ontem como hoje, procuraram e procuram invariavelmente fortalecer a lógica totalitária que é motor e produto dessa corrupção, que deve ser vista como um fenómeno espiritual, mais do que político-social.
Esta nano-história procurou revelar os disfarces, os equívocos e as fraudes epistemológicas co-relativas aos eventos que mais profundamente afectaram a substância conceptual e orgânica da civilização que habitamos: donos de escravos que redigem constituições para o Homem Livre, carrascos que matam em nome da fraternidade, déspotas que travam a batalha da dignidade humana, capitalistas que pregam a igualdade, comunistas que reinam por dinastia, padres que cismam por um punhado de sestércios, monstros que governam sob a coroa da perfeição, mercenários que combatem pelo exército de Deus.
Todas as mentiras, enfim, do Homem Antipático.
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Bibliografia
As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia – Senhores e camponeses na construção do mundo moderno
Barrington Moore Júnior | Edições Cosmos – 1967
Quem Governa? Uma análise histórico-política do tema da elite
António Marques Beça | Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – 1993
Gramática das Civilizações
Fernand Braudel | Teorema – 1987
O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II
Fernand Braudel | Dom Quixote – 1983
História Económica Mundial
V. Vazquez de Prada | Civilização – 1986
A revolução Comercial da Idade Média
Robert S. Lopez | Presença – 1976
Diplomacia
Henry Kissinger | Gradiva – 1996
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