BREVE ENSAIO REVISIONISTA SOBRE OS PROCESSOS DE RUPTURA AXIOMÁTICA DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL
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TESE: As rupturas políticas, sociais, religiosas e económicas que fracturam o percurso da história do Ocidente não decorreram tanto de valores ideológicos ou morais, como da ganância e da Vontade de Poder das suas elites.
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Capítulo I . A Revolução Comercial e o direito a ser rico nesta vida sem ser castigado na outra.

Durante cinquenta anos não fiz mais nada senão ganhar dinheiro e gastar dinheiro; e ficou claro que gastar dinheiro dá-me um prazer muito maior do que ganhá-lo.
Cosimo de Medici (1389-1464)
Depois de 1400 anos dominados pela escolástica que negava aos ricos o direito ao nirvana post-mortem, genoveses, venezianos e flamengos da alta idade média decidiram-se a privilegiar a sua existência terráquea, procurando demonstrar por lógica e factos que ninguém ia parar ao inferno só por viver bem.
Haveria por isso que ganhar o dinheiro bastante para suportar a boa vida.
Ora, foi precisamente esta consideração prosaica que fez cair o Ancien Régime. Se é verdade que os europeus conseguiram viver desprovidos de qualquer vestígio de liberdade durante a eternidade média, o mesmo não se pode dizer da perspectiva do lucro; e tudo o que aconteceu depois – a Reforma, o Renascimento e o Mercantilismo, a fundação dos estados modernos e o advento das democracias – encontrou mais fundamentos na ganância do que na filosofia. No dinâmico e capitalista Mediterrâneo das páginas de Braudel, os mercadores venezianos e os banqueiros genoveses preocupam-se com os piratas e com os juros, arreliam-se com os filipes e com os câmbios, zangam-se com os berberes e com as seguradoras, pelejam com os levantinos e com a inflacção; sem que por isso lhes magoe na consciência o evangelho de João ou a ética de Aristóteles.
Mesmo assim, feliz ou infelizmente, algo resta de S. Tomás de Aquino e de Petrarca e de Santo Agostinho na moral contemporânea. Aqueles que ganham dinheiro a sério foram, são e serão o reactor da combustão social, e por isso, mesmo que inadvertidamente, determinantes para o movimento ascendente – e descendente – das civilizações. Isso não os salvou porém das invejas de sacristia de então, como não os salva dos moralismos de rede social contemporâneos, embora agora o elefante passe muito mais vezes pelo buraco da agulha do que seria recomendável.
Capítulo II . As reformas protestantes devem mais à burguesia capitalista do que ao escrúpulo evangélico.

Quem não for belo aos vinte anos, forte aos trinta, esperto aos quarenta e rico aos cinquenta, não pode esperar ser tudo isso depois.
Martinho Lutero (1486-1546)
O processo de reformas religiosas que rebentou na Europa do século XVI, ficou para a história proverbial dos incautos como um movimento interpretado por homens ascéticos, tolerantes e humanistas contra as imoralidades, os abusos, as orgias, os concubinatos e os desvios identitários perpetrados pela Igreja Católica.
Nada mais falso. Não só os heróis da Reforma eram fanáticos radicais muito pouco dados à complacência para com os dislates do género humano, como o seu triunfo se deveu fundamentalmente à consciência de classe da burguesia comercial do norte da Europa, em guerra aberta contra uma super-estrutura clerical que condenava o individualismo, o lucro e os juros – a santíssima trindade do capitalismo.
Mais aborrecidos com o negócio das indulgências que enriqueceu os cofres de Leão X do que com a promiscuidade que infectou o pontificado de Rodrigo Bórgia, mais preocupados com o elogio da pobreza do que com a proliferação do deboche, os grandes comerciantes alemães, suíços, holandeses e ingleses, soltaram a rédea aos seus prelados mais ambiciosos, dando-lhes o poder político e económico de que necessitavam para alterarem a constituição da metafísica.
Enquanto no Sul da Europa a burguesia pagava ao Papa pelo acesso ao paraíso, no Norte o investimento foi feito na arquitectura de um novo Éden, sem portagens.
Seja como for, e como Max Weber soube demonstrar uns séculos mais tarde, sem o triunfo protestante, o mundo Ocidental teria hoje uma outra cartografia. E o dinheiro, seguramente, uma cor diferente.
A REFORMA LUTERANA
O monge alemão Martinho Lutero foi o primeiro radical reformista. Não é verdade que tenha afixado na porta da Igreja de Wittenberg as suas 95 teses revolucionárias, mas com este documento obrigou a Igreja Católica ao Concílio de Trento e a aristocracia alemã a magistrais golpes de rins.
Condenando o sistema de indulgências, a escolástica aristotélica, o uso do latim na eucaristia e o culto das imagens, revogando o celibato, traduzindo a bíblia para o Alemão e dando largo uso à invenção de Gutenberg, Lutero deixou uma herança pesada na psicotropia, na semiótica, na filologia e na literatura modernas.
Servindo-se recorrentemente de expressões claras e poderosas nos seus sermões e escritos, ficou famoso por tiradas verdadeiramente sensacionistas, como por exemplo:
“Se eu der um peido aqui, a gente de Roma o cheira”.
A REFORMA CALVINISTA
João Calvino trouxe para França a Reforma Luterana no ano de 1534. De acordo com a sua doutrina, os labores da vida terrena eram uma dádiva divina e a salvação da alma ocorria também pelo trabalho justo e honesto. Esta ideia atraiu naturalmente burgueses e banqueiros, não deixando de ser, porém, precursora dos materialismos históricos de Max Weber e Karl Marx.
Nunca tendo sido ordenado, assumiu sempre a condição de sacerdote. Muito dado a polémicas, picardias e rivalidades, foi expulso de Paris, de Basileia, de Estrasburgo e, por duas vezes, de Genebra.
Em 1553, Calvino mandou queimar Miguel Servet, um médico espanhol que considerou herético apenas porque tinha com ele trocado correspondência em tom insultuoso.
“Se Servet vier a Genebra, eu nunca o deixarei escapar vivo.”
Servet foi a Genebra e acabou na fogueira.
A REFORMA ANGLICANA
“King Henry the Eighth, to six wives he was wedded:
One died, one survived, two divorced, two beheaded”
Em Inglaterra, a Reforma ocorreu quando Henrique VIII, apesar de sempre ter sido um católico fanático, rompe com o papado por uma questão de saias. Achando-se no direito sagrado de celebrar divinas uniões matrimoniais com quem lhe aprouvesse, e quantas vezes desejasse, e de decapitar as suas mulheres e os seus chanceleres de cada vez que os seus humores eram perturbados, o rei funda o casamenteiro Anglicanismo com o apoio incondicional da burguesia inglesa, que aumentou brutalmente o seu poder financeiro através da apropriação dos bens da igreja católica.
Capítulo III . Não foi para impor liberalidades parlamentares que Cromwell levou o rei Carlos à guilhotina. Foi para reforçar os poderes da burguesia.

Em certo sentido, os dois momentos de convulsão que constituem a Revolução Inglesa – a “Revolução Puritana” de 1640 e a “Revolução Gloriosa” de 1688 – não foram mais que processos de consolidação prática da Magna Carta de 1215, já então redigida com o intuito de retirar poderes à coroa, cristalizar os interesses e a autonomia das oligarquias aristocráticas e comerciais e fundar aquilo a que hoje designamos por Estado de Direito.
Durante 4 séculos, o documento foi ignorado ou deturpado pelos sucessores do Rei João – ele próprio um antagonista da Carta – simplesmente porque não existiram na sociedade inglesa as motivações materiais para a sua integral implementação.
Essas condições surgem apenas no século XVII e são, claro, de ordem económica.
Entre os Séculos XVI e XVII, os Tudor unificaram o país, domesticaram a nobreza, impossibilitaram a ingerência papal ao criarem a igreja nacional inglesa, confiscaram as terras da Igreja Católica e passaram a disputar, à escala global, os domínios coloniais com portugueses, espanhóis e holandeses. Tudo isto, porém, não chegou para agradar à burguesia mercantil, que via o poder absoluto da coroa como um impedimento à maturação do capitalismo; nem aos artesãos, que pagavam caro por produtos cujo monopólio a Coroa vendia a alguns privilegiados da burguesia financeira e da aristocracia de corte.
Por outro lado, o desenvolvimento económico levou à alta de preços e ao aumento do consumo de alimentos e matérias-primas, como a lã, factor que valorizou a propriedade rural. De forma a criar grandes unidades de produção agrícola, os proprietário rurais começaram a ocupar e delimitar as terras colectivas, devolutas ou sobre as quais havia uma posse precária, de forma a criar grandes unidades de produção agrícola (enclosures). Este movimento despojava as populações rurais de meios de produção e condições de subsistência.
De forma a preservar o equilíbrio social, a coroa impediu os cercamentos rurais, enquanto – para manter o equilíbrio das contas do Estado – insistia no sistema de monopólios comerciais. Assim, hostilizava os dois sectores mais poderosos da sociedade: a burguesia mercantil e a nobreza rural, a gentry.
A Revolução de 1640 resulta pois da insatisfação dos agentes capitalistas e Cromwell estava mais preocupado em satisfazer as ambições destas classes – e, já agora, do poderoso exército parlamentar que entretanto criara – do que em trazer a democracia constitucional ao povo britânico.
Tanto assim que, mesmo depois de ter mandado cortar a cabeça de Carlos I e instaurado uma república totalitária, só não aceitou a sua própria coroação porque sabia que as forças sociais que o tinham apoiado até aí o conduziriam de bom grado ao cadafalso. Aceitou no entanto o cargo de ditador, num breve interregno republicano.
Com a subsequente restauração de uma monarquia constitucional que atribuía apenas ao Rei a figura de corpo presente – em 1688 – o que sobrou da Revolução Inglesa foi a mais poderosa armada do mundo, muito útil para uma nação que dominaria os oceanos no século seguinte; a consolidação das estruturas de um capitalismo rural que está na origem do posterior triunfo da indústria britânica, e o tripé fundamental para o desenvolvimento do país: o Parlamento, o Tesouro e o Banco de Inglaterra.
Capítulo IV . Ao contrário do que gostamos de pensar, os revolucionários de 1789 estavam mais interessados no triunfo do liberalismo do que na instauração da República.

Quem eram os sete prisioneiros da Bastilha? Quatro falsários, dois loucos e um jovem tarado cuja família pedira ao Rei a sua detenção.
Nelson Fragelli
A Revolução Francesa durou três décadas e provocou milhões de mortos. Para a história e o senso comum ficou a noção de que, no final do século XVIII, o que estava em jogo era o triunfo de um ideal humanista mais ou menos igualitário, através da implantação de uma república mais ou menos socialista. O equívoco não pode ser maior.
Apesar das insurreições populares – muitas vezes de valor simbólico mais que de impulso sociológico; apesar da violência demente dos jacobinos, das reacções militares dos absolutistas e das sucessivas guerras fronteiriças que assolaram a França desse tempo, a Revolução foi um processo essencialmente gerado, patrocinado e quase sempre controlado pela alta burguesia rural e urbana, que combatia em nome do capitalismo moderno e que nunca teve a mais pequena intenção de deixar cair o poder nas mãos do povo. De tal forma assim sucedeu que foram frequentes os levantamentos de camponeses que rejeitavam as políticas de Robespierre e clamavam pela restauração da boa e velha monarquia solar.
É certo que, por entre o caos revolucionário, a burguesia acabou por se feudalizar, subindo ao poder político através da coroa e não contra ela, mas foi precisamente esse processo ascendente que retirou à monarquia a capacidade de travar o movimento liberal, este sim, o verdadeiro carrasco do Antigo Regime.
Capítulo V . É lamentável, mas a Revolução Americana deve mais à proverbial rejeição dos impostos do que à causa igualitária.

Quem pensa que a Guerra da Independência Norte-Americana se deveu ao princípio da igualdade dos homens perante Deus, deve pensar outra vez. Na sua pose de libertadores da América, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e George Washington não conseguem esconder um decisivo pormenor: se não fosse a voracidade fiscal dos ingleses, os Estados Unidos seriam hoje uma nação consideravelmente mais jovem.
Muito pouco ingénuos, os signatários da Declaração da Independência falavam mais na igualdade do que na protecção do comércio, da propriedade e da possibilidade inegociável de enriquecer tranquilamente, mas é hoje líquido que foram razões de ordem material e não ideológica que despoletaram a Revolução.
Não é aliás por acaso que os acontecimentos se precipitam em 1764, ano da aprovação do Sugar Act – um ambicioso pacote de impostos sobre as colónias que se destinava a amparar a frágil tesouraria imperial britânica.
A verdadeira causa da Revolução Americana não é a igualitária. É a de que as políticas fiscais são legítimas apenas se forem impostas por representantes eleitos pelos contribuintes: no taxation without representation.
Nas palavras de Braudel:
“A grande ideia que atormenta e anima esses proprietários, esses homens de negócios, esses juristas, esses plantadores, esses especuladores e manejadores de dinheiro – esses aristocratas – é a de proteger a propriedade, a fortuna, o privilégio social.”
Tanto assim que Jefferson, um homem com escravos em casa, acaba por adicionar um curioso subterfúgio na Declaração, afirmando que o homem nasce igual perante Deus e perante a lei (dois conceitos abstractos) e não, como seria honesto, que o homem simplesmente nasce igual perante o seu semelhante. Isto, claro está, para desobrigar o burguês dos estados do norte a dividir em partes iguais o seu espólio com a populaça, tanto como para salvar da ruína o aristocrata esclavagista do sul.
Conta-se que, depois da famosa travessia do Delaware e consequente vitória sobre o regimento Hassiano (a primeira do seu debilitado exército), George Washington começou por se recusar a receber pessoalmente a rendição do moribundo general alemão, considerando petulantemente que não daria essa satisfação a um bárbaro mercenário. Mas quando um dos seus oficiais o lembrou de que o exército rebelde devia a sua génese a um desagravo fiscal, aquele que viria a ser o primeiro presidente da jovem Federação tirou rapidamente as suas conclusões e acabou, como mercenário civilizado, por ceder às evidências, visitando o seu inimigo para que este pudesse enfim entregar sossegadamente a alma ao diabo.
Não por acaso, a Revolução Americana, materialista na sua essência, acabou por gerar a nação que fez império através da exportação e imposição do capitalismo liberal à escala global. Não por coincidência, ainda hoje podemos ler nas notas de dólar a inscrição: “In God We Trust”. O dinheiro é e sempre foi a religião oficial dos Estados Unidos da América.
(Continua – Segunda parte será publicada no sábado, 21 de Março)
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