A primeira parte deste ensaio foi publicada na terça-feira, 11 de Março.

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e) O Posicionamento da Europa, da Rússia e da China

O conflito atual expõe fraturas significativas e cálculos estratégicos diferenciados por parte das potências globais.

Europa: A União Europeia enfrenta um “teste de resistência existencial”. Ao contrário da Ucrânia, onde havia uma unidade razoável devido à proximidade geográfica e à ameaça percebida, o conflito iraniano revela a debilidade da UE. A Europa carece de instrumentos militares credíveis, a respetiva influência económica no Médio Oriente diminuiu com o crescimento da China, e a unidade política esvai-se diante dos custos estratégicos. A Europa reagiu reforçando a presença militar na região e discutindo medidas de defesa, com Emmanuel Macron a sublinhar a necessidade de fortalecer a capacidade militar e nuclear europeia. Contudo, a UE é vista como “insignificante” em termos de poder real no terreno, com o desfecho do conflito a ser moldado por atores como EUA, Rússia ou Israel. A dependência energética da UE é um fator crítico que limita a sua margem de manobra (ver ponto f).

Rússia: A Rússia condenou os ataques dos EUA e de Israel, classificando-os como um “ato não provocado de agressão armada” e uma violação do direito internacional. A parceria militar entre Moscovo e Teerão, incluindo o fornecimento de drones iranianos para a guerra na Ucrânia, é conhecida. Contudo, o “apoio” russo tem sido, em larga medida, retórico, sem indicação ou predisposição de intervenção militar direta. Eventualmente a Federação Russa terá disponibilizado alguma informação militar (intelligence) relevante ao Irão. A Rússia, “exaurida” por mais de três anos de guerra na Ucrânia, com perdas humanas e escassez de mísseis e munições, não tem capacidade para abrir um novo teatro de confronto com os EUA no Médio Oriente. A sua economia é menor (USD 32 trillions dos EUA vs. 2 trilllions da Federação Russa – em PIB  nominal)  e o “abismo tecnológico” com as forças de EUA e Israel, que operam uma guerra plena com integração total (ar, mar, terra, espaço, cibernético, IA), limitam sua capacidade de atuação. Feitas as contas a  Rússia calcula que “salvar o Irão é mais caro do que deixá-lo queimar”. A sua prioridade estratégica continua a ser a Ucrânia.

China: A questão da postura da China em relação às tensões e conflitos envolvendo o Irão é um exercício de equilíbrio pragmático. Embora a China seja o maior parceiro comercial do Irão, o maior importador do seu petróleo e um aliado estratégico importante, Beijing evita a todo o custo um envolvimento militar direto ou um apoio político “incondicional” que possa prejudicar os seus próprios interesses globais. Com efeito, o Irão fornece 1,3 a 1,4 milhões de barris/dia de petróleo à China com desconto de 11$ abaixo do mercado. São milhares de milhões de dólares economizados por ano. Dinheiro que ajuda a financiar a corrida tecnológica, a construção naval e a constituir as suas reservas estratégicas. Ora se o regime iraniano colapsa, esse petróleo barato desaparece. Todavia, se a guerra eleva os preços globais, o IMPACTO é DUPLO: por um lado, a  China perde o desconto de que beneficiava e,  por outro,  vai pagar mais caro pelo que vai ter de importar de outros países. Isto significa que as fábricas vão perder as margens de lucro, as exportações sofrem pressões e o desemprego urbano, em larga escala, ameaça a estabilidade política. Tanto quanto se sabe, a China tem continuado a canalizar armamento para o Irão. Todavia, não é do interesse de Beijing envolver-se numa guerra de alta perigosidade, de desfecho incerto e com problemas mais prementes na sua vizinhança imediata (Taiwan e o Mar do Sul da China). Mais uma vez se aplica a máxima aplicada à Rússia: salvar o Irão custa mais caro do que deixá-lo queimar.

Em suma, quer no caso da Rússia, quer no da China: o Irão descobre que nunca teve aliados permanentes, apenas compradores.

 

Enghelab Square, Teerão, 3 de Março . Wikipedia . Tasnim News Agency

 

f) As Questões Energéticas: O Impacto Económico e Financeiro

As questões energéticas estão no cerne da crise, com impactos económicos e financeiros globais. O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial e grande parte do gás exportado, principalmente, pelo Catar, gerou uma alta persistente do preço do petróleo e do gás.

Impactos Regionais:

  • Produção Paralisada: Catar suspendeu a produção de GNL após ataques a instalações. Arábia Saudita fechou temporariamente a sua maior refinaria. No Curdistão iraquiano, a produção de petróleo está paralisada. Em Israel, campos de gás no mar foram interrompidos. No Irão, explosões foram registadas na ilha de Kharg, principal ponto de exportação de petróleo.
  • Rotas Alternativas: Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos investem em oleodutos terrestres, mas com capacidade limitada para desviar todo o volume que passa por Ormuz.
  • Vulberabilidade do GNL: Cerca de 20% das exportações globais de GNL, principalmente do Catar, estão em risco. Países como o Paquistão, o Bangladesh e a Índia, altamente dependentes do GNL do Golfo, são os mais vulneráveis, com escassez e aumento de custos.
  • Petróleo Chinês: O Irão é crucial para a China, fornecendo petróleo a preços subsidiados. Um bloqueio prolongado impactaria a economia chinesa em semanas, com forte aumento dos preços.

Impactos Globais:

  • Preços do Petróleo e Gás: Subidas acentuadas, com o gás natural Dutch TTF na Europa a disparar 20,4% e preços que podem continuar a aumentar em caso de interrupção prolongada.
  • Inflação: O aumento dos preços da energia tende a impulsionar a inflação global e as taxas de juro, gerando restrições ao crédito e impactando o crescimento económico. Estamos falar na chamada cost-push inflation ou energy driven inflation
  • Mercados Financeiros: O clima de tensão global leva à descida das bolsas de valores e ao reforço do dólar como ativo de refúgio.
  • Dependência Energética da Europa: A estratégia energética da UE, de se “libertar da dependência” do gás russo, tornou-a mais vulnerável à volatilidade do mercado de GNL. Com níveis de armazenamento abaixo de 30% e a suspensão da produção do Catar, a Europa enfrenta um “momento de pânico”. A situação pode beneficiar a Rússia como fornecedor alternativo.

O alastramento do conflito e a potencial interrupção prolongada do transporte de hidrocarbonetos por Ormuz representam um risco sistémico para os mercados globais, com um impacto profundo na inflação, no crescimento económico e na estabilidade financeira.

 

Campas das crianças mortas na escola Shajare Tayyiba, em Minab, Irão, por um ataque das forças americanas a 28 de Fevereiro . Iranian Press Centre

 

g) O que se pode concluir ou é por ora tudo muito nebuloso e todas as especulações são possíveis? (Síntese Conclusiva)

Diante da complexidade e da “confusão reinante”, a conclusão mais informada parece ser, paradoxalmente, a de um estado de incerteza profunda e multifacetada, onde a maioria das especulações são, de facto, possíveis. A guerra na região não é um conflito linear, mas um “jogo de póquer onde todos fazem ‘bluff’ e ninguém mostra totalmente as cartas”, tornando qualquer prognóstico categórico prematuro e provavelmente falível.

Enumeram-se as seguintes conclusões parciais:

    1. A Informação como Arma e a Desinformação Coordenada: Vivemos num ecossistema mediático onde a informação é uma arma e o lixo tóxico da desinformação (incluindo IA) polui o fluxo informativo. A “guerra de narrativas” é central para a estratégia dos Estados envolvidos, dificultando a distinção entre facto e ficção e manipulando as perceções.
    2. O Império Americano e a Percepção da “Pirataria”: A ação dos EUA é percebida por muitos como “pirataria” – uma imposição unilateral pela força, desprezando as regras que os próprios ajudaram a criar. Esta abordagem gera medo e imprevisibilidade, forçando outros atores a ajustarem-se à vontade de Washington.
    3. A Irrelevância e Fratura da Europa: A União Europeia mostra-se fraturada e irrelevante no contexto deste conflito, sem poder de defesa ou diplomacia significativo para moldar os acontecimentos. A sua dependência energética exacerba a sua vulnerabilidade.
    4. Cálculo Frio de Rússia e China: Moscovo e Beijing, apesar das condenações retóricas e das relações com o Irão, não demonstraram vontade de intervenção militar direta. Os respetivos cálculos são pragmáticos e centrados nos seus próprios interesses estratégicos e sobrevivência, priorizando outras frentes (Ucrânia para a Rússia, Taiwan para a China) e evitando um confronto direto com os EUA.
    5. A Resiliência Iraniana e o Risco de uma Vitória Pirrónica para EUA/Israel: O Irão demonstrou uma notável capacidade de resistência militar e estratégica, com uma tática de descentralização e armamento avançado. Mesmo com danos significativos, o regime pode sobreviver e continuar a ser uma força desestabilizadora. Uma vitória militar imediata por parte de EUA e Israel pode, na verdade, ser uma vitória pirrónica, levando a um conflito prolongado e a uma reconfiguração regional que não lhes seja favorável.
    6. O Alastramento Regional e a Volatilidade Energética: O conflito já se espalhou regionalmente e o fecho do Estreito de Ormuz gerou um impacto económico global severo, com o aumento dos preços do petróleo e gás e riscos de inflação e instabilidade nos mercados financeiros. A persistência desta situação é insustentável para a economia mundial.
    7. A Reconfiguração do Equilíbrio de Poder: A crise está a redefinir o equilíbrio de poder no Médio Oriente, consolidando blocos específicos (Irão e proxies vs. Israel, EUA e monarquias do Golfo) e acelerando a transição de guerras por procuração para confrontos mais diretos.

 

Bombardeamento e ruínas nos arredores de Telavive, Israel . 3 de Março

 

Em última análise, a “não-certeza” é o único estado de espírito sensato. Não há ‘xerifes’ ou ‘bons polícias’ óbvios, e os resultados serão moldados por uma complexa interação de interesses, poder militar, economia e resiliência dos atores envolvidos. A única certeza é que a região e o mundo entraram num estágio de maior volatilidade estrutural, onde a margem para o erro é estreita e as consequências poderão ser imprevisíveis e de longo alcance.

Considerar o Irão “militarmente vencido” é prematuro: apesar de eventuais danos em infraestruturas, o país mantém capacidade de dissuasão através de instrumentos militares, políticos e regionais. A degradação de meios não equivale, por si só, a derrota estratégica.

Por outro lado, a tensão no Estreito de Ormuz coloca sérios desafios aos EUA, com impacto direto no plano energético e nas cadeias de abastecimento globais. Também não é claro que Washington possa reivindicar uma vitória inequívoca: em conflitos desta natureza, a perceção política e a credibilidade internacional contam tanto quanto os resultados operacionais.

Assim, mais do que vencedores ou vencidos, o que emerge é um cenário de desgaste mútuo — o Irão demonstra resiliência, os EUA veem a sua posição regional fragilizada e o custo estratégico das suas intervenções reabre-se ao escrutínio. Em política internacional, os resultados raramente são absolutos.

 

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.