Sun Tzu foi um general, estratega militar e filósofo chinês que viveu durante o Período das Primaveras e Outonos (aproximadamente entre 544–496 a.C., embora as datas exactas sejam debatidas e haja quem situe sua vida no Período dos Reinos Combatentes, um pouco mais tarde).
Pouco se sabe com certeza factual sobre a sua vida. Os detalhes biográficos chegaram-nos principalmente de fontes como o historiador Sima Qian (século II a.C.), que o descreve como natural do estado de Qi. Mas segundo a tradição, Sun Tzu serviu como general e conselheiro militar do rei Ho Lu, do estado de Wu, no sul da China. Uma famosa anedota conta que, para provar as suas capacidades ao seu rei, que sobre elas se mostrava céptico, Sun Tzu treinou as concubinas do palácio como soldados – executando duas delas quando desobedeceram às suas ordens – e depois liderou vitórias militares impressionantes contra estados rivais.
A ele é atribuída a autoria de A Arte da Guerra, um tratado militar curto mas extremamente influente, composto por 13 capítulos. Escrito por volta do século V a.C., o livro não é apenas um manual de tácticas de batalha, mas uma profunda reflexão sobre estratégia, psicologia, liderança, inteligência e filosofia.
A Arte da Guerra está para a cultura militar oriental como o tratado “Da Guerra” de Carl von Clausewitz, para a cultura militar ocidental.
Ideias centrais
Sun Tzu sustenta que a arte da guerra consiste em subjugar o inimigo sem que seja sequer necessário lutar (ou sem desnecessário derramamento de sangue), através de diplomacia, da ilusão, da espionagem, da superioridade estratégica e do conhecimento das fragilidades e fortalezas do inimigo, tanto como das nossas. Algumas das suas máximas mais célebres reflectem essa filosofia que defendia a razão sobre a força bruta:
“Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perigo de derrota.”
“Toda guerra baseia-se no engano.”
“A excelência suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem combater.”
A obra transcendeu há muito o contexto da caserna: é estudada em academias militares, mas também em cursos de economia e marketing, sendo as suas regras aplicadas por políticos, desportistas e líderes empresariais. Influenciou líderes políticos como Mao Zedong, generais ocidentais como George S. Patton, e continua a ser leitura obrigatória em muitas escolas de negócios e estratégia.
Em resumo, A Arte da Guerra não é só o mais antigo e famoso tratado militar da história, é uma obra-prima sobre como vencer em situações de conflito (seja no campo de batalha, nos negócios ou na vida), privilegiando a inteligência, a preparação e a economia de forças acima da aplicação indiscriminada da violência.
A Guerra no Irão como antítese dos ensinamentos de Sun Tzu.
Fundamentando a análise no gráfico em baixo, que sintetiza os princípios fundamentais da Arte da Guerra, podemos explorar teoricamente a circunstância militar da coligação Epstein no contexto da guerra do Golfo que agora decorre.
Planeamento: se alguma coisa é óbvia nesta guerra, é que não houve um. Os Estados Unidos – e estranhamente, Israel – não estavam preparados para a resiliência do regime iraniano, não estavam preparados para o fecho do Estreito de Ormuz (consequência óbvia do seu ataque para qualquer pessoa com dois neurónios funcionais), não estavam preparados para aquilo que parece cada vez mais uma guerra de atrito (principalmente no que diz respeito à escala de munições necessárias), não estavam preparados para a capacidade retaliatória do regime islâmico, não estavam preparados para o impacto das suas acções nos mercados energéticos, não estavam preparados para defender os seus aliados do Golfo Pérsico e não estavam preparados para a reacção da comunidade internacional e da opinião pública global. E é por isso que vemos todos os dias a Casa Branca a alterar as justificações para esta guerra, tanto como os objectivos que terão presidido ao seu desencadeamento.
Mas talvez o mais preocupante sinal da falta de planeamento desta guerra é que é agora evidente que o eixo Epstein não tem sequer um plano B, uma forma de sair airosamente do conflito, respondendo às adversidades no teatro das operações apenas com a intensificação da violência bélica, numa escalada que promoverá o cometimento de crimes de guerra, uns atrás dos outros.
Por último, estamos ainda sem saber se as autoridades da coligação agressora estão preparadas para as baixas militares (no caso dos EUA) e as baixas civis (no caso de Israel, que está ser quotidianamente bombardeado) que este conflito potencialmente traduzirá e que poderão ter impactos significativos na coesão interna e na vida política das duas nações.
Eficiência na prossecução da guerra: os Estados Unidos têm uma força militar gigantesca, mas anacrónica e ineficiente face aos desafios do confronto bélico no século XXI. O regime iraniano usa drones de 30.000 dólares a unidade que são interceptados por sistemas de defesa anti-aérea de custo unitário que ronda frequentemente os cinco a dez milhões de dólares. Os porta-aviões norte-americanos são “patos parados” no Mediterrâneo e no Mar Arábico, que podem ser afundados por mísseis hiopersónicos do arsenal iraniano ou danificados por projecteis e drones de tecnologia relativamente primária.
Os Estados Unidos estão a gastar um bilião de dólares por dia nesta guerra. Se o conflito se estender no tempo, o impacto económico será tremendo.
Conhecimento do Terreno: O Irão é um país de grande escala territorial e demográfica, com um terreno acidentado e inóspito, salteado de grandes cidades, densamente povoadas (Teerão tem dez milhões de habitantes e uma área semelhante a Nova Iorque). Qualquer operação no interior do seu território será um pesadelo operacional e logístico.
Por outro lado, o Estreito de Ormuz é dominado, na sua costa leste (território iraniano) por uma cordilheira de montanhas que oferece aos persas uma posição estratégica ideal e praticamente inexpugnável. A capital do País, no seu extremo norte, não permite um acesso directo ao inimigo, já que as forças do eixo Epstein não controlam o Mar Cáspio.
O Contra já publicou um texto dedicado apenas a esta variável, pelo que não vale a pena estarmos a aprofundá-la agora. Mas será suficiente afirmar que nem americanos nem israelitas têm as condições geográficas a seu favor, enquanto o Irão luta em casa contra um inimigo que, no caso do Pentágono, combate a 10.000 quilómetros da pátria.
Mobilização e colocação efectiva de tropas e equipamento militar: Também aqui o regime iraniano está em vantagem, precisamente porque as suas forças estão bem integradas e posicionadas no teatro das operações e pode tirar partido do ‘factor casa’, para além de contar com milícias infiltradas em territórios chave da região.
O Irão está a activar a sua milícia no Líbano, – o Hezbolah – tirando partido da proximidade geográfica deste pequeno país com Israel para atingir o inimigo com mísseis relativamente baratos, mas eficazes principalmente no vector da guerra psicológica.
No Iémen, os Houthis, uma tribo xiita de guerreiros rebeldes que continua fiel a Teerão, podem também constituir uma falange importante na protecção do Estreito de Ormuz, dada a localização geográfica do seu reduto (sudoeste da Península Arábica, precisamente na convergência entre o Estreito e o Mar Arábico).
Isto enquanto as forças da operação Epstein Fury se diluem entre o Mediterrâneo, o Mar Arábico, as bases militares americanas na costa ocidental do Golfo Pérsico e o território israelita.
Os paleolíticos e monstruosos navios da marinha norte-americana, construídos para o jogo de intimidação da Guerra Fria e não para as realidades assimétricas do actual conflito, têm que se manter suficientemente afastados do território inimigo para não serem alvos fáceis, e as bases militares do Pentágono na região, bem como os seus equipamentos de radar, foram entretanto danificados ou completamente destruídos.
Acresce que o assassinato do líder supremo iraniano, e o massacre de mais de 150 crianças na escola feminina de Minab por bombardeamentos americanos logo no início do conflito, radicalizaram a população iraniana, que será agora muito mais facilmente mobilizável para resistir à agressão e lutar pelo seu país.
Ao contrário, é já evidente a divisão interna sobre a justificação e a pertinência desta guerra nos Estados Unidos, mesmo no seio de uma boa parte do eleitorado que conduziu Trump a um segundo mandato presidencial. A mobilização dos americanos para o serviço militar, incluindo a hipótese de recrutamento obrigatório, será inevitavelmente problemática na América. E a resiliência da população israelita, bem como a sua predisposição psicológica para uma guerra de longa duração, está ainda por determinar.
Fortalezas e fragilidades: Como já foi afirmado, a coligação EUA/Israel subvalorizou a capacidade bélica e a resiliência do inimigo, parece ignorar as dificuldades geofísicas e demográficas do terreno e terá, aparentemente, um arsenal mais debilitado do que as forças iranianas, que há muitas décadas se preparam e armam para este conflito. Tudo o que o Irão o tem que fazer, para sair vitorioso, é sobreviver. Mas a vitória do eixo Epstein passa por uma mudança de regime em Teerão, que, neste momento parece só possível com uma invasão terrestre, possibilidade que, como já foi mencionado, implica brutais problemas de ordem operacional e logística.
As estações da dessalinização dos países do Golfo, que produzem uma grande percentagem de água potável para as populações da península arábica, são alvos indefensáveis que o Irão ainda não atacou mas que pode destruir quando entender, criando um problema gravíssimo na região.
Da mesma forma, as bases militares americanas na região não foram construídas para serem defendidas no contexto de uma guerra assimétrica, mas como símbolos do poder imperial de Washington, e são alvos vulneráveis perante a capacidade balística de Teerão.
Acresce que as fragilidades do bloco sionista-americano não são apenas militares (operacionais e logísticas, já referidas), mas políticas e económicas, dada a crise energética que a guerra espoletou e as divisões internas sobre a legitimidade desta agressão, principalmente nos EUA.
Na verdade, os Estados Unidos parecem caminhar para um isolamento no contexto da comunidade internacional, com os aliados europeus e asiáticos a recusarem solicitações de ajuda por parte da administração Trump e os países do Golfo, que vivem da indústria petrolífera e turística, a serem seriamente atingidos nessas duas vertentes pela retaliação iraniana, sem que os EUA consigam proteger esses territórios aliados.
Integração e manobrabilidade: Como já enunciámos, as forças do eixo Epstein não estão bem integradas no teatro das operações, encontrando-se dispersas na extensa área entre o Mediterrâneo e o Mar Arábico. E a sua capacidade de manobra é também limitada, pelo menos enquanto a operação não se estender para uma invasão terrestre.
Espionagem, inteligência e terrorismo: Este é um ponto que, no princípio da acção militar, parecia favorecer as forças da aliança EUA/Israel. Semanas antes da guerra ter sido espoletada, foram registados claros sinais de que a Mossad e a CIA estavam a conseguir mobilizar a dissidência interna no Irão, apesar da feroz repressão a que foi de pronto submetida pelas autoridades. Logo no início da operação, a decapitação do regime, só possível graças a precisas informações de inteligência, parecia também estar a ser bem sucedida. Mas com o passar dos dias, percebeu-se que as baixas infligidas ao inimigo não eram suficientes para a sua claudicação e que a população civil não estava a responder às expectativas de sublevação de americanos e sionistas. O Irão não é a Venezuela e os serviços secretos do regime Epstein não conseguiram subornar as elites políticas e militares persas como tinham feito no Caribe.
O Irão, no entanto, poderá ter células terroristas infiltradas no Ocidente, se bem que até agora ainda não as tenha activado.
Estratégias multifacetadas: Do lado iraniano a estratégia é dual. Por um lado, retaliar convencionalmente contra posições do inimigo, mas sem utilizar os seus recursos balísticos mais devastadores. Por outro, desenvolver eixos de guerra assimétrica, fechando o Estreito de Ormuz e bombardeando os países do Golfo que são aliados dos EUA, procurando criar pressão internacional sobre a Casa Branca.
Quanto ao eixo Epstein, a estratégia tem sido uma única: massificar bombardeamentos até que o regime inimigo se desintegre.
Nos dois casos, as estratégias podem sofrer alterações. A aliança pode decidir-se por uma invasão terrestre, enquanto as autoridades iranianas, se levadas ao desespero de causa, poderão espoletar as suas armas de maior capacidade destruidora, tanto sobre alvos convencionais (porta-aviões, por exemplo) como sobre alvos assimétricos (infraestruturas industriais, áreas civis, hotéis nos países do Golfo).
Movimentações eficientes: Tanto num caso como noutro, este ensinamento de Sun Tsu não tem sido seguido. Os iranianos não têm por que alterar as suas posições no teatro de operações. No caso do Pentágono, as movimentações mais significativas que tem feito são as que passam por conduzir mais tropas e equipamento para o Médio Oriente, mesmo sacrificando a sua presença no Pacífico, já que está neste momento a transportar tropas, sistemas de defesa anti-míssil e meios aéreos da Coreia do Sul e do Japão para o Golfo. A eficiência destas movimentações só poderá ser avaliada mais à frente no tempo, mas será justo presumir que os referidos aliados no Pacífico estão a encarar esse trânsito com preocupação.
Diplomacia, argúcia e pensamento estratégico: Enquanto o Irão procura reforçar as suas relações com a China e a Rússia, e parece seguir uma estratégia há muito ponderada e delineada, os Estados Unidos parecem cada vez mais isolados e a administração Trump tem demonstrado recorrentemente que usa a diplomacia não para tentar a paz, mas para criar condições favoráveis para fazer a guerra, como foi evidente nos sucessivos casos em que chama adversários para a mesa das negociações só para os atacar enquanto essas conversações decorrem.
Como já foi enunciado, o regime Epstein não parece ter uma estratégia bem delineada, vivendo do improviso militar e retórico, e não mostrou até agora qualquer predisposição para a criatividade ou o pensamento disruptivo (para além do infame comportamento diplomático) na forma como tem conduzido as hostilidades.
Disposição e variabilidade táctica: as forças do eixo EUA/Israel parecem mostrar-se mais eficazes no ataque do que na defesa das suas posições, como é ilustrado pelos bombardeamentos que estão a atingir Telavive e as bases militares americanas no Golfo, sem que mostrem grande versatilidade operacional, continuando a apostar tudo nas operações de bombardeamento por mísseis e aviação militar.
Ao contrário, o Irão está necessariamente concentrado na defesa e no ataque, porque se trata de um conflito de natureza existencial para a república islâmica, diversificando a sua acção em vectores militares, políticos e económicos.
Aproveitamento de variáveis locais: o aproveitamento de circunstâncias climáticas, elementos naturais e especificidades regionais não tem sido até agora claramente observado na acção do Regime Epstein, talvez excluindo o bombardeamento da ilha de Khark, onde os iranianos têm uma importante infraestrutura de distribuição petrolífera, que é difícil de proteger. A probabilidade do Pentágono ocupar a ilha com forças terrestres é agora alta, mas será depois também uma posição complicada de defender, porque a ilha dista apenas 20 milhas da costa iraniana, que se eleva abruptamente numa cordilheira montanhosa de onde os iranianos podem atingir as tropas americanas com facilidade.
O regime persa parece estar a tirar partido das condições do terreno e de complexos subterrâneos para manter as suas forças e recursos a salvo dos bombardeamentos inimigos, embora seja difícil factualizar a taxa de sucesso dessa aparente impenetrabilidade.
Resumindo e concluindo.
Parece evidente que os ensinamentos de Sun Tzu compaginam mais com o comportamento do regime iraniano do que com as acções do eixo Epstein. Em primeiro lugar porque esta guerra não foi provocada pelo Irão e prejudica muito mais que beneficia todos os envolvidos, sendo certo que se trata de um conflito de impacto global, mesmo que neste momento seja travado apenas por três países.
Assim sendo, de acordo com a análise agora desenvolvida e a creditarmos a assertividade da filosofia do autor clássico chinês, a teocracia persa é capaz de ter boas hipóteses de sobreviver a este conflito, confirmando as previsões de um outro ilustre mestre de estratégia chinês, o contemporâneo professor Jiang Xueqin, que prevê que os Estados Unidos vão sair vencidos desta guerra que em má hora inventaram.
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