O agnóstico que precisava da religião.
Partiu um dos grandes pensadores do nosso tempo. Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, herdeiro da tradição iluminista de Immanuel Kant, dedicou a sua vida a uma causa tão simples de enunciar quanto difícil de concretizar: tornar o mundo um pouco melhor. «Considero o esforço de tornar o mundo um pouquinho melhor um motivo nada desprezível», afirmou numa das suas frases mais marcantes…
Habermas foi, antes de mais, um teórico da democracia. Para ele, esta não se reduzia à tirania das maiorias, mas era antes uma busca permanente por melhores fundamentos. Com a sua obra magna Teoria da Ação Comunicativa (1981), fundou a chamada Segunda Escola de Frankfurt e construiu uma teoria da democracia assente num princípio aparentemente simples: os seres humanos, enquanto seres racionais, deveriam deixar-se guiar pela «coação sem coação do melhor argumento», isto é, pela força persuasiva da razão e não pela força do poder…
Já nos últimos anos da sua vida, voltou a alertar para os perigos da nova comunicação digital. As redes sociais, representam, segundo ele, «uma nova mudança estrutural da esfera pública», uma transformação tão profunda como a que a imprensa operou nos séculos anteriores, mas desta vez potencialmente corrosiva: ao fragmentar o discurso, ao alimentar câmaras de eco e ao privilegiar a emoção sobre o argumento, colocam em risco os alicerces do debate democrático que tanto primava.
Um dos aspectos mais surpreendentes e menos conhecidos do pensamento tardio de Habermas é a sua relação com a religião, tanto mais significativa porque ele próprio se descreveu, num célebre debate com o então cardeal Joseph Ratzinger (futuro Bento XVI), como «religiosamente desmusical». A metáfora é eloquente: como alguém sem ouvido para a música pode reconhecer o seu valor e até precisar dela.
Habermas, agnóstico convicto formado na tradição racionalista, chegou a uma conclusão que desafiou muitos dos seus seguidores: a razão secular, por si só, pode não ser suficiente para sustentar os laços morais que uma sociedade democrática exige. Ao longo dos seus últimos anos, foi procurando cada vez mais «impulsos morais para além da pura razão», reconhecendo nas tradições religiosas um reservatório de sentido, de solidariedade e de motivação ética que as filosofias puramente laicas não conseguirão substituir.
É por isso que, no outono da sua vida, endereçou às igrejas uma recomendação invulgar vinda de um ateu: que não cedessem à tentação de se tornarem demasiado mundanas, de diluírem a sua linguagem própria para serem mais aceitáveis no espaço público secular. Pelo contrário, Habermas defendia que as comunidades religiosas prestam um serviço inestimável à democracia precisamente quando continuam a falar a partir dos seus impulsos metafísicos, quando mantêm viva a linguagem da dignidade absoluta, da esperança, da responsabilidade perante o outro e da resistência ao que é meramente útil ou eficiente.
Esta posição, por vezes chamada de «pós-secular», não implica qualquer abandono do Estado laico nem da separação entre a Igreja e a política. Significa antes o reconhecimento de que numa sociedade plural, o pensamento religioso é um interlocutor legítimo e necessário no debate público, desde que traduza os seus argumentos de forma acessível a todos os cidadãos. As igrejas que renunciam à sua profundidade espiritual para se tornarem mais fáceis de aceitar perdem precisamente aquilo que as torna indispensáveis…
Num tempo em que o espaço público está cada vez mais colonizado pelo ruído, pela desinformação e pela lógica do espectáculo, a sua voz faz-nos uma grande falta. O melhor tributo que lhe podemos prestar é levar a sério o que ele nunca deixou de nos pedir: que argumentemos bem, que escutemos melhor, e que não desistamos de tentar.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
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