A creditar a propaganda de Silicon Valley e os respectivos servos da imprensa corporativa, é fácil ficar com a impressão de que todos os investidores, banqueiros e analistas financeiros estão apaixonados pela IA e que estas tecnologias contribuem loucamente para o crescimento económico das nações e a produtividade das empresas. No entanto, esta visão simplificada e deturpada obscurece uma história mais complexa: a economia dos EUA, por exemplo, não está onde as empresas tecnológicas dizem que está.

De um modo geral, as empresas norte-americanas investiram desenfreadamente na automação, destinando 410 biliões de dólares em IA só em 2025 e, no processo, desempregando multidões de trabalhadores. O mito é que está em desenvolvimento um milagre de produtividade. Obviamente, a IA deveria fazer com que todos trabalhassem mais rapidamente, reduzindo a necessidade de mão-de-obra humana, uma vez que menos funcionários fariam mais, poupando muito dinheiro às empresas.

Pelo menos, é essa a narrativa no mundo corporativo. No sector bancário, porém, há quem esteja a contar outra história. Depois de meses de alertas cuidadosamente elaborados por várias entidades financeiras sobre os perigos de investir demasiado em IA, o todo poderoso Goldman Sachs acaba de deixar cair uma bomba: os analistas do banco afirmam que a IA não teve qualquer impacto no crescimento económico e na produtividade dos EUA até 2025.

A desconexão entre o investimento em IA e o crescimento resume-se a duas questões estruturais. A primeira questão é geográfica: quando as empresas americanas compram chips a Taiwan, por exemplo, esse dinheiro impulsiona a economia de Taiwan, e não a dos EUA. A segunda é a produtividade. A inteligência artificial pode tornar alguns trabalhadores mais rápidos, sem dúvida, mas esta velocidade não torna automaticamente as cadeias de abastecimento mais eficientes. Até agora, estes ganhos de produtividade estão em grande parte confinados aos muros das empresas (e aos lucros dos accionistas, que empregam menos pessoas).

Esta apreciação negativa do impacto económico da IA ​​​​representa uma ruptura drástica até com as análises mais cépticas de 2025, em que mesmo os mais pessimistas atribuíam à tecnologia o mérito de, sozinha, manter o crescimento do PIB americano. Embora o mercado em geral ainda não tenha concordado com a visão da Goldman Sachs – prevê-se que os investidores gastem 660 biliões de dólares em IA até ao fim de 2026 -, um número crescente de analistas começa a questionar a pertinência destes investimentos.

Dario Perkins, responsável de macroeconomia da consultora TS Lombard, concorda que os efeitos da IA ​​na produtividade são inexistentes, mesmo com os despedimentos em massa a afectar a força de trabalho. Recentemente, foi citado no Financial Times, argumentando que

“não há evidências de que a implementação da IA ​​esteja a impulsionar a produtividade nos EUA ou a prejudicar o mercado de trabalho. Embora a produtividade nos EUA tenha sido forte e a contratação fraca, a nossa análise constata que as forças cíclicas – e não a automação – são as responsáveis.”

O argumento é discutível no que se relaciona com o emprego (só a Amazon vai despedir meio milhão de funcionários a propósito do seu programa de automação), e os ganhos de produtividade de que fala Perkins limitam-se ao facto das empresas estarem a contratar cada vez menos pessoas, mas a advertência sobre a inocuidade das tecnologias de IA não deixa de ser surpreendente.

Entretanto, o ex-regulador bancário da Reserva Federal, Brian Peters, escreveu recentemente que,

“embora as capacidades da IA ​​sejam extraordinárias e a alocação de capital sem precedentes, o retorno económico a curto prazo é, no mínimo, questionável”.

Este mês, uma sondagem da NBER revelou que milhares de directores executivos de empresas em todo o mundo não observam um impacto significativo da inteligência artificial no mercado de trabalho ou na produtividade.

 

 

Somando dados estatísticos ao argumento, os economistas do National Bureau of Economic Research que estudam os efeitos da IA ​​na eficiência empresarial publicaram recentemente um paper identificando o actual “paradoxo da produtividade” nestes termos:

“Os ganhos de produtividade percebidos são superiores aos ganhos de produtividade medidos, reflectindo provavelmente um atraso na obtenção de receitas”.

As implicações disto tudo são dramáticas. Uma explosão de investimento de centenas de biliões de dólares, segundo os cálculos da Goldman Sachs, não gerou praticamente nenhum retorno económico mensurável para os EUA. A questão que se coloca agora, em 2026, é se mais 660 biliões em investimentos na mesma área produzirão algo para além de uma bolha ainda maior no sector da inteligência artificial.

E de um acréscimo de vídeos manhosos no Youtube.