“Deus criou a guerra para que os americanos aprendam geografia”.

Mark Twain

 

Dá a sensação que a opinião pública no Ocidente, e principalmente a claque MAGA nos EUA, não tem noção da dimensão geográfica e demográfica do Irão.

Para dar uma ideia da escala demográfica, basta dizer que a população do Irão é mais do dobro (mais de 90 milhões de pessoas) da do vizinho Iraque, que os EUA levaram duas décadas para ocupar.

O Irão tem também o tamanho de quase metade do continente europeu.

A verdadeira dimensão do país é crucial para tentar visualizar o que poderá significar uma escalada militar americana, dado que a Casa Branca de Trump não descartou o envio de tropas americanas para o terreno, dado o impasse da Operação Epstein Fury em curso.

A Rússia está há quatro anos investida na sua operação militar na Ucrânia. O Irão ultrapassa a Ucrânia em tamanho e tem mais do dobro da sua população.

 

 

E eis a extensão territorial do Irão sobreposta ao continente europeu.

 

 

E aqui a dimensão do Irão versus Alasca (com os EUA continentais para comparação). Imagine uma guerra que abrangesse quase um terço dos Estados Unidos continentais, ou uma força externa a tentar pacificar uma população de 90 milhões de pessoas dentro desta vasta geografia.

 

 

O Irão e o Alasca são semelhantes em extensão territorial:

Alasca: 1,723 milhões de km² (cerca de 17,4% dos EUA)
Irão: 1,648 milhões de km² (cerca de 16,7% dos EUA)
EUA: 9,867 milhões de km² 3.810.000 mi²

Outra perspectiva: o Irão é muito maior do que o Texas, que é o maio estado continental dos EUA.

 

 

É também significativamente maior do que o Iraque.

É importante destacar que a guerra mais sangrenta do Médio Oriente na era moderna foi a Guerra Irão-Iraque. De 1980 a 1988, estes inimigos, que partilhavam uma fronteira comum, travaram uma guerra terrestre e de artilharia que terminou num impasse. Foi uma guerra de atrito absolutamente desastrosa, e, nessa altura, os Estados Unidos chegaram a apoiar secretamente o Iraque sob o comando de Saddam Hussein, de forma a enfraquecer o Irão.

Mas o Irão persistiu perante essa adversidade, o que dá uma ideia do que seria capaz de suportar ao enfrentar uma guerra pela sua própria sobrevivência e existência contra os EUA e Israel. E no seu território.

O número de baixas na Guerra Irão-Iraque varia entre um e dois milhões. O número de mortos de ambos os lados foi estimado em meio milhão, tendo o Irão sofrido as maiores perdas. Estima-se que entre 50.000 e 100.000 curdos tenham sido mortos pelas forças iraquianas durante a série de campanhas realizadas em 1988.

 

 

Depois, há que considerar a rede de grandes cidades iranianas. A dimensão de Teerão é comparável à da cidade de Nova Iorque. Qualquer invasão terrestre exige uma guerra urbana exaustiva e desgastante, incluindo a limpeza de bairros e edifícios por tropas de infantaria.

 

 

Muitos veteranos americanos da guerra do Iraque contam histórias de operações extenuantes de limpeza de edifícios em locais como Bagdad ou Fallujah. Limpar cuidadosa e sistematicamente um único edifício de grandes dimensões pode demorar horas. Os veteranos dos fuzileiros navais (marines) dizem que a limpeza de apartamentos e repartições de grandes edifícios é a tarefa mais arriscada e física e psicologicamente mais exigente para qualquer soldado de infantaria.

A capital iraniana tem uma população de quase 10 milhões de habitantes, enquanto a área metropolitana tem cerca de 16 milhões de pessoas.

 

 

Como os líderes militares dos EUA e de Israel sabem muito bem (ou deveriam saber), o Iraque mergulhou no caos sectário logo após a invasão americana de 2003, e um cenário étnico semelhante poderá desenrolar-se no Irão, embora o povo persa tenha uma maior unidade nacional em comparação com o vizinho Iraque.

 

 

A CIA e a Mossad já estão a explorar a possibilidade de separar uma das grandes minorias étnicas do Irão – os curdos. Acontece que o Irão é um país extremamente acidentado, e o extremo noroeste, de maioria curda, está separado do resto do território por terrenos montanhosos e rochosos, muito difíceis de ultrapassar, principalmente se pensarmos na maquinaria militar que teria que transitar rumo a Este.

Isto significa que qualquer tentativa de iniciar algum tipo de guerra civil terrestre ou agitação contra o Estado iraniano através de grupos apoiados pelos curdos seria certamente difícil, lenta e desgastante – e o terreno poderia favorecer as forças de Teerão.

 

 

E para além de tudo isto, as tropas americanas teriam, como o ContraCultura já documentou, enormes dificuldades só para colocar tropas no Irão.

Como os EUA não têm acesso ao Irão pelo norte, e as suas bases nos países do Golfo estão destruídas ou não têm capacidade para servirem de trampolim para uma operação desta natureza, as suas tropas teriam que entrar pelo ocidente, atravessar a Síria e o Iraque (ou uma boa parte da Turquia) para chegar ao Irão. Até porque o número de efectivos, estimado em meio milhão, que teria que ser mobilizado para a invasão do país invalida, em princípio, um transporte aéreo das tropas.

E depois, ainda teriam que cumprir uma longa travessia em território inimigo para chegar a Teerão. Entrando pelo sul, teriam que enfrentar o fogo de houthis e iranianos no Golfo Pérsico, desembarcar em território inimigo e enfrentar depois um longo percurso, em constante combate, entre cadeias montanhosas e vales inóspitos, até à capital do país.

 

 

Só o apoio logístico a uma missão destas é de complicação transcendente. Principalmente quando os soldados americanos iriam combater a 10.000 quilómetros do seu país. Já para não falar no número de efectivos que teriam que ser recrutados para esta odisseia de trevas (há quem estime em meio milhão), e do correspondente volume de baixas, que seria por certo insustentável.

 

 

Uma operação desta natureza é na verdade impensável, para qualquer pessoa com um neurónio a funcionar. Resta saber se na Casa Branca e no Pentágono alguém é capaz de um qualquer exercício racional. Isto partindo do princípio que esta guerra foi feita para ser ganha, que é uma premissa muito discutível.