A lição de Jiang Xueqin que deixamos no fim deste texto é uma coisa do outro mundo. Nada mais nada menos que uma teoria de convergência entre várias profecias escatológicas do Ocidente e do Médio Oriente, a saber: a zoroastriana (de Zaratustra), a judaica, a protestante (do cristianismo sionista, no poder actualmente em Washington), a maçónica, a católica e a ortodoxa.
A tese do professor-profeta é a de que todas estas escatologias convergem numa plataforma de poder global, que irá conduzir à edificação do Terceiro Templo de Jerusalém e à deflagração da enigmática e indecifrável guerra de Gog e Magog, a última guerra antes do messiânico império de Deus, ou segunda vinda de Cristo, ou ainda, se quiserem, o fim da História.
O que é aterrador no raciocínio de Xuequin, é que todas as versões escatológicas aqui enunciadas trabalham efectivamente para o mesmo fim do mundo, independentemente da diversidade das suas profecias e interpretações das respectivas escrituras sagradas ou visões apocalípticas.
O professor está convicto que a actual guerra com o Irão vai resultar na posterior guerra de Gog e Magog e assim sucessivamente até ao Armagedão. Podemos concordar ou não com ele, mas convém recordar que este homem tem estado certo desde que iniciou o seu percurso como mestre em história preditiva e que adivinhou, por exemplo, que Trump faria a guerra com a república dos aiatolás mesmo antes do magnata de Queens ter sido eleito.
Um detalhe deveras interessante: à luz da interpretação das várias escatologias analisadas neste sistema teórico, a China e os Estados Unidos não serão relevantes nos últimos estágios da convergência escatológica, ou seja: quando se der a derradeira Gog e Magog, estas nações já nem sequer farão parte do mapa geopolítico, ou pelo menos não terão nele um papel decisivo.
No caso norte-americano a previsão de Xuequin é prosaica: a guerra civil. Mas talvez porque não se queira meter em sarilhos com o regime que vigora no seu país de origem e onde neste momento exerce o seu magistério, o professor não alvitra razões para a queda específica do ‘Império do Meio’.
Alvitra o Contra: serão económicas e não políticas.
Como resultado de tudo isto, o professor-profeta prediz, relativamente à guerra agora espoletada contra o Irão, que os Estados Unidos vão colocar ‘botas no terreno’, o que por sua vez implica um recrutamento militar obrigatório que vai conduzir necessariamente à guerra civil na federação, porque a faixa etária recrutável não está disponível para o sacrifício em nome de valores morais nenhuns (e mesmo que valores alguns existissem, não estaria disponível na mesma).
Depois, Xuequin prevê que a invasão terrestre do Irão será mal sucedida (neste específico ponto, não é preciso ser um adivinho dotado para antever a catástrofe), que os Estados Unidos perdem a guerra e as unidades militares do CENTCOM (comando das forças norte-americanas no Médio Oriente) retiram para Israel (porque não têm como regressar ou porque nesta altura não haverá nação para onde voltar?).
Acresce que os países do Golfo vão no processo entrar em colapso económico, o que serve perfeitamente os interesses sionistas, no sentido de terem condições para estabelecer finalmente a profecia bíblica do ‘Grande Israel’, que se estende por todo o Médio Oriente, entre o Egipto e o sudeste da Turquia.
O professor antecipa também e necessariamente a entrada na presente guerra da Turquia e da Arábia Saudita, porque na sua opinião o conflito está a ser manipulado de forma a enfraquecer as nações que não compaginam com a convergência escatológica enunciada anteriormente.
E enquanto a Mesquita de Al-Aqsa (que foi erigida no local onde o Terceiro Templo deve ser levantado) será destruída, o Irão, vitorioso desta guerra, regressará ao estatuto de grande potência persa, o que também serve a escatologia sionista, porque a guerra de Gog e Magog será, afinal, uma guerra contra a Pérsia e contra a Rússia.
Mais: na medida em que os Estados Unidos mergulhem numa guerra civil que os condene à selvajaria tribal e à irrelevância geopolítica, a tecnocracia americana imigrará para Israel onde promoverá enfim a tão almejada distopia digital (ou pax judaica).
No entretanto, Moscovo ganha a guerra com a Ucrânia e cumpre a sua profecia ortodoxa de constituir a ‘Terceira Roma’ (ou a segunda Constantinopla) e agregar nesse movimento todo o mundo ortodoxo (que está dividido entre gregos, bálticos, ucranianos e russos). Esta projecção implica que gregos e turcos entrem em conflito, o que pode parecer estranho aos olhos de qualquer pessoa que viva no século XXI e não tenha lido dois ou três livros de história, mas que é sempre uma possibilidade real, num contexto de caos global. É claro que no processo dessa guerra a NATO acabará por ser extinta (a Turquia e a Grécia são estados membros), tanto como o conceito de um Europa politicamente coesa.
Neste sentido, a guerra na Ucrânia, segundo o professor Jiang, tem menos a ver com a protecção de esferas de influência do que com a unificação da ortodoxia por Moscovo e a destruição da Europa liberal, de forma a que a Rússia cumpra o seu destino de ‘Terceira Roma’.
Ou seja: tudo de facto converge neste momento para um cenário apocalíptico, seja qual for a escatologia em causa.
E isto que temos aqui, que nem sequer é monetizado pelo autor, não é uma lição. É um doutoramento. Numa hora apenas.
Bestial.
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