Trazes, na profundidade pastoral dos teus olhos,
a sabedoria que sábios olvidam e filósofos almejam.
O conhecimento que tens do mundo
é a inveja de biólogos, e o desespero de sacerdotes.
Vives em harmonia com gatos e gaivotas
e és leal e jovial vizinha de vizinhos.
O teu instinto descodifica o Mistério
e a tua perfeita proporção resolve a paisagem.
És bela sem dar por ela; és joia sem valor de mercado,
e o teu trote não tem vestígio de vaidade.
Brincas com o cosmos, despreocupadamente, e eu
sou capaz de apostar que tratas Deus, por tu.
Caminhas comigo pelos interstícios da noite
com solene e fraterna alegria.
E somos os dois, cadela e homem, apenas um bicho
no fim da caminhada.
O teu calor consola-me os invernos
e a tua beatitude pacifica-me o feitio.
És minha amiga máxima como amizade fiz apenas
com outros da tua espécie.
És isenta de pecado e de culpa –
A literal encarnação da inocência.
És doce como uma virgem escocesa,
tão doce, que quase dói o teu carinho.
És a minha redenção de quatro patas,
anjo da guarda que me guardas de todo o mal.
Há quem acredite que os cães não têm alma, mas tu, Ofélia,
confias em mim para desprezar essa gente.
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